terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O Fundo da Baía


O Comilão acabou de ler, esta semana, O Fundo da Baía, de Joseph Mitchell (a quem dedicou um post anterior). É um livro delicioso, ainda que, e serve isto também para remar contra o coro de elogios, algumas das histórias tenham informação excessivamente detalhada sobre as zonas ribeirinhas do Hudson (Kill van Kull, Prince's Bay, Stonington e por aí fora). Para quem não domina a geografia da região, que é o caso de qualquer leitor português, em princípio, torna-se difícil e cansativo orientar-se em águas que não conhece. Seria como falar de Cacilhas, Ginjal, Barreiro, Peniche, etc. a um norte-americano. Fora isso, merece todos os elogios que lhe foram feitos e mais alguns. O texto sobre a peste e os ratos, seus hábitos, riscos e façanhas, merece um destaque especial. 4 estrelas

bons filmes

Bons filmes que o Comilão tem visto ultimamente:

Três Reis, de David O. Russell
Guerra do Iraque. Um grupo de oficiais norte-americanos encontra por acaso os mapas dos bunkers onde se presume que Saddam escondia o ouro. Não olham a meios para atingir o seu objectivo, mas quando são capturados pelos fiéis de Saddam vêem-se obrigados a negociar. Serão estes soldados tão destituídos de princípios como parecem? Misto de realismo (tipo reportagem de guerra) e cómico absurdo. 4 estrelas

Tropa de Elite, de José Padilha
Fita sobre o BOPE, o esquadrão de polícias incorruptíveis encarregado de pôr ordem nas favelas. Tem um início brutal e até ao fim nunca perde o gás. 4,5 estrelas

Shutter Island, de Martin Scorsese
Um detective vai para uma ilha onde está instalado um hospital psiquiátrico. Depara-se com um estranho médico que parece submeter os pacientes a tortura. Espécie de 'thriller lunático' sobre os fantasmas e labirintos tortuosos da mente humana. 3,5 estrelas

Cemetery Junction, de Ricky Gervais e Stephen Merchant
Filme sobre os dramas de três amigos adolescentes numa terriola britânica nos anos 70. Um quer ter um emprego estável e casar, o outro é um brigão sem remédio e revoltado com o pai, um alcoólico sem objectivos, o terceiro é gordo e barraqueiro. Bem esgalhado. 3,5-4 estrelas

Shatered Glass - Verdade ou Mentira
História verídica. Um jovem jornalista do New Republic consegue sempre histórias mais deliciosas e picantes do que os colegas. Finge-se humilde e atencioso, dá graxa aos chefes, e assim vai construindo um sucesso precoce. Até que surgem dúvidas sobre a veracidade dos seus artigos e ele começa a revelar uma faceta mais negra. 3 estrelas

Homens que matam cabras com o olhar
Mais um fime sobre a guerra em que o realizador consegue tornar um lado cómico e absurdo (bem patente no título) em algo credível. Um grupo de militares treinados para se tornarem especialistas em telepatia (ESP, extra sensorial perception, na expressão de Aldous Huxley) reúne-se em torno de um guru. Têm regras e privilégios diferentes dos outros militares, mas conseguirão manter os princípios justos e o espírito algo hippie que os animam?
3,5 estrelas

Abre tus ojos, de Alejandro Aménabar
Um playboy rico e jovem tem um acidente de automóvel provocado pela namorada. Depois de muitas tentativas de reconstituir a sua cara desfigurada, que o está a traumatizar, consegue recuperar as feições originais. Mas vive na permanente incerteza de se aquilo que está a viver é a realidade ou um sonho encomendado. 3,5 estrelas

O Escritor Fantasma, de Roman Polanski
Um jornalista [Ewan McGregor] é recrutado pelo seu agente literário para redigir as memórias de um político retirado. Mas para isso tem de ficar aprisionado na propriedade do rico ex-primeiro-ministro. À medida que investiga o desaparecimento do seu antecessor começa a ver a sua vida ameaçada. 3 estrelas

Juno, de Jason Reitman
Uma história simples que, à medida que se vai desenvolvendo, vai ganhando em subtileza e complexidade. Personagens muito bem construídas, com realismo e densidade emocional. E ainda uma boa dose daquele humor que nos enche a alma. 4,5 estrelas

Comer na Escócia

Na noite de comemoração do aniversário do casamento do casal Comilão, o Comilão e sua mulher foram jantar ao bistro do Bosville Hotel, em Portree, capital da ilha de Skye. A uma mesa de distância estava o sofisticadíssimo Chandlery restaurant (fine dining), recomendado pelo Guia Michelin. Para entrada, lagostins ao vapor: tinham pouco para comer, como é costume nestes crustáceos, mas o que tinham era fantástico. Contudo, o mais fantástico veio depois: um T-Bone steak (22 oz) com manteiga de alho, talvez o melhor bife que o Comilão já comeu na vida. Verdadeiramente empolgante. E o preço nem foi exagerado: cerca de 50 libras pelas duas refeições. Ao lado do casal Comilão estava estava um homem gordíssimo, provavelmente americano, com a sua mulher bem arranjada. Parecia feliz (ver conto de Raymond Carver 'Um homem muito gordo') 4,5 estrelas

Outras refeições:
O primeiro almoço foi no Jimmy Chung's, um buffet chinês na Waverly Bridge. Muita escolha, boa comida, ambiente simpático e preço em conta. Uma boa escolha para viajantes.

Crannog Seafood Restaurant (recomendado pelo Guia Michelin) - mexilhões com molho de cebola e natas (à primeira garfada, a mulher do Comilão disse que sabiam a maré vazia...), bolinhos de peixe e robalo grelhado com ervas. Óptimo ambiente, bonita casa em madeira junto ao lago, comida boa, mas não comparável com a dos bons restaurantes do género em Portugal. 3 estrelas

Pub em Kylesku: patas de caranguejo panadas (muito boas), sopa de peixe (ok), batatas recheadas com maionese de alho (bom), salsicha tipo italiana e pão de alho (menos bom). 3 estrelas

Pub perto de Blair Castle: tábua de entrecosto com molho barbecue. Excelente. O café, que foi servido numa cafeteira, inspirou logo um pequeno ensaio ao Comilão 3 estrelas

Cawdor Tavern (antiga oficina de carpintaria do castelo): um pão que era uma coisa do outro mundo (os Comilões pediram mais um cestinho e a empregada pareceu não achar muita graça). O sunday roast tinha acabado de acabar, pelo que o Comilão teve de se contentar com um vulgar fish and chips. Bom ambiente, algo luxuoso até, mas o serviço deixa a desejar. 2,5-3 estrelas

Riva (Inverness): da primeira vez o Comilão e sua família foram à pizzeria que há no andar de cima. Boas pizzas com um senão, o excesso de pimenta que dominava o paladar. Da segunda vez experimentámos o requintado restaurante de baixo. Bom ambiente. Para entrada, um trio de crostini (razoável). Para prato, uma pasta com salmão e uma espécie de carré de borrego com risotto (talvez a carne estivesse algo salgada). Serviço entre o desleixado e o impertinente. 2,5 estrelas (algo decepcionante para o que parecia prometer)

Também em Inverness os Comilões não desperdiçaram a oportunidade de revisitar a velha Subway (infelizmente extinta em Portugal) e de comer uma sandes com tudo aquilo a que tiveram direito!

Merece aqui ainda uma referência ao almoço no TGI Friday's (Glasgow). Um óptimo, óptimo Jack Daniel's burger e ambiente sempre alegre, com direito a balão para as crianças. 4 estrelas! (só não está certo terem recusado a família do Comilão uns dias depois)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

ceia de Natal


Aqui fica uma imagem da ceia de Natal da família do Comilão. Lombos de bacalhau (congelados, Pingo Doce), ovo e legumes cozidos (grão, batata, bróculos, cenoura, cebola), cebola e alho picadinho. Faqueiro de prata. Copos de cristal. Azeite Risca Grande Antique. Só ele merecia um post próprio. Trata-se de um azeite virgem extra com produção limitada a 2 mil garrafas anuais, feito a partir das oliveiras mais antigas da propriedade, árvores que têm entre 200 e 500 anos. Foi comprado na Ex Libris Gourmet, uma lojinha muito bem arranjada e bem abastecida em Tavira (6 euros e qualquer coisa uma garrafa de 250 ml). Meia garrafa de vinho Duas Quintas. Sobremesa: crumble de banana com gelado de nata. Uma maravilha.

biblioteca pessoal

Corri seca e meca
dei cabo da coluna
e gastei uma fortuna
para ter esta biblioteca

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Café Buenos Aires


Para quem não pode ir à capital argentina, aqui fica uma sugestão mais em conta. Situa-se ali perto do Largo do Carmo, na Calçada Escadinhas do Duque. Podemos começar pelo ambiente: paredes de tons quentes, com cartazes e fotografias antigas e música que parece saída de uma velha grafonola. Mesas próximas umas das outras, mas apesar de tudo com alguma privacidade.

Couvert
: pão com pasta de azeitona. Para entrada o Comilão e sua mulher pediram uma salada de flores com morangos e queijo de cabra. A salada tem aspecto de sobremesa, pois é muito colorida e vem temperada por um emaranhado de fios de redução de balsâmico que imitam muito bem topping de chocolate. O queijo de cabra é delicioso e tudo liga às mil maravilhas. As flores não são apenas altamente comestíveis como agradavelmente doces. Em vez dos anunciados morangos apareceram framboesas, que não destoaram, embora os morangos provavelmente ligassem melhor. O paladar confirmou a impressão de que esta salada poderia servir de sobremesa.

A seguir veio o bife, ou melhor, meio bife (o inteiro é uma alarvidade). Tinha um problema: para bife médio-mal passado estava demasiado cozinhado e, por conseguinte, algo seco. (E mesmo o 'muito mal passado' não estava tão cru como seria expectável). Mas a carne vê-se que é saborosa e de qualidade. Não foi, contudo, aquele bife fenomenal de que o Comilão estava à espera. Acompanha com batatas caseiras às rodelas, cebola confitada e cenouras temperadas com alho e coentros.
O manjar foi regado por uma garrafa de Vertente (ou Vértice?) (Nieeport, Douro, ano 2008), que se revelou um óptimo vinho.

O café BA possui ainda uma esplanada que deve ser muito agradável nas noites de Verão. A casa de banho (mista) tem as paredes forradas de registos de contabilidade antigos, páginas de jornal e cartas de outros tempos. À frente do lavatório há uma lista das sobremesas: uma ideia engenhosa. O Comilão e sua mulher pediram um crumble de maçã com bola de gelado, que consideraram bom, mas não delicioso.

4 estrelas, segundo o rigoroso critério do Comilão
Preço: 70 euros (refeição para duas pessoas com entrada, dois pratos principais, garrafa de vinho, sobremesa e café)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Mar d'Areia, Ericeira

O Comilão foi com a sua mulher passar o último fim-de-semana à Ericeira. Para quem se queixa de que na Ericeira não se come bem, aqui fica uma sugestão: o Mar d'Areia. É um restaurante familiar, popular e relativamente modesto mesmo junto ao mercado (Rua Fonte do Cabo). Atenção: é melhor ir cedo (ou tarde, mas aí arriscamo-nos a que já não haja muita escolha) porque enche, mesmo quando a vila parece deserta.

Para começar, um pãozinho mesmo bom (de Mafra?) com manteiga. E, para quem quiser, queijo fresco. Depois, como entrada, o senhor mencionou umas pataniscas e o Comilão não se fez rogado. Deliciosas, leves, no ponto de fritura ideal. Melhor é difícil, se não impossível.
Depois veio um óptimo robalo para dois, escalado, grelhado no carvão por quem sabe e acompanhado por legumes cozidos. Fresquíssimo.

Sempre que come peixe grelhado, o Comilão lembra-se de uma passagem muito bonita das Memórias de Adriano, em que o próprio diz como aprecia a simplicidade de um peixe fresco grelhado só com uma pedra de sal.

Para finalizar, uma mousse de chocolate. 'É feita cá?', perguntou a mulher do Comilão. 'Aqui pela minha pessoa', respondeu a senhora com orgulho. Um orgulho justificado, diga-se, pois a mousse estava óptima. 'No Inverno fica assim rijinha', acrescentou a senhora. 'No Verão é mais difícil, às vezes é difícil ligar'.

E por quanto ficou este manjar imperial para duas pessoas? 31 €: um preço muito em conta, para não dizer 'uma pechincha', tendo em conta que o peixe fresco não é barato.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O verdadeiro significado do verbo 'seleccionar'

Ao passarmos em Alcântara, o condutor do táxi afirma convicto:

- Isto durante semanas esteve p'ra aqui tudo embrulhado, mas entretanto eles já seleccionaram o problema.

Um mestre do ofício: Joseph Mitchell (1908-1996)


O Comilão acaba de adquirir O Fundo da Baía, um livro de crónicas de Joseph Mitchell. JM foi um repórter norte-americano (trabalhou para a New Yorker desde 1938 até à sua morte), autor de O Segredo de Joe Gould, uma verdadeira pérola da literatura. A edição portuguesa recebeu prefácio de António Lobo Antunes, que não lhe poupou elogios.
Mitchell nasceu na Carolina do Norte em 1908, mas um artigo escrito sobre um leilão de tabaco (a sua família tinha uma quinta de algodão e tabaco que ele manteve toda a vida) chamou a atenção de um editor de Nova Iorque. Mudou-se para lá em 1929 e nunca mais deixou de viver na cidade, escrevendo sobre as figuras peculiares que ia conhecendo nas ruas, nos cafés, nas zonas portuárias, nos salões de jogos. Faleceu em 1996. Ornitólogo amador, disse que o acontecimento mais espectacular que alguma vez testemunhou foi um pica-pau a desfazer madeira de uma árvore no paúl de Ashpole (CN). Ficou a observá-lo durante uma hora.

Lembrei-me muito da personagem de Joe Gould quando, há poucos dias, se soube a notícia da morte de João Serra, o Senhor do Adeus. São figuras excêntricas e marginais como estas que emprestam alma às grandes cidades.

Aqui ficam três louvoures (absolutamente justos) à obra de Mitchell:

«A riqueza de pormenores, o equilíbrio da descrição dos retratos que Mitchell traça de trabalhadores nova-iorquinos que trabalham em estruturas de aço, de vigaristas ciganos, de exterminadores de ratos das docas... são divertidos, fluidos, apurados, ácidos e comoventes... Aqui está um livro que deveria continuar a servir de inspiração aos jornalistas que aspiram registar falas memoráveis de todos os géneros»
The Atlantic

«Um dos melhores escritores americanos de não-ficção... Mitchell, um grande repórter, talvez o que melhor sabe ouvir de todos os jornalistas vivos... Quem quiser ouvir a América a falar, é por aqui que deve começar»
USA Today


«Desde perto dos tempos da última Guerra Mundial que os escritores das revistas de Nova Iorque têm tentado soar como Joseph Mitchell»

Observer

Joseph Mitchell
O Fundo da Baía
Âmbar
219 págs., 5 euros (na venda de livros da estação de comboios de Cais do Sodré)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Martin Page, A Primeira Aldeia Global

Um livro de história conciso e muito instrutivo - escrito de forma vívida e cativante por um jornalista. Aqui fica uma informação imensamente curiosa e relevante:

«Sete anos mais tarde [provavelmente 1596], o conde de Essex, juntamente com Sir Francis Drake, Sir Walter Raleigh e outros, dirigiram-se de barco para a costa sul do Algarve. [...] Os soldados desembarcaram e, após destruírem as pescas de atum existentes no porto, foram conduzidos, pelo conde, até à cidade, que, entretanto, fora abandonada pelos moradores. A mansão mais nova e mais bela de Faro era o Paço Episcopal. Essex mudou-se para lá, emquanto os soldados vagueavam pelos arredores, queimando aldeias sem encontrarem nada de valor, além de vacas e porcos. O bispo do Algarve, D. Jerónimo Osório, tinha, ainda recentemente, deslocado a Sé da cidade de Silves, no interior, para a costa. Era conhecido em toda a Europa católica pelos seus conhecimentos em humanidades, teologia, e história e literatura latina. A sua biblioteca era uma da bibliotecas privadas mais valiosas. À falta de melhor para pilhar, o conde de Essex mandou carregar os livros do bispo a bordo do navio, e levou-os para Inglaterra, oferecendo-os a Sir Thomas Bodley, fundador da Biblioteca Bodliana da Universidade de Oxford. Tornou-se, talvez, a única grande biblioteca ocidental a ter, como núcleo principal, uma colecção de livros roubados». (pág. 203)

Martin Page
A Primeira Aldeia Global
Casa das Letras
295 págs.
3,5 estrelas

Barnett Newman (segundo Peter Schjeldahl)


«Barnett Newman tinha 40 anos quando , em 1945, fez a primeira das suas pinturas que sobreviveram. (Destruiu as telas anteriores) Daí até à sua morte, de ataque de coração, em 1970, produziu umas meras 120 pinturas [...]. A sua reputação como um dos grandes modernos apenas se impôs em 1959, quando Greenberg lhe arranjou uma exposição na French & Company, uma galeria na Madison Avenue. O acontecimento causou uma agitação que se converteu numa tempestade de reconhecimento, embora não atraísse compradores de imediato. Já em 1955, Newman havia vendido apenas uma pintura a uma pessoa não sua amiga. Na maior parte dos anos 40 e 50, ele e a sua devotada mulher [...] viveram sobretudo do salário dela. Comparado com Newman, o proverbialmente negligenciado Van Gogh foi uma sensação fulgurante.
[...] Considere-se o título de uma pintura de 1950-51 que é uma pedra de toque da colecção do MoMA: Vir Heroicus Sublimis (Homem Heróico e Sublime). Com esta tela vermelha, com cinco zips e 540 cm de comprimento, o artista adiantou uma ambição de conjurar mais conteúdo espiritual de menos forma física do que havia parecido concebível nalguma arte anterior (ou posterior, para o caso tanto faz) do século XX. [...]
Parecia estar em toda a parte, com os seus fatos elegantes e o bigode de brigadeiro britânico, segurando um monóculo caricato. Era vivaço e muito afectuoso, especialmente para os jovens artistas; os amigos chamavam-lhe Barney. [...] O seu famoso sofisma - 'a estética está para os artistas como a ornitologia está para os pássaros' - ganha peso com o seu envolvimento na observação de pássaros.»

Peter Schjeldahl, Let's See, págs. 116-177
Na foto: The Wild (1950), uma tela com 240 cm por 2,5 de largura

Al Berto, página de O Medo


rasgo o melancólico interior dos insectos
atravesso a sabedoria das infindáveis areias do sono
sou o último habitante do lado mitológico da cidades

por vezes consigo acordar
sacio a sede com a tua sombra para que nada me persiga
teço o casulo da cocaína escondo-me no mel da língua
lembro-me... fomos dois amigos e um cão sem nome
percorrendo a estelar noite doutros corpos

mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém

ficou-me este corpo sem tempo fotografado à sombra da casa
onde a memória se quebra com os objectos e amarelece no papel
pouco ou nada me lembro de mim
em tempos escrevi um diário perdido numa mudança de casa
continuo a monologar com o medo a visão breve destes ossos
suspensos no fulcro da noite por um fio de sal

partir de novo seria tudo esquecer
mesmo a ave que de manhã vem dar asas à boca recente do sonho
mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos
onde a vida e os barcos se cobrem de lodo

pernoito neste corpo magro espero a catástrofe
basta manter-me imóvel e olhar o que fui na fotografia
não... não voltarei a suicidar-me
pelo menos esta noite estou longe de desejar a eternidade

O ÚLTIMO HABITANTE, pág. 237

Pesa-papéis: um golpe de sorte


Não sei qual será o motivo para os bibliófilos serem também amiúde apreciadores de pesa-papéis (e não pisa-papéis, como tantas vezes se ouve). O Comilão adquiriu o seu pesa-papéis favorito (e único da sua colecção) em Washigton D.C., no National Air and Space Museum, do Smithsonian, o museu mais visitado do mundo. Tinha visto um idêntico (não igual, pois é artesanal) em Nova Iorque, mas era demasiado caro (100 ou 120 dólares). Depois o Comilão arrependeu-se e andou o resto dessa viagem à procura. Desconhecia que tínhamos encontro marcado para o último dia, na loja do dito museu. Representa o planeta Marte, com o seu leque incrível de tons vermelhos.

Após ter lido um ensaio delicioso de Capote sobre pesa-papéis, descrevendo a sua visita a Colette (que lhe ofereceu um exemplar precioso), ela sim coleccionadora e connoisseuse (será assim que se diz?), o Comilão quis saber um pouco mais sobre o assunto. E foi à livraria Férin, na Rua Nova do Almada, que costuma ter livros sobre estes assuntos muito específicos, à procura de uma obra sobre o tema. O empregado não encontrou nada. Uns tempos depois, ao remexer na estante dos saldos daquela livraria, o Comilão encontrou a obra acima ilustrada. E adquiriu-a por 20 €. Um golpe de sorte. Explicação: o empregado não tinha encontrado nada porque só procurara livros em francês. Felizmente, pois em contrário o Comilão teria tido de desembolsar uma bela maquia.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Irving Wallace, O Prémio

O Prémio é uma leitura agradável, que se faz a bom ritmo, apesar do aspecto volumoso. Começa com uma série de pessoas a receber um telegrama anunciando que venceram o Nobel. Depois acompanhamo-las na viagem a Estocolmo, para a cerimónia de entrega do prémio. A figura central é Andrew Craig, o vencedor na categoria da Literatura: um alcoólico viúvo que se culpabiliza pela morte da mulher num acidente e que há vários anos não escreve nada. Depois há o casal Marceau (Química), que atravessa uma crise conjugal, o Dr. John Garrett (Medicina), que frequenta um grupo de psicanálise e conseguiu fazer um transplante de coração bem sucedido, e Max Stratman (Física), um professor alemão que vive exilado nos EUA com a sobrinha. Contém informações valiosas sobre a história do prémio, se bem que a maior parte das vezes 'metidas a martelo'. Há ainda situações inverosímeis, para não dizer inaceitáveis: tudo bem que Wallace quer dizer que os galardoados são homens e mulheres de carne e osso, mas coloca-
-os a assumir atitudes impensáveis. Além disso o autor, que tanto fala da psicologia humana, comete alguns erros infantis...
Em todo o caso há que valorizar a ideia inicial, na opinião do Comilão fascinante, de escrever um livro sobre o Nobel e os seus bastidores, e o ritmo, que é uma qualidade fundamental num livro. Será que o próprio Wallace tinha a pretensão de conquistar o Prémio?

Um índice de informações úteis

Filhos de génios também saem génios?: pág. 202
Hemingway: pág. 204
'Injustiças' (Edison e outros): págs. 205-207
Freud e o Nobel: pág. 221 e 235
Paz: págs. 250-251
Alfred Nobel: págs. 260-263
Como os galardoados gastaram o seu dinheiro: págs. 263-265
Banquete com o Rei da Suécia (história do ovo): pág. 276
Literatura: págs. 307-311 (e 227-228)
Medicina: págs. 349-351
Mais curiosidades: págs. 358-360
O olhar de um céptico - Ocidente vs. Rússia: págs. 386-389

O Prémio
Irving Wallace
Livros do Brasil
680 págs.
3 estrelas

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Rizzoli NY (2008)


A loja-mãe da editora de álbuns de arte é um local de peregrinação para amantes de livros. Está localizada, desde 1985, no 31 West da Rua 57. Também em NY o Comilão teve oportunidade de visitar a Strand Bookstore, que se gaba de ter '18 milhas [quase 30 km] de livros novos, usados, raros e esgotados'. Por incrível que pareça, o Comilão achou que a Strand tinha demasiados livros, o que torna difícil encontrar alguma coisa. E, quando se encontra, há tantas edições diferentes que se torna difícil optar.

sábado, 27 de novembro de 2010

O bife do lombo de sábado à noite

Foi um dos bons bifes que o Comilão já comeu. A peça, na vitrina do talho do Continente do Cascaishopping, tinha óptimo aspecto. O Comilão pediu dois bifes de 200 gramas (a 25€ o kg, ficou a cerca de 9€). E revelaram-se uma maravilha. Modo de confecção:

Aquecer bem um pouco de margarina na frigideira. Noutra frigideira à parte aquecer mais margarina (para o molho). Colocar o alho esmagado e louro. Deixar fritar. Esperar que a primeira frigideira esteja bem quente para pôr os bifes, um de cada vez, temperados só na altura de irem para o lume, com sal grosso e pimenta preta moída no momento. Deixar cerca de trinta segundos de cada lado. Para o molho, quando os alhos já estiverem alourados, juntar os cogumelos (quatro ou cinco partidos em pedacinhos pequenos). Quando os cogumelos já estiverem quase, juntar as natas (ligeiras). Como o molho ficou muito branco, o Comilão passou o molho para a frigideira dos bifes (onde só restava algum suco dos próprios). Resultou: o molho de natas e cogumelos adquiriu um tom castanho bonito. Cuidado para não ficar demasiado espesso.
Acompanhou com salada mista e batatas fritas (feitas na fritadeira Actifry). Estava uma maravilha, sobretudo devido à grande qualidade da carne, que o molho não estragou - na opinião do Comilão, pelo contrário (já a mulher do Comilão ficou com algumas dúvidas).
(este é à portuguesa)

Storik

Há um post anterior que se chama Tenebrae. Não sei se 'tenebroso' será o adjectivo adequado para descrever o jantar no Storik...
O Comilão tinha avisado. O nome não augurava nada de bom. O conceito também não: comida de fusão alsaciana, 'cozinha de autor', todos esses lugares-comuns. Ainda para mais, um restaurante recente. Estavam criadas todas as condições para um jantar desastroso. Mas ninguém quis dar ouvidos ao Comilão, que sugeriu ir comer um belo bife ao Café Buenos Aires (já que não pode ir a Buenos Aires).
Ao início estivemos no bar a beber umas cervejas. Até aí muito bem. A imperial estava boa. O problema veio a seguir. Ou melhor: após uns bons 15/ 20 minutos apareceu um pãozinho quente. Parece que o de azeitonas era bom. A entrada de salada com chèvre gratinado também não estava má. Depois vieram as flammes: para o Comilão e sua mulher flamme de champignons (cogumelos, cebola, bacon) e flamme de rúcula e azeitonas. Ambas frias. Alguém as descreveu como cream crackers (vulgo bolachas de água e sal) com recheio por cima, e não anda muito longe da verdade. Para sobremesa, um petit gâteau. Banal, também frio e com uma bola de gelado de morango porque a baunilha tinha acabado. Imperdoável.

Storik
Comida alsaciana
Rua do Alecrim (lado direito de quem sobe)
especialidade: flammes
Preço: 20 euros
Nota do Comilão: 2 estrelas (mas havia lá umas pessoas muito satisfeitas)

Paris: três momentos livrescos (2007)






Shakespeare and Company, a diminuta livraria que se atreveu a publicar o Ulisses de James Joyce; interior da Galignani, na Rue de Rivoli, a primeira livraria inglesa na europa continental (onde o Comilão e sua mulher adquiriram um Fantod Pack do Edward Gorey com baralho de tarot); belo exemplar de livro de falcoaria (Traité de Fauconnerie, de H. Schlegel e A.H. Verst de Wulverhorst, 1844-53) na montra de um antiquário livreiro a caminho do Palácio do Luxemburgo, onde estava uma magnífica exposição de G. Arcimboldo. A ilustração representa o 'gronelandês', o falcão branco.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Tenebrae



Influenciado pelo ensaio de Huxley (vide infra), o Comilão foi à procura de música de Carlo Gesulado. E encontrou o álbum Tenebrae, pelo tão apreciado Hilliard Ensemble. Tinha o selo 'Discoteca Ideal Fnac'.
p.s.: ontem o Comilão encontrou na sua modesta colecção particular um disco, também da ECM, que faz um belo contraponto a este Tenebrae. Não por acaso chama-se Lux Aeterna e, de facto, tem momentos em que por alguma razão misteriosa a harmonia das vozes faz lembrar luzes a acender-se.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Ervilhas com ovos escalfados

O Comilão cozinhou as suas famosas e suculentas ervilhas com ovos escalfados. É uma receita simples: faz-se um refogado com cebola, azeite, alho e tomate pelado. O segredo é a entremeada (cerca de 150-200 gr. por pessoa), que liberta uma gordura gostosa. Frita um bocadinho. Depois juntam-se as ervilhas e deita-se, por esta ordem, polpa de tomate, mais azeite, uma pitada de sal extra, vinho branco. Deixa-se apurar. Envolve-se bem. Aí ao fim de meia-hora (a contar do início), juntam-se os ovos e depois coentros picados. Espera-se aí uns dez minutos, com a panela tapada, claro, para cozinharem. Acompanha com arroz branco e salada de alface, rúcula ou agrião com cebola em rodelas transparentes. Foi pena a linguiça (que não foi mencionada, mas pode entrar com a carne ou logo no refogado) não ser da melhor qualidade. Uma farinheira frita deve combinar bem.
Para a sobremesa o Comilão preparou uma coisa um pouco mais sofisticada: corou uma pêra cortada aos pedacinhos em manteiga sem sal, juntando açúcar mascavado, até caramelizar, um borrifo de balsâmico e um toque de moscatel roxo no final. Depois colocou as pêras sobre uma torta de Azeitão e serviu com gelado de baunilha. Salpicou com topping de chocolate Alsa ou Royal. Ficou guloso. Foi comer até arrebentar!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Os perigos da religião

Só há uma coisa tão perigosa quanto o fanatismo religioso: a total ausência de crença no transcendente
(será que já alguém disse ou escreveu isto?)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Huxley, Complete Essays


O autor de Admirável Mundo Novo foi também um notável ensaísta. O Comilão acabou ontem de ler o vol. V dos Complete Essays, que inclui o texto 'The Doors of Perception'. O volume abre com uma longa dissertação sobre o filósofo francês Maine de Byran (1766-1824).
«François-Pierre Gontier de Biran, mais tarde conhecido (após a herança de uma propriedade chamada Maine) como François-Pierre Maine de Biran, nasce a 29 de Novembro, 1766, na cidade capital da velha província do Perigord, onde a sua família, notável sem na realidade ser nobre, havia durante três séculos desempenhado um papel importante na sociedade e política locais. [...] O seu pai exercia como médico na dita cidade e geria as propriedades da família nas redondezas. Educado em casa e mais tarde no colégio dos Doutrinaires em Périgueux, o jovem Biran recebeu uma educação setecentista esmerada em Latin, Grego, e matemática. Aps 18 anos entrou na Guarda Real e tornou-se um jovem cosmopolita e da sociedade. 'O que o mundo chama prazer [...] tudo eu saboreei'. Saboreou-o durante cinco anos. Depois veio 1789». (pág. 38)
As 'Portas' são o ponto alto. Não se limita a uma descrição de uma experiência com drogas (mescalina). Huxley reflecte sobre como os nossos sentidos se encontram em estado de permanente atrofiamento e como a educação está dominada pela escrita e pela comunicação verbal, defendendo uma técnica inovadora de treino da visão. De facto, as imagens estão por todo o lado e a visão é porventura o nosso sentido mais 'indispensável', mas nada fazemos para o desenvolver. O conjunto de ensaios dedicados à religião e crítica social são talvez os que mais desgaste sofreram com o tempo. Os capítulos finais, sobre El Greco, Goya, Piranesi e Toulouse-Lautrec encontram-se repletos de informações fascinantes. Mesmo quase a fechar, o 'Gesualdo - Variations on a Musical Theme', em que o Comilão não depositava grande expectativa, revela-se afinal uma pérola.

Aldous Huxley
Complete Essays, vol. V
Ivan R. Dee Editor
456 págs., 7€ na Fnac (em época de promoções, anteriormente andava pelos €40, sendo que o preço indicado na capa é de USD $35.00)
Nota do Comilão: 4 estrelas

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Uma wishlist (em actualização)

A Ferver, Bill Bufford, Sextante (oferecido pela minha senhora no Natal de 2012) Too Brief a Treat - The letters of Truman Capote, Vintage * (oferecido pela Sr.ª Comilão no Natal de 2010) Cartas a Anaïs Nin, Henry Miller, Difel Veneza, Jan Morris, Tinta da China (oferecido pela sr.ª do Comilão no dia 27 de maio de 2011)* O Mundo de Ontem - Memórias de um Europeu, Stefan Zweig, Assírio * (comprado através da wook) Rua de Sentido Único e Infância em Berlim por volta de 1900, Walter Benjamin, Relógio d'Água * (comprado através da wook); Likeness and Presence: a History of the Image Before de Era of Art, Hans Belting, The University of Chicago Press; Answered Prayers, Truman Capote, Penguin Modern Classics The Paris Review Interviews (box, 4 vols.) O Amante do Vulcão, Susan Sontag, Quetzal (oferecido pela mulher do Comilão, no dia do pai, 19 de Março de 2011) Carnets de Guerre, Vasily Grossman, Livre de Poche (comprado na Fnac Chiado) The Ephemeral Museum, Francis Haskell As Mil e Uma Noites The Old Railway Bazaar, Paul Theroux, Penguin Modern Classics, Kant After Duchamp, Thierry de Duve, October (adquirido ao monge zen olx) Histórias, Heródoto (volume da Pléiade da biblioteca AJS, com Tucídides) Peter Beard [Taschen deluxe edition], 2 vols. com caixa forrada a tecido * (comprado na loja Voa, na R. Nova do Almada, a 7 de Janeiro de 2011, por €75) The End of the Game, Peter Beard (adquirido a 35/10/2014 na Sistema J, livraria da estação do Cais do Sodré, por 25€)  La Guerre et la Paix, Tolstoi, Bibliothèque de la Pléiade * (oferecido pela Sr.ª Comilão no Natal de 2010, e adquirido em Paris na livraria La Belle Lurette) A Cidade na História, Lewis Mumford, Martins Fontes (comprado no Trindade a 31/08/2011, dois volumes da editora Itatiaia, encadernados, por 10€); Jacques Garcia: Decorating in the French Style, Franck Ferrand, Flammarion * (oferecido pelos bons amigos do Comilão FC e PR no aniversário de 2010) Saturne et la Mélancolie, Klibansky (Raymond), Panofsky (Erwin), Saxl (Fritz), Bibliothèque Illustré des Histoires, Gallimard; As gravuras completas de Piranesi, Taschen; Magic, Taschen (encomendado no site da editora no final de 2014, recebido a 2 de Janeiro de 2015, 49,99€); Historia de la Arquitectura Moderna, Leonardo Benevolo, Gustavo Gili; The Granta Book of Reportage The Faber Book of Reportage (Déjà Lu, 10 fevereiro 2024) A Imagem do Tempo (catálogo da exposição na Fundação Gulbenkian, versão inglesa adquirida na Férin a 19/06/2015 por 56 euros) O império marítimo português - 1415-1825* (adquirido na wook), Charles R. Boxer, edições 70 Aby Warburg, An intellectual biography, Ernst H. Gombrich, Phaidon * os livros a cor-de-laranja foram entretanto adquiridos pelo Comilão

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Aquisições recentes


O Comilão andou por terras da Escócia. No dia anterior ao regresso a Portugal, teve oportunidade de visitar uma venda de livros na Biblioteca de Perth. Por 1 libra, a família do Comilão teve direito a entrar numa sala onde havia centenas de volumes a preços tentadores. No meio do caos de papel, o Comilão seleccionou os seguintes títulos (note-se que nem havia muito tempo para perder à procura de pechinchas, nem dava muito jeito regressar a Lisboa carregado de livros):

- Stephen King, On Writing - a memoir
- Mary Wortley Montagu, Life on the Golden Horn (Penguin Great Journeys)
- Mark Kurlansky, Cod: A biography of the fish that changed the world

Quanto ao primeiro, andava há bastante tempo a cobiçá-lo, mas era demasiado caro (15 euros). O segundo, adquiri-o porque estava bem conservado, com uma capinha de plástico e tudo, e é pequeno - e além disso o Comilão ainda não perdeu a vontade de ir à Turquia. O terceiro trata um tema que que por razões óbvias diz muito ao Comilão - o bacalhau - e ao que parece constitui uma leitura fascinante.

Por quanto trouxe o Comilão estas preciosidades para a sua biblioteca? 1 libra! Sim, perceberam bem. Ou melhor, 2 libras tendo em conta a que a família pagou para poder aceder à venda. Ainda assim, não foi nada mau negócio.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Tocqueville (resumo biográfico)


Aqui fica um resumo da vida do autor de A Democracia na América segundo um artigo de Alan Ryan na NWRB de 22/11/2007:
«Alexis de Tocqueville nasceu em Julho de 1805. Os seus pais por pouco haviam escapado à Revolução Francesa; como casal recém-casado, foram detidos no Inverno de 1793-1794, aprisionados em Paris, e vigiados durante o Verão do Terror enquanto os seus parentes e amigos mais chegados eram conduzidos à guilhotina. O pai de Tocqueville, Hervé, estava previsto ser executado três dias após a queda de Robespierre do poder o ter salvo. Hervé saiu da experiência surpreendentemente incólume; libertado no Outono de 1794, dedicou-se a recuperar a propriedade da família e a reconstruir a sua vida. Era mais robusto do que quer a sua mulher quer o seu filho famoso; morreu com a idade de 84 apenas alguns anos antes de Alexis ter morrido com a idade de 54 em 1859. A mãe de Tocqueville ficou para o resto da vida uma semi-inválida; era menos enferma fisicamente do que presa de males físicos e psicológicos menores que a tornaram quezilenta e ansiosa. Uma fonte de miséria foi ter gerado três filhos, e desejado sempre a filha que nunca teve.
Alexis era o filho mais novo, e desde o início ».
Casou com uma inglesa da classe média cinco anos mais velha, o que é de estranhar dada a sua ascendência aristocrática, que também o impedia de estar em sintonia com os sofrimentos da populaça.
Esteve na América quando ainda nem tinha 26 anos, e apenas durante nove meses. Uma conjugação negativa de factores («mau tempo, má saúde, estradas intransitáveis, rios gelados, um programa idiosincrático») fez com que ficasse com «uma visão muito parcial do país».

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Prefab Houses



Se tirássemos as três primeiras letras, ficaria Fab Houses (Casas Fabulosas). E, de facto, algumas não andam longe disso. A nave espacial da capa foi baptizada Futuro e data de 1968. Esta casa de férias portátil tem a assinatura do finlandês Matti Suuronen e é típica do optimismo da Era Espacial (recorde-se que o homem chegou à Lua a 21 de Julho do ano seguinte, 1969). Disse 'portátil' e bem: uma fotografia da época mostra a casa a ser levada num helicóptero.

Mas na maioria das vezes as casas pré-fabricadas foram transportadas de barco. A sua epopeia começou em 1833 quando Herbert Manning, um carpinteiro inglês, imaginou, concebeu e realizou uma casa que o seu filho pudesse montar na Austrália. Era composta por estacas, vigas e tábuas de madeira e coberta por um pano grosseiro.

A história fascinante da casa oferecida a Albert Einstein pelo seu 50.º aniversário é outra das que compõem o livro. Sabendo da paixão do físico pela vela e da sua preferência por casas de madeira, a cidade de Berlim ofereceu-lhe um abrigo em Caputh, junto ao lago. Einstein passou ali longas temporadas, entre 1929 e 1932, ano em que teve de se exilar nos Estados Unidos.

Outra personagem que merece destaque é Buckminster Fuller 1895-1983). O Comilão teve oportunidade de ver uma exposição que lhe foi dedicada pelo Whitney, em NY, em Setembro de 2008. Buckminster Fuller foi um engenheiro, designer e pensador visionário. A sua vida mudou quando a morte da sua filha por doença o levou a considerar o suicídio. Afastou essa hipótese determinado a descobrir «o que um indivíduo sozinho pode fazer em prol da humanidade». Popularizou a cúpula geodésica (a estrutura mais resistente e leve que é possível montar), retomando um invento de Walther Bauersfeld, cuja forma seria utilizada nas bolas de futebol de gomos. Uma das suas preocupações foi o bom uso dos recursos naturais.

A casa Dimaxion (projecto de 1929, melhorado em 1945), suportada por um pilar vertical ao centro, tinha um chuveiro que poupava água e um sistema de ventilação inovador. Foi concebida para ser entregue em dois pacotes cilíndricos e para resistir a ventos fortes. Toda em alumínio, usava tecnologia aeronáutica e devia ser feita nas mesmas fábricas onde haviam sido feitos os aviões da II Guerra, mas nunca chegou a ter produção industrial. Ainda sobre Buckminster Fuller: disse numa entrevista que durante dois anos dormiu apenas duas horas por dia; costumava andar com três relógios devido às frequentes viagens entre regiões com diferentes fusos horários.

Prefab Houses
Peter Gössel (ed.), Arnt Cobbers e Oliver Jahn
Taschen
388 págs., 50 euros
4 estrelas

Escritores à mesa

Como não podia deixar de ser, o Comilão devorou o último livro do Comilão-mor, que também dá pelo nome de José Quitério. A obra chama-se Escritores à Mesa (e outros artistas) e versa sobre trechos literários de Camões, Camilo (o eleito de Quitério), Eça, Fialho, Aquilino, Pessoa, José Gomes Ferreira, etc., onde se fala de comidas e bebidas. O próprio autor escreve numa prosa escorreita e saborosa, usando um vocabulário rico a que não faltam certos arcaísmos. O capítulo 'Claude Lorrain, mestre pasteleiro', merece aplauso. O Comilão já conhecia os dotes de Lorrain como pintor de efeitos luminosos em fins de tarde clássicos, mas desconhecia a sua mão para a cozinha. Foi o inventor da massa folhada.

Transcrevo um excerto que também me chamou a atenção pelo total desconhecimento do biografado:

«Em 17 de Maio de 1997, no seu Rio de Janeiro, morreu Guilherme Figueiredo. Quem?
Nascido em Campinas a 13/02/1915, Guilherme Figueiredo naturalizou-se carioca aos cinco anos e formou-se em Direito pela Universidade do Rio. Não consta que tenha feito carreira jurídica, o que só lhe fica bem. As letras foram sempre a sua paixão, estreando-se em 1936 com um pequeno volume de poesia. [...]

Espírito aberto, cordial, crítico, bem humorado e generoso, aconteceu-lhe às tantas uma desgraça, a de ser irmão mais velho do general João Baptista de Figueiredo, o último Presidente da República (1979-1986) da ditadura militar. Logo a ele, democrata praticante e inimigo da censura. Dizia sobre esta: 'Sim, admito a censura. Mas a do público que não vê peça ruim e não lê livro ruim [...]'. Desde logo punha os pontos nos is: 'Não sou irmão do Presidente, ele é que é meu irmão.'»

Escritores à Mesa (e outros artistas)
José Quitério
Assírio e Alvim
274 págs., €15,5o
3,5 estrelas

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O famoso frango na púcara do Comilão

É um prato fácil de fazer. Pede-se no talho um frango partidinho em pedaços pequenos. Põe-se num tacho fundo com um bocadinho de banha e toucinho. Junta-se alho, louro e cebola. A parte mais chata é pelar os tomates (três ou quatro, sem grainhas), que se deitam para o tacho quando o frango já tiver começado a alourar. Com os tomates vão também pimentos verde e encarnado, cortados às tiras, e rodelas de cenoura. Quem goste também pode deitar lá para dentro alguns dos miúdos do frango bem partidinhos. Verte-se uma boa dose de polpa de tomate e um fio de azeite para cima da caldeirada. Fica na panela de pressão a adubar durante uns três quartos de hora. Aí dez minutos antes de estar pronto rega-se generosamente com um bom vinho branco. O resultado é um caldo abundante cor-de-laranja avermelhado. Pode levar-se à mesa numa terrina e serve-se com uma concha de sopa. Acompanha com arroz (o basmati liga bem porque é levezinho). Ontem o Comilão brindou os seus convidados (entre os quais se encontrava o Sr. Prior) com esta iguaria e não houve queixas - muito pelo contrário. Além do arroz, acompanhou com batata doce frita (se ainda não experimentaram façam-no rapidamente) e uma deliciosa salada de alface, cebola e agrião temperada com vinagre balsâmico e azeite perfumado com manjericão. A mulher do Comilão preparou uma bela sobremesa: bavaroise de banana e caramelo, com uma bola de gelado em cima e um fio de chocolate quente.

sábado, 14 de agosto de 2010

Uma anedota

Depois do McDonald's, o Pingo Doce. No folheto Sabores Mediterrânicos desta semana pode ler-se o seguinte:

«ROBALO
Um dos mais nobres visitantes das costas portuguesas [...]».

Quem é que eles querem enganar? Estão a falar de robalos a 6,49€/ kg, com cerca de 300 g cada, provenientes de viveiros de aquacultura na Grécia, e têm o descaramento de dizer uma coisa destas? Francamente...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Henri Troyat, Rasputine



O Comilão já conhecia Henri Troyat de outras andanças, mais concretamente pela monumental biografia de Tolstoi (Fayard, 1965, 842 págs.). Troyat nasceu em Moscovo em 1911 e a sua família teve de fugir da Rússia aquando da revolução de outubro de 1917. Eleito para a Academia francesa em 1959, acabaria por falecer em 2007. O Comilão imaginava-o um homem ascético e de longas barbas, como estes dois biografados, mas a fotografia da contracapa do Rasputine desmente por completo essa imagem, mostrando um homem vigoroso com ar de Onassis, modernos óculos pretos de massa e uma camisa de manga curta.

Gregório Rasputine é uma figura de lenda. Nasceu a 10 de Janeiro de 1869 numa pequena aldeia da Sibéria. Em criança esteve às portas da morte, sobrevivendo a uma pneumonia contraída nas mesmas circunstâncias que o irmão, o qual vez não resistiu. Tinha o ímpeto de peregrinar, andar por essa vasta Rússia fora como um mendigo (staretz), visitando mosteiros e homens santos, e nem o casamento o prendeu à aldeia.

Introduz-se no palácio da família imperial através do bispo Teófano, confessor dos Romanov. E adquire um bestial prestígio junto da imperatriz Alexandra Fedorovna quando cura o seu frágil filho Alexis em 1907 (virá a fazê-lo novamente em 1912). O facto de ter os modos e os hábitos de um camponês jogam a seu favor. Todos os que com ele privam reconhecem-lhe um estranho poder hipnótico. A czarina chama-lhe «meu inolvidável amigo e mestre, salvador e conselheiro» (pág. 47), e os pequenos têm por ele uma adoração sem limites.

Conquista uma justa reputação de mulherengo, alcóolatra e devasso. É um beberrão insaciável e grande apreciador de vinho da Madeira. Quando a guerra rebenta em 1914, ele opõe-se firmemente. Mas a Rússia sofre derrota atrás de derrota e, como conselheiro dos czares, todas as desgraças lhe são inculcadas. O país vive momentos difíceis. E, numa premonição de embriagado, diz ao seu secretário para transmitir estas palavras aos czares: «Czar da terra russa, se ouvires um sino a dizer que Gregório foi morto, fica a saber que, se for um dos teus que provocou a minha morte, nenhum dos teus, nenhum dos teus filhos viverá mais de dois anos. Eles serão mortos pelo povo russo». Estranha e negra profecia.

As páginas mais interessantes, contudo, são as que descrevem o assassino de Rasputine e a cilada que lhe prepara:

«O príncipe Félix Felixovitch Youssoupov, de vinte e nove anos de idade, pertence a uma das famílias mais nobres e mais ricas do país. Uma infância demadiado mimada fez dele um ser ambíguo, caprichoso, refinado, preguiçoso e impulsivo. Desde a sua juventude que se sentiu atraído pelas imagens do vício e da morte. Se uma obra de arte é insólita ele logo declara que lhe agrada. Quer ser dandy nos seus pensamentos como na forma das suas unhas ou nos caracóois do seu penteado. Alto, o rosto fino, o olhar lânguido, gostava, na sua adolescência, de se mascarar de mulher.» (pág. 147)

É este príncipe dissimulado que se faz amigo do staretz e o convida para a sua casa, para lhe dar a morte. Tenta-o com veneno, mas não resulta e acaba por o matar com tiros de pistola, profanando o cadáver com golpes de matraca. Acabam por atirá-lo ao rio.

«O escafandrista mergulha de novo e, desta vez, encontra um cadáver imerso sob a espessa placa branca que cobre o rio. É preciso quebrar o gelo para o retirar. [...] Chamadas para o identificar, Maria e Varvara contemplam com horror o cfadáver gelado do seu pai: 'Tinha o crânio amachucado, a cara pisada, escreverá Maria; os cabelos estavam colados com o sangue. Tinham-lhe arrancado o olho direito. Estava pendurado na face, preso por um pedaço de carne.'» (pág. 170) Uma antiga devota de Rasputine testemunha às filhas deste que «o corpo que esteve a tratar tinha sido mutilado com uma selvajaria incrível; não apenas a cara, mas os testículos estavam desfeitos por pancadas.» (pág. 171)

O resto é o triunfo da revolução bolchevique a história não menos dramática da família imperial. Estranhamente a profecia de Rasputine cumpriu-se e a dinastia dos Romanov só lhe sobreviveu um ano e meio.

Henri Troyat
Rasputine
Difel
195 págs., cerca de €12
3,5 estrelas

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O fim do mundo


Há muito tempo que já andava desconfiado, mas tive a certeza absoluta de que o mundo estava perdido numa terça-feira. Não faltava muito para as onze da noite e esperei mais de 20 minutos para ser servido num McDonald's da capital.

Anteontem, a certeza agravou-se. O Comilão começou a ficar cheio de fome (só tinha comido um pastelinho de bacalhau, por sinal muito bom, ao lanche), quando olhou para o relógio e verificou que eram quase 23h00, hora de fecho do dito 'restaurante' de fast food mais próximo. Saiu a correr para o local, mas àquela hora o McDonald's tem certas pecularidades, como já não haver nada para comer, ou as pessoas ficarem muito mais tempo do que o habitual à espera, enquanto os empregados dão mostras de uma descontracção pré-fecho.

Foi nessas circunstâncias - e a morrer de fome - que o Comilão esperou mais de quinze minutos para ser atendido. Só isso merecia entrada directa no Livro dos Records do Guinness. Houve uns gays que lhe perguntaram se estava na fila, o Comilão disse que sim, mas eles ignoraram a resposta e passaram miseravelmente à frente enquanto o Comilão estava distraído. O Comilão não protestou porque eles eram dois e tinham tatuagens.

Quando estava quase a chegar a sua vez, apareceu uma rapariga estrangeira com um wrap, que era o que o Comilão ia pedir, uma vez que já não havia iogurte e a nova especialidade demorava muito a sair (a propósito: porque é que as iguarias novas no McDonald's são tão difíceis de obter?). A rapariga disse que era vegetariana e não podia comer aquilo. Nem lhe tinha tocado quando viu que era carne (frango). Entregou o embrulho ao empregado dizendo podia dar a quem o quisesse. O Comilão avançou. 'Eu posso ficar com isso. Tenho pressa e estou cheio de fome'. O estupor do empregado (perdoem a linguagem, mas estupor para aquele homem é um elogio) respondeu: 'Agora já é tarde'. Tinha deitado o embrulho intocado no lixo.

Tudo bem que não haja uma diferença substancial entre lixo e comida do McDonald's (por alguma razão se lhe chama junk food), mas em princípio o lixo está cheio com restos de comida de outras pessoas, que é a única coisa ainda mais repugnante do que a própria comida.

O Comilão tentou manter o sangue-frio e pediu um wrap novo em folha e entregou uma nota de €10 para pagar. Embora tivesse acabado de receber um monte de moedas (tarefa em que tinha dispendido uns bons minutos, entre risos e piadolas), o estupor do empregado disse que não tinha troco. E, atrevimento dos atrevimentos, disse ao Comilão para ir trocar a nota noutro estabelecimento! O Comilão guardou a nota na carteira e retirou-se a resmungar: 'Ainda há quem diga que o mundo não está perdido...'.

p.s. O Comilão espera que os responsáveis do McDonald's não leiam este post, ou arriscamo-nos a que lancem uma bomba de neutrões sobre o país onde a tradição de bem-servir da instituição foi tão desonrosamente maculada.

Tony Judt (1948-2010)


Morreu na sexta-feira passada o historiador Tony Judt. Em Portugal era conhecido sobretudo pelo livro Pós-Guerra - História da Europa desde 1945 (edições 70), que lhe valeu o Prémio do Livro Europeu. A capa mostra uma fotografia de dois meninos de mão dada (a caminho da escola, presume-se) numa cidade destruída. Mas o texto de Judt que mais tem apaixonado as pessoas, sobretudo agora que ele morreu, chama-se Night e foi publicado no número de 14 de Janeiro de 2010 da New York Review of Books. O Comilão leu-o, na altura, sentado a uma mesa do Meu Café, em Campo de Ourique. Esse testemunho arrepiante começa precisamente assim:

«Sofro de uma perturbação motora neurológica, no meu caso uma variante da esclerose lateral amiotrófica (ELA): a doença de Lou Gehrig. [...] Ao contrário de quase todas as outras doenças graves ou mortais, uma pessoa pode contemplar assim à vontade e com o mínimo de desconforto a evolução catastrófica da sua própria deterioração.[...]
Pelo meu presente estado de declínio, estou efectivamente tetraplégico. [...] No mínimo, estou irremediável e completamente dependente da bondade de estranhos (e mais alguém).
Durante o dia posso pelo menos solicitar uma coçadela, um ajuste, uma bebida ou simplesmente uma deslocação gratuita dos meus membros - uma vez que a imobilidade forçada ao fim de horas se torna não apenas fisicamente desconfortável como psicologicamente quase intolerável. [...]
É então que chega a noite. Adio a hora de ir para a cama até ao último momento possível ainda compatível com a necessidade de sono da minha enfermeira. Uma vez 'preparado' para a cama sou levado para o quarto na cadeira de rodas onde passei as últimas dezoito horas.[...] Se permito que um membro qualquer seja mal colocado ou não insisto o suficiente para que o diafragma fique cuidadosamente alinhado com a cabeça e as pernas, acabarei por sofrer durante a noite as agonias dos danados.»

A caricatura é de David Levine.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

David Sedaris, Diário de um fumador




Depois de ter lido as primeiras dezenas de páginas, o Comilão achou que o comentário da capa era manifestamente exagerado. Esse comentário rezava assim 'O homem mais divertido do mundo' e vinha assinado New York Post. Porém, quando começou a ler o capítulo que dá o título ao livro, em que nem depositava grandes esperanças, o Comilão teve de reconsiderar.

Aqui fica um aperitivo:

«Quando passou a ser proibido fumar nos restaurantes de Nova Iorque, deixei de comer fora. Quando passou a ser proibido fumar no local de trabalho, deixei de trabalhar, e quando aumentaram o preço dos cigarros para sete dólares cada maço, peguei nas minhas coisas e fui viver para França.» pág. 194

«Não sei porque é que as más ideias se espalham mais depressa do que as boas, mas é assim. Um pouco por todo o lado, foi sendo proibido fumar, e acabei por ir parar aos arredores das cidades, àquele ubíquo espaço comercial entre o restaurante de panquecas e a loja de silenciadores de tubos de escape. Talvez não tenham reparado, mas existe aí um hotel. Não tem piscina, mas, mesmo assim, a entrada cheira bastante a cloro, com um leve aroma a batatas fritas. Se, por acaso, pedirem as ditas ao serviço de quartos, e se precisarem de mais ketchup, basta tirar um bocado do que está agarrado ao telefone, ou ao botão do aquecedor e ar condicionado que está montado na parede. Também lá há mostarda. Já vi.
A única coisa pior que um quarto neste hotel é um quarto para fumadores neste hotel. Com um pouco de ar fresco, não seria tão terrível, mas, nove em cada dez vezes, as janelas foram soldadas. Ou isso, ou abrem meio centímetro, para o caso de se ter de atirar um bocado de torrada pela janela. O fumo encurralado e estagnado é tratado com um ambientador, e os resultados variam bastante. Na melhor das hipóteses, faz lembrar um cinzeiro cheio, com as beatas a boiar em limonada. Na pior das hipóteses, cheira a múmia queimada.» pág. 200

David Sedaris
Diário de um fumador (título original: When you're engulfed in flames, retirado de um folheto sobre segurança que o autor encontrou num quarto de hotel no Japão, pág. 240)
Contraponto
251 págs., €17,5
4 estrelas

intelectuais de algibeira

Só falam sobre arte contemporânea e literatura pós-moderna. Movimentam-se no seu limitado meio como peixe na água (no aquário). Acham-se o máximo porque mandaram vir o último livro do autor do momento pela internet, mas nunca se deram ao trabalho de ler as obras por que esse autor se tornou famoso. Talvez nunca cheguem ao fim do livro, mas que importa? Estão sempre em cima do acontecimento e isso é quanto basta para considerarem os outros uns parolos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Alecrim às Flores

O Comilão e a sua mulher foram jantar fora. Depois de longas indecisões (e de uma passagem pelo Casanova, em Santa Apolónia, que para variar estava com uma fila monstruosa), encaminharam-se para a Rua do Alecrim. A ementa da Charcutaria revelou-se aliciante. Mas, quando o empregado do Alecrim às Flores se prestou a montar uma mesa na esplanada (todas as outras estavam ocupadas), não pudemos recusar a oferta. E, com a noite que estava, seria quase um crime não jantar ao ar livre. O Comilão ficou logo bem impressionado com o facto de a lista do Alecrim às Flores ('encravado' numa travessa entre a Rua do Alecrim e a Rua das Flores) ostentar um Bife do Lombo à Quitério (frito em manteiga com alho e louro), em honra ao nosso grande crítico de restaurantes.

O início foi promissor, com um pão delicioso, uma manteiga levezinha e azeitonas bem temperadas. As entradas, assim-assim: gambas fritas com alho e alecrim (além da dose ser pouco abundante, o sabor do alecrim sobressaiu demasiado, parecendo quase a detergente) e folhadinhos com queijo de cabra e compota de frutos silvestres (estavam bonzinhos, mas os €7 talvez fossem exagerados).

Entre as entradas e o prato principal esperámos o que pareceu uma eternidade. Fomos bebendo do enorme jarro de sangria de vinho tinto (óptima e aparentemente pouco alcoólica, de preço a condizer com a quantidade: €18). Quando já perdíamos a esperança de comer mais alguma coisa, chegou o prato principal: costeletas de borrego grelhadas com risotto de cenoura (originalmente vêm acompanhadas de um risotto de abóbora em que o Comilão depositava grandes expectativas, mas ao fazermos o pedido o empregado avisou que já tinha terminado e seria substituído pelo equivalente de cenoura). O risotto estava delicioso. Quanto às costoletinhas, o Comilão sentia-se tentado a reputá-las de divinais, não fosse o sangue que delas se libertava - mesmo com aquela iluminação diminuta - lembrar-lhe que estava a cometer um pecado da carne.

Quando chegou o descafeinado, a empregada pediu desculpa por não estar 'mais bonito', mas o descafeinado, ainda para mais curto, não fazia espuma. Agradecemos a atenção. Esperámos mais uma eternidade por que nos trouxessem a conta e, mesmo assim, ainda tivemos de nos esforçar por esvaziar o jarro de sangria, de tão grande que era.

Total: €59,50 + gorjeta. Serviço lento, mas sempre simpático.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

bife do lombo e chorizo

No sábado passado o Comilão fez um bife como mandam as regras. O sucesso começa no supermercado ou no talho, com a escolha da carne. Neste caso era carne mertolenga de grande qualidade, tipo medalhões do lombo (custou €8,88, o preço é justificado). Comecei por pôr margarina a aquecer, quando estava derretida juntei alho e louro, quando o alho alourou tirei-o da frigideira para não queimar e pus os bifes. Assim os bifes fritaram na manteiga já aromatizada com o alho e o louro. Deixei cerca de um minuto, talvez um pouco menos, de cada lado, para ficar mal passado. Uma coisa que já tenho tentado é juntar vinho branco para disfarçar o sabor da carne quando não é boa. Um erro: a carne fica a cozer no líquido, o que não é desejável. Claro que neste caso isso não foi preciso.

Já na quarta-feira o Comilão comprou 'chorizo argentino' do Chakall. O chorizo é na realidade muito mais parecido com uma salsicha fresca do que com o nosso chouriço. Talvez tenha chegado à Argentina por via italiana. Não tem nada que saber: o chorizo já vem temperado, por isso é só pôr na grelha, cortar ao meio quando começar a ficar coradinho, e virar. Por acaso fizemos um tempero com azeite, água, sal, vinagre de cidra, alho esmagado e pimenta preta moída, mas nem seria estritamente necessário. Acompanhámos com arroz branco e salada de tomate, cebola, pimentos e orégãos. Uma refeição muito agradável.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Oliver Sacks


O Comilão terminou há pouco O Tio Tugsténio - Memórias de uma infância química, de Oliver Sacks. Trata-se de um apaixonante livro de memórias com alguns capítulos (talvez cerca de metade) dedicados à história da ciência. Apesar da escrita brilhante de Sacks, esta componente histórico-científica torna-se por vezes algo cansativa (pelo menos para um leigo como o Comilão). Mas devemos sobretudo enaltecer as qualidades da obra e agradecer ao autor por nos ter deixado uma mão cheia de episódios deliciosos e personagens memoráveis.

Destacaria aqui alguns pontos altos:

as dez páginas (98-108) dedicadas às biografias, descobertas e inventos de Robert Boyle, do seu não menos dotado ajudante, Robert Hooke, e de Antoine Lavoisier;

o capítulo 9 ('Consultas ao domicílio'), descrevendo a actividade do pai e da mãe, ambos médicos, que tinham consultório na grande casa da família;

o capítulo 12 ('Imagens'), onde Sacks fala sobre um dos seus passatempos favoritos, a fotografia, pondo-nos a par dos vários desenvolvimentos desta técnica e das experiências que efectuava em casa;

o capítulo 15 ('Vida doméstica'), sobre os ritos e cerimónias judaicos, sobretudo, e a paixão dos Sacks pela música («Em criança, parecia-me que a casa estava sempre cheia de música. Havia dois Bechsteins, um vertical e outro de cauda, e, por vezes, ambos estavam a ser tocados em simultâneo»);

o capítulo 19 ('A mamã'), o meu favorito. Não posso elogiá-lo o suficiente. Começa com este parágrafo formidável que reproduzo:

«Certo Verão, em Bournemouth, depois da guerra, consegui que um pescador me desse um polvo muito grande, ainda vivo, e mantive-o na banheira do nosso quarto de hotel, que enchi com água do mar. Alimentava-o com caranguejos vivos, que ele desmembrava com o bico córneo, e penso que o bicho se afeiçoou bastante a mim. Não tenho dúvidas de que me reconhecia quando eu entrava na casa de banho, e a sua pele tingia-se de diferentes cores, indicando a emoção que sentia. Embora já tivéssemos tido cães e gatos em casa, eu nunca tivera um animal só meu. Agora, concretizara esse desejo, e achava o meu polvo tão inteligente e afectuoso como qualquer cão. Queria levá-lo comigo no regresso a Londres, dar-lhe uma casa, um enorme tanque adornado com actínias e algas marinhas, tê-lo como meu bicho de estimação, meu e só meu.»

É também aí que Sacks fala da mesa de Morrison, «uma enorme mesa de ferro colocada na sala de pequenos-almoços que, pretensamente, era sólida que chegue para suportar o peso de toda a casa se esta fosse bombardeada», e de outras coisas tão insólitas quanto deslumbrantes;

os capítulos 18 ('O fogo frio') e 21 ('O elemento de madame Curie'), dedicados à fosforescência e à radioactividade, também são fascinantes.

Apesar de ter dedicado a infância a alimentar o seu interesse insaciável pelas ciências exactas (sobretudo a Química), Oliver Sacks acabou por se tornar um psiquiatra de renome. Talvez a vocação lhe tenha sido despertada pela esquizofrenia do seu irmão Michael (cuja degeneração aparece descrita nas págs. 170-172).

Oliver Sacks
O Tio Tungsténio
Relógio de Água
292 págs., preço variável (€16,15 na livraria online Wook, neste momento encontra-se a €10 na Fnac e eu comprei-o na Feira do Livro por €7,5. Seja qual for o preço, cada cêntimo é justificado)
4,5 estrelas (não tem 5 estrelas devido às páginas instrutivas mas relativamente esotéricas sobre elementos químicos e descobertas científicas)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Pargo no forno

O Comilão comprou ontem no supermercado (Modelo) um pargo de 830 gr. (12 euros e qualquer coisa, a 15 euros o quilo) para fazer no forno para duas pessoas. A receita é simples: salga-se o pargo, coloca-se num tabuleiro de pirex de levar ao forno, cobre-se com cebola às rodelas, tomate fresco aos gomos, pimento encarnado e ramos de coentros, e rega-se tudo com polpa de tomate, azeite e vinho branco. Vai uma hora ao lume.

O resultado foi um peixe assado no forno com bom aspecto. Já o sabor não correspondeu às expectativas. O peixe estava branquinho, mas pareceu-me que por fora a pele era mais escura, quase tipo dourada, e não avermelhada como é costume no pargo. Pelo menos os magníficos pargos que se comiam em casa de meus pais. Seria este o famigerado pargo mulato, ou uma qualquer raça intermédia? Também é verdade que o azeite já não estava no seu melhor (um Azal aberto há bem mais de um ano...) e que faltou um toque de colorau, por culpa do cozinheiro Comilão. A polpa também já estava aberta há algum tempo. Mas o travo parecia ter origem no peixe. É pena.

p.s. o mesmo 'pargo grande', absolutamente idêntico ao que comprei no modelo por 15 ou 16€/kg, custava no Pingo Doce 7 ou 8€/kg.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Manuel Teixeira Gomes (1860-1941)


No ano em que se cumprem 150 anos do nascimento de Manuel Teixeira Gomes (não é um número redondo, mas para isso teríamos de esperar outros 50...), aqui fica uma biografia breve feita com base no artigo da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. A fotografia é de 1923, ano da eleição como Presidente, e foi tirada na legação portuguesa em Londres.

Nasceu em Vila Nova de Portimão em 1860, filho de um proprietário rural que era também cônsul da Bélgica no Algarve e importante exportador de frutos secos. Com apenas 10 anos o pai mandou-o para Coimbra, para estudar no seminário. Deixou o curso superior a meio, o que originou uma querela com a família. Estabeleceu-se em Lisboa, onde conheceu escritores como Fialho de Almeida e João de Deus, cumpriu o serviço militar e depois esteve no Porto, onde voltou a contactar com o meio literário. Reconciliado com a família, regressou a Portimão, onde teve vagar para se dedicar à escrita.


Com 23 anos partiu de viagem. Demorou-se em Itália, mas passou também pelo Norte de África e Médio Oriente. De regresso, esteve a aprender o negócio da família, onde acabaria por suceder ao pai. Foi o primeiro embaixador (na altura chamava-se ministro plenipotenciário) em Londres da República, sucedendo no cargo, que viu interrompido pela chegada de Sidónio Pais ao poder (1917), ao marquês de Soveral. Contribuiu para a não concretização da aliança anglo-germânica e defendeu os interesses coloniais portugueses, uma tarefa nada fácil. Também teve um papel importante na participação portuguesa na Grande Guerra. Em Londres, como conta José Quitério (baseado em Urbano Rodrigues), frequenta o Carlton, cujo cozinheiro é nada menos do que o célebre Auguste Escoffier, com quem trava conhecimento. No ano de 1923 é eleito Presidente pelo Partido Republicano. Antes, o Rei Jorge V convida-o a ficar hospedado em Balmoral, a residência de férias da coroa britânica, na Escócia, e afecta um navio de guerra para o seu regresso à pátria.


Como Presidente, Teixeira Gomes não teve a vida facilitada. Chama Afonso Costa de Paris para formar um governo consensual, mas falha na tentativa de conseguir um acordo entre os partidos. O seu grande triunfo é conseguir a elevação da sua Portimão natal a cidade. Entretanto, a instabilidade política não lhe dá tréguas. Em 1925 ocorre uma tentativa falhada de golpe militar (no ano seguinte, a revolução do 28 de Maio poria fim à Primeira República). Em Dezembro de 1925 renuncia ao cargo e apanha o primeiro barco que parte para o estrangeiro. Antes disso passa uns dias na sua casa da Gibalta, perto de Caxias. Viaja durante seis anos e estabelece-se em Bougie, Argélia. Morre cego e só no quarto n.º 13 do Hotel de L'Étoile, de onde nos últimos tempos já não saía. Os seus restos mortais foram transladados para Portimão num navio da Marinha Portuguesa, com honras de Estado.

Homem de gosto refinado, reuniu uma colecção notável que distribuiu pelos museus nacionais (no do Oriente pode ver-se a colecção de caixas de rapé, a segunda maior do mundo, proveniente do Museu Machado de Castro). As fotografias mostram-no rodeado de bronzes. Foi amigo de Columbano, a quem escreveu numerosas cartas, e Teixeira Lopes. A revista Ficções publicou no seu número fora de série 'de comer' (Julho de 2002) o seu conto Gente Singular, que relata uma estranha visita a um cónego de Faro.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Le Carré


O Comilão leu O espião que saiu do frio, do John Le Carré. Prefácio brilhante, em tom confessional, e grande história de espionagem. Alec Leamas, o protagonista, é uma figura intrigante, misto de bruto e de cerebral, que não perde tempo com rodeios. Mais ou menos caído em desgraça, é-lhe atribuída uma última missão na Alemanha de Leste que pode pôr a sua vida em risco.

Óptimos diálogos e observações inteligentes. Escrita seca, por vezes cortante. Um pormenor com especial sabor nos dias que correm: o condutor passa a pequena chave da bagageira a um polícia que está a inspeccionar o carro. Quanto ao resto, não convém revelar demasiado. O segredo é a alma do suspense.

O espião que saiu do frio
John Le Carré
Dom Quixote
264 págs., €14
4,5 estrelas

Rushdie



O Comilão terminou ontem Shalimar o Palhaço, o primeiro livro do Salman Rushdie que leu. O exemplar foi adquirido na livraria Quinito, em Tavira. Trata-se de uma boa história, bem escrita (por vezes muito bem), sobre o conflito de Caxemira, com ramificações para o terrorismo internacional. Curiosamente, os capítulos sobre Caxemira são talvez os mais chatos, porventura devido à proliferação de palavras locais cujo significado o leitor não domina (o Comilão é demasiado preguiçoso para ir pesquisar). As melhores páginas são as que descrevem Estrasburgo antes da II Guerra. Têm uma leveza e um encanto que nunca mais são atingidos.

A escrita de Rushdie faz por vezes lembrar um pouco o Bomarzo de Mujica Láinez, pela densidade e, sobretudo, pelas suas simetrias (ou contrapontos): a cada coisa bela corresponde uma horrível, cada acontecimento feliz tem o seu reverso...

Aqui fica um exemplo da qualidade literária alcançada pelo autor, uma verdadeira pérola:

«Lembras-te, maej - disse ele -, quando eu era o palhaço mais triste de Pachigam e as pessoas ficavam todas contentes quando eu saía do palco?
Ela fez um barulhinho com os lábios como que a não dar importância.
- Tu eras o filho mais profundo - disse ela, orgulhosa. - Costumava afligir-me a pensar que podias afundar-te tanto dentro de ti que desaparecias.
[págs. 364-365]

Shalimar o Palhaço
Salman Rushdie
Dom Quixote
479 págs., €9,90 (promoção)
3,5 - 4 estrelas

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Michelangelo Merisi (1571-1610)



Este cesto com frutas (Biblioteca Ambrosiana, Milão) é a primeira-natureza moderna, um género que o Comilão aprecia particularmente (por que será?). Foi pintado cerca de 1596 por Caravaggio, um artista com uma especial predilecção por fortes contrastes de luz e temas violentos (David com a cabeça de Golias, Judite a degolar Holofernes, A crucifixão de S. Pedro...).

O cesto de frutas é mais sereno. Faz lembrar o Baco doente de 1593, uma vez que as folhas começam a murchar e a maçã apresenta sinais de decomposição, e é provável que tenha servido de estudo para outra pintura desse mesmo ano, o Baco com cesto de frutos.

Em Roma, no ano de 1600, Michelangelo Merisi conheceu o estrelato, com a comissão de O Martírio e A Vocação de S. Mateus, para uma capela da Igreja de S. Luís dos Franceses. Em 1605 atingiu o pico da fama, como mostra o retrato do Papa Paulo V.

Disse que Caravaggio tinha uma predilecção por temas violentos. Ele próprio, como homem, não era nada meigo. Apesar de privar com altas figuras da Igreja, tinha uma especial predilecção pela convivência com os vagabundos e os criminosos dos bairros pobres de Roma. O seu Pedro de O Martírio de São Pedro (crucificado de pernas para o ar para não se confundir com a crucifixão de Cristo) era um desses homens, e houve quem dissesse que o modelo de A Morte da Virgem fora uma prostituta encontrada morta.

Caravaggio envolvia-se com frequência em rixas perigosas. Matou um homem em 1507, na sequência de uma disputa originada por um jogo de ténis. Fugiu para a ilha de Malta, onde fez o retrato de Fra Antonio Martelli e foi ele próprio ordenado cavaleiro (mais tarde essa honra ser-lhe-ia retirada). Aí deixou mais duas obras: A decapitação de S. João Baptista (mais um tema sangrento) e outra representação do mesmo santo, mas enquanto jovem.

Ainda em Malta, na sequência de outra rixa, Caravaggio acabou por ser preso. Porém conseguiu evadir-se para a Sicília, onde hoje há numerosas pinturas suas. Daí, tentou rumar novamente a Roma, talvez na esperança de obter um perdão do Papa pelo seu crime. Foi parar à praia deserta e pantanosa de Porto Ercole. Morreu de febre tifóide no hospital daquela localidade a 18 de Julho de 1610. Fez nesta segunda-feira 400 anos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Murakami: Kafka à beira-mar



Devo começar por dizer que as expectativas eram altas. Talvez por isso o Kafka à beira-mar me tenha desiludido um pouco. Não que seja um mau livro, mas pôr um homem a falar com gatos? Francamente! Pontos fortes: lê-se bem e tem uma história engraçada. De uma forma geral está bem escrito. Algumas das coincidências e facilidades que ali encontramos só podem acontecer num livro, ou seja, tem situações pouco realistas. Que contrastam com certas notas realistas, como as descrições algo gratuitas de actos violentos com muito sangue, por exemplo.

Tenho de reconhecer que aquela música que nunca ouvimos, mas tentamos imaginar sem nunca sabermos como será pois não existe - ou existirá? - dá um toque mágico ao romance. Agora, parece-me que quer demasiado ser um romance contemporâneo. Possui meia dúzia de apontamentos, para não dizer tiques, de livro que se quer afirmar do seu tempo. A saber: fast food, ginásio, filosofia (quanto a mim metida a martelo, sem profundidade e posta na boca dos personagens de forma pouco credível), referências à II Guerra, sexo/masturbação, violência com sangue (não um sangue abstracto, mas concreto, espesso, com densidade), roupa de marca, muitas referências musicais, como se fosse a playlist de um iPod. Se fosse um filme teria banda sonora, o que não é necessariamente mau, mas também não é uma qualidade enorme, até porque nem sempre a música surge a propósito. Nada tenho contra estas características, mas parece-me demasiado fácil, se não preguiçoso, cumprir-se estes critérios e já está: obtém-se um 'romance contemporâneo'.

Mas também há que dar mérito ao autor. Com Kafka à beira-mar o Comilão estabeleceu um novo recorde de leitura: 150 páginas num dia. Já houve seguramente dias em que leu mais, mas, talvez por as páginas serem mais densas, nunca ascenderam a tantas. E além disso nunca ficou registado.

Kafka à beira-mar
Haruki Murakami
Casa das Letras
589 págs., €21,20
3,5 estrelas

O incomparável Chana

Quem vem de Estremoz chega lá por meio de uma estrada estreita e com curvas apertadas. Ao final das tardes de Verão, com o calor ainda no ar, a Serra de Ossa atinge todo o seu esplendor. Transposto o cume, deixa-se à esquerda o Convento de São Paulo e chega-se à Aldeia da Serra. Ainda conheci as antigas instalações do Chana, tipo taberna, a poucos metros da moderna casa. Tenho ideia de na altura não haver ementa, sendo o cardápio desfiado pelo Sr. Bernardino no seu jeito particular, detalhado e sorridente. Além da simpatia do proprietário, há aqui pratos que não se comem em mais lado nenhum.

Um desses pratos é a sopa de tomate, mas já lá vamos. Comecemos pelo pãozinho bom e azeitonas maravilhosas. Para entrada, os pimentos assados só com sal, alho picadinho e azeite. Os pimentos do Chana são imbatíveis na sua simplicidade.

A sopa de tomate. Primeiro chega à mesa o prato com pão às fatias, depois a travessa com o ovo escalfado (neste caso, como era para dividir, tiveram a atenção de sugerir e trazer dois ovos), os enchidos partidos aos pedaços, o bocadinho de carne de porco frita, o bocadinho de entrecosto, a postazinha de bacalhau. Por fim vem o caldo, de um vermelho vivo, um tom quase indiano, com muita cebola e pimentos. As carnes e os enchidos fritos, o ovo e a liliputiana posta de bacalhau emprestam magia à sopa, mas o caldo é de facto a sua alma. Um verdadeiro prato 5 estrelas (são raros).

Depois desta iguaria mandámos vir umas migas com carne de porco. Saborosas, mas nada comparável à sopa de tomate. Para sobremesa, pedimos umas farófias. Apesar de estarmos cheios não nos arrependemos. Eram umas farófias caseiras como mandam as regras, parecidas com umas que uma vez fizemos em casa (e que deram um trabalhão dos diabos!). A rematar tudo isto, o Sr. Bernardino trouxe a sua garrafa de licor de poejo, de um amarelo, diria, radioactivo. Muito bom para fechar a refeição. Em seguida fizemo-nos à estrada, com umas curvas pelo meio para desmoer o jantar.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Comidinhas

O Comilão andou pelo Sul do país a empanturrar-se. Alimentou-se à base de grelhados no carvão, mas também comeu fora de casa. A saber: na Churrasqueira Martins (Santa Luzia), no Casarão (Tavira), na Casa Guerrero (Ayamonte), no Baixa-Mar (Santa Luzia) e no Alcatruz (Santa Luzia).

Na Churrasqueira Martins já não havia o franguinho assado da praxe. Por isso tivemos de nos contentar com umas óptimas tiras de entremeada e febras. A acompanhar, batata frita caseira e farta salada. Uma simples mas magnífica refeição para duas pessoas, pela módica, quase ridícula, quantia de €12,5.

No Casarão pontifica o Sr. Chico, sentado numa mesa próxima da cozinha, com a sua boina e o seu bigode mexicano. Faz lembrar um pouco a figura do Sancho Pança. Na esplanada do Chico, o Comilão e a sua amantíssima esposa jantaram uns camarões fritos com alho (com casca) e depois a magnífica vitela assada. Agora o Sr. Chico já não vai à mesa fazer a conta como quem atira um palpite para o ar, mas os preços continuam moderados.

Em Ayamonte, na esplanada da velha Casa Guerrero, os Comilões pediram cinco pratos (para dois). O empregado de mesa, parecido com um antigo jogador espanhol do Benfica (o Chano), advertiu: 'É demasiado'. 'Pois bem, venham só quatro'. Sacrificámos a tortilla. Assim: tábua de presunto Pata Negra, maionese de ovas (só ovas, cobertas individualmente por uma espessa camada do tempero, daqueles que saem em fio da bisnaga), calamares, pois claro, e gamba branca. Quatro cervejas e dois cestos de pão. Não sobrou nada. Total: €42.

No Baixa-Mar impõe-se a bicha de polvo e gambas (uma espetadinha com segmentos de tentáculos do cefalópode, gambas, chouricinho, cebola e pimento). Acompanha com batata cozida (pouca) e traz azeite quente com alho, que fica a matar. Antes disso vieram umas amêijoas à Bulhão Pato. Não eram das melhores nem das piores: estavam bem temperadas, mas a amêijoa em si era algo miúda e o molho pouco abundante.

No Alcatruz comemos, para começar, maionese de raia (bastante boa) e salada de ovas de pescada (algumas, rosadinhas, eram uma maravilha). Também há de ovas de polvo, acinzentadas, igualmente boas. Depois veio uma carne de porco com amêijoas. Os bivalves eram de grande qualidade, a carne regular. O molho, com pouco sabor, melhorava substancialmente com os bons coentros. O Comilão ainda se sentiu tentado pelas enguias fritas, mas ficaram para uma próxima oportunidade.

Em casa: torricado de carapaus, entrecosto na brasa com batata doce (uma delícia), óptimas salsichas frescas no carvão com arroz branco e baked beans, robalinho de aquacultura grelhado (muito bom), hambúrgueres com bacon na grelha, conquilhas (muito boas, com azeite, alho e coentros), seguidas de costeletas do lombo de porco na brasa (assim-assim, demasiado secas) com batata doce, alguma massa (esparguete com natas e cogumelos frescos) e alguma piza (preferencialmente a piza bolonhesa com molho barbecue do Pingo Doce). Os meninos trataram-se bem.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Uma história breve

Chamem-lhes VIPS, beautiful people, jet set, nova aristocracia, chamem-lhes o que quiserem. Mas não tenham qualquer dúvida: estava naquela festa tudo quanto é gente interessante. O sr. e a sr.ª Rushdie, um tipo da Ferrari, o François Pinault, o MC francês, o mayor Bloomberg, um fotógrafo milionário, oligarcas russos, coleccionadores suíços, o Tobias Meyer da Sotheby's, o Eli Broad, um gajo muito engraçado que trabalha com o Woody Allen, o careca do Jean Nouvel, actores da nova geração, músicos experimentais, banqueiros cultos, criminosos de guerra, supermodelos e ainda algum príncipe herdeiro. Disseram-me que o Aga Khan também tinha passado por lá. La crème de la crème. E muita malta bonita na casa dos trinta. Nas conversas cruzadas ouvia-se falar inglês, francês e russo, mas também alemão (os suíços), magiar e persa.

Só que eu estava sem paciência nenhuma para aquilo. Noutra ocasião ter-me-ia posto a emborcar copos uns atrás dos outros até ficar divertido e sociável. Mas não naquela noite. Estava com uma ressaca monumental e doía-me a cabeça e os dentes. Ficava com vómitos só de olhar para os copos a transbordar de champagne. Devia estar com um aspecto miserável e seria facilmente confundido com um dos seguranças à paisana, não fosse dar-se o caso de os seguranças serem mais entroncados (ainda que discretamente, nada de gorilas) e sem dúvida muito mais elegantes.

O primeiro encontro não correu bem. Na ânsia de felicitar os anfitriões para depois me poder raspar dali para fora interrompi um tipo qualquer importante e ia pisando a mulher dele. Felizmente logo a seguir encontrei um velho amigo entre os empregados e ficámos um bocadinho à conversa. Assim que pude pirei-me da festa e pus-me a andar até ao primeiro café que encontrei aberto. O café não tinha nada de especial. Além da minha só havia três mesas ocupadas e um alcoólico de meia-idade ao balcão. Numa estava um homem já meio acabado a apontar qualquer coisa nuns papelinhos que depois guardava na carteira, com uma grande chávena de café que por estar vazia parecia ainda maior, noutra um casal de classe média e na terceira dois jovens amigos que deviam ter ali entrado por acaso e conversavam animadamente.

Pedi um café duplo para combater o cansaço e a ressaca. Era difícil não reparar que os suportes de guardanapos estavam sujos e as mesas de contraplacado riscadas. Um placard banal anunciava especialidades da casa. 'Especialidades'? Nem por isso. O serviço era assegurado por duas empregadas novinhas, não muito bonitas, mas simpáticas. Talvez ali estivessem para pagar os estudos.

Lembrei-me da festa, olhei mais uma vez à minha volta e concluí que Deus abençoou as coisas simples.