terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Café do Paço

o bife três pimentas

O Comilão era um grande apreciador do D. Pedro V, casa de refeições fora de horas com ambiente de clube de jogo, entre o luxuoso e o decadente. O bife com molho de pimenta verde era um must. O Café do Paço (atenção que não fica no Terreiro do Paço mas no Paço da Rainha, perto dos Mártires da Pátria), para onde a equipa do D. Pedro V se transferiu, não tem esse ar decadente. Fica numa rua muito bonita e tem de se tocar à campainha, como no Snob. Bom ambiente, com predominância de madeiras e de tecidos vermelhos, mas ainda com pouca patine.

Os croquetes foram apresentados como uma especialidade da casa, mas não convenceram inteiramente. O bife (na foto) sim. Pedi o três pimentas, enquanto a sr.ª Comilão pediu o bife à marrare (que achou algo enjoativo). Acompanha com óptimas batatas fritas e um excelente esparregado.

Para sobremesa um bom quente e frio (embora tenhamos estranhado que, além da cobertura de chocolate, partes do gelado também fossem de chocolate).

Diz-se que este era um dos locais preferidos de José Sócrates.

Café do Paço
3 estrelas
70 euros (refeição para dois, cada bife custa 17,5€)

Carvoaria, Anjos

Fui lá numa noite de chuvas diluvianas e não é fácil estacionar. Fica numa perpendicular à Avenida Almirante Reis, na rua Maria Andrade (que penso que não aparece no GPS).

Depois dessa procura algo atribulada, tive uma agradável surpresa. Trata-se de um restaurante simples, mas com ambiente moderno. Há várias entradinhas para antes da carne grelhada - o prato forte da casa. Apareceu-me um enorme naco de carne (o bife de 300 gr.) com óptimo aspecto. Tinha pedido meio termo mas veio muito mal passado, o único senão. Acompanha com boas batatas fritas.

O serviço foi atento e simpático. Outro aspecto a ter em conta são os preços, bastante contidos, sobretudo tendo em conta a qualidade (e quantidade, já agora) da carne. Infelizmente não tenho foto para ilustrar a refeição, mas o bife é imponente.

Em suma, uma excelente opção para carnívoros.

A Carvoaria
Rua Maria Andrade, 6-8 (Anjos)
4 estrelas

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

La Ville en France au Moyen Âge


Aqui ficam os apontamentos (excertos) que resultaram da leitura (não integral e ocorrida há uns largos anos) de La Ville en France au Moyen Âge (dir. Jacques Le Goff), que integra uma História da França Urbana. O exemplar aqui retratado foi atacado, pouco depois da sua aquisição, pelo nosso querido Paco.


«Desde antes da metade do século X começa um vasto movimento de expansão cujo ritmo não iria abrandar durante mais de dois séculos. (...) Engendrou uma nova paisagem urbana e esteve na origem de uma nova classe social: a burguesia. Nos primeiros tempos da sua história, a cidade medieval cresceu de maneira original. Em lugar de se desenvolver a partir de um centro único cuja periferia se iria progressivamente urbanizando, oferece as mais das vezes uma estrutura polinuclear cujos elementos novos trazem em geral o nome de burgos e cujo destino variou em função das actividades que as animavam.»

«O burgo – burgus – é o termo que foi mais correntemente utilizado para designar os diferentes aspectos topográficos da dinâmica urbana. (...)
A origem do termo é provavelmente germânica: o feminino burg designava na origem uma elevação fortificada; é assim que ele aparece pela primeira vez em Tácito e Ptolemeu nos topónimos saltus Teutoburgiensis e Asciburgium. Mas, porque burgus é masculino e a mais antiga definição, a de Vegécio, faz dele um castelo, alguns preferiram ver a sua origem no grego pyrgos = torre fortificada. Em todo o caso, o espanhol Orósio no século V, a crónica do pseudo-Fredegário mais tarde, afirmam que o termo era utilizado pelos Bárbaros. Tem por vezes a acepção militar que permanece nas línguas germânicas onde o feminino burg continuou a designar um conjunto fortificado. Todavia, uma inscrição do imperador Valêncio, encontrada na Panónia, dá do burgus uma definição nova, a de um lugar consagrado às trocas». pp. 55-56
O burgus pode ser ainda uma aglomeração de edifícios adossados às muralha ou um povoado rural.

Os primeiros mesteres aparecem cerca de 1100. Talvez sejam extensões das oficinas dos castelos e mosteiros, talvez derivem de uma decisão da autoridade pública visando organizar a produção. Dificilmente nascem de geração espontânea, devido à falta de meios e concertação, por parte dos artesãos, para o fazer. Outra hipótese, também plausível, é que sejam a derivação de associações religiosas inicialmente promovidas pela Igreja. É provável que estas origens diversas se combinem em proporções variáveis.

«Estas guildas, os mercadores não as inventaram. Desde a época carolíngia, apareceram como sociedades de investimento bastante mal definidas onde o elemento germânico predomina claramente; a solidariedade é aí reforçada por um juramento pessoal, concretizada pela comunhão alimentar, muito especialmente a compotacio levada de ordinário e deliberadamente até à embriaguez.» Acusadas de actividades ocultas subversivas, deboche e embriaguez, «em vez de serem suprimidas, elas foram cristianizadas e asseguraram desde então sob o nome de confrarias serviços religiosos pelos mortos e banquetes ou distribuições de víveres pelos vivos».
As confrarias possuem pois um carácter mais especificamente religioso, dedicando-se a acções de caridade. Somos levados a pensar que «os mercadores não criaram a guilda mas, utilizando uma instituição preexistente, sem dúvida a confraria, imprimiram-lhe uma evolução favorável aos seus interesses».
A guila é uma instituição pujante dotada de rendimentos e bens próprios, visando o controlo do comércio, a fixação dos preços e a protecção mútua dos seus membros, a que alia uma componente religiosa e ritual. Graças à sua influência, os mercadores possuem um direito próprio, «o jus mercatorum, reconhecido pela autoridade pública.»

«O castelo atrai o mercado

Afim de satisfazer as necessidades dos do castelo, começaram a afluir perante a sua porta, perto da Ponte do Castelo, comerciantes, mercadores de artigos caros, depois taberneiros, enfim hoteleiros para alimentar e hospedar os que faziam negócios com o príncipe, que estava frequentemente ali; construíram-se casas e instalaram-se albergues onde se alojavam aqueles que não podiam ser os hóspedes do castelo. A sua fórmula era: «Allons au Pont» («Vamos à Ponte»). As habitações multiplicaram-se de tal sorte que depressa se criou uma grande cidade que conserva ainda hoje na linguagem corrente das gentes do povo o nome de «Ponte», pois Bruges significa «ponte», no seu dialecto.

Crónica de Saint-Bertin, século XIV» p.67

«É o campo vizinho que sustentou quase isolado o crescimento das cidades.» p. 106

«As cidades dos séculos XI-XII permanecem muito profundamente impregnadas pelos modos de vida e logo de pensar do mundo rural. Como tal, elas aparecem como grandes vilas; delas se distinguem no entanto pelas actividades de transformação e de troca que estabelecem entre elas e as outras uma diferença de natureza e não apenas de grau; são elas que conferem ao mundo burguês a sua originalidade.» p. 107

«Estas estradas medievais distinguem-se das vias romanas pelo seu percurso mais sinuoso; construídas mais ligeiramente, elas não possuem a fixidez e diluem-se por vezes em variados itinerários paralelos.» p. 109

«Há que notar os mercados especializados em peixe, gado, cereais, tecidos, ervas, etc., as praças, praças de trigo e sobretudo praças de tecidos (...), os talhos e talhos-açougues e as arcadas de diferentes mesteres. Uma menção particular deve ser feita aos moinhos, estas primeiras “fábricas” da economia ocidental (...). Balanças públicas, pesos e medidas (sinne), moedas, manifestam, ao lado das praças, o controlo do artesanato e do comércio pela cidade. Os diferentes usos comunitários da água são recordados pelos poços, fontes e banhos». p. 216

«A cidade e a arte religiosa: o gótico urbano

Georges Duby, num estudo novo e esclarecedor, emitiu a ideia de que a arte cisterciense foi a prefiguração da arte das catedrais. Se esta ideia se verifica do ponto de vista do método de construção e da sua estética, resta que a mudança de ambiente, das igrejas cistercienses na solitude às catedrais na cidade, modifica o significado da arte gótica.
Os laços entre a arte gótica e a cidade afirmam-se em três pontos de vista: o das dimensões e do prestígio, o da presença da sociedade urbana, o do estilo.
Ainda que as causas demográficas não tenham sido senão um dos factores de substituição das antigas igrejas, das quais algumas de resto não datavam senão de há um século ou dois, é certo que o carácter grandioso de muitas das igrejas góticas é em primeiro lugar devido à necessidade de abrigar um maior número de fiéis nas cidades onde, a imigração juntando-se ao crescimento da população local, o crescimento demográfico foi mais forte. A este elemento material junta-se uma mentalidade de desmesura urbana que é de resto, sem dúvida, tanto senão mais a dos bispos e cónegos do que a dos burgueses. Mas revela-se, desde o século XIII, a vaidade dos citadinos que se orgulham das suas igrejas numa época em que o primeiro critério de beleza é o da grandiosidade. Sabe-se a que delírio esta mania das grandezas pôde conduzir certas cidades: é o caso célebre de Beauvais onde, desde 1225, se projectou construir o coro da catedral a uma altura de 48m, o que provoca o desabamento da abóbada em 1284.
As igrejas góticas das cidades, sobretudo as das grandes cidades – neste século XIII que é o da grande vitalidade da arte gótica a trabalhar em numerosos e importantes estaleiros ao mesmo tempo -, tiveram também com a nova sociedade urbana laços mais ou menos estreitos. Do ponto de vista económico e social em primeiro lugar. Marcel David, estudando com minúcia e pertinência «a fábrica e os operários nos estaleiros das catedrais em França até ao século XIV», pode escrever: «Como o empresário capitalista, a fábrica serve de intermediário entre o capital e o trabalho, como ele, ela recorre a um número relativamente grande de trabalhadores; como ele, ela contribui, pelos trabalhos que suscita, a reabsorver à sua volta as irregularidades e insuficiências do emprego. Como ele, igualmente, ela acredita subtrair-se aos entraves da regulamentação corporativa e não imagina que entre ela e cada um dos operários possa, na melhor hipótese, estabelecer-se outro laço senão um acordo sem forma, exclusivo de toda a garantia para o assalariado.» Não seria necessário acreditar, fazendo fé de certos textos mostrando o entusiasmo das populações a contribuir à reconstrução da catedral românica de Chartres, destruída por um incêndio em 1194, que as grandes catedrais do século XIII se constróem com o dinheiro e os encorajamentos dos burgueses. A acção financeira, artística, psicológica é essencialmente a dos bispos e dos cónegos, mais ou menos ajudados pelo rei e príncipes territoriais. Em Reims, onde os burgueses quase sempre se deram mal com os arcebispos, solevam-se em 1233 contra o arcebispo Henri Braisne e erguem barricadas que constróem em parte com as pedras do estaleiro da catedral. Em Aix-en-Provence, onde há uma intensa actividade de construção de igrejas no século XIII, só o estaleiro da catedral Saint-Sauveur não avança porque os burgueses lhe negam o financiamento em proveito do dos conventos mendicantes que têm todos os seus favores. Com os mendicantes, em compensação, o laço com a cidade é evidente e estreito. A arquitectura das igrejas dos conventos organiza-se em grande parte em função de um espaço de predicação aos leigos no interior e no exterior do edifício. Os grandes burgueses cumulam-nos de doações, fazem-se aí enterrar. Mas é preciso também notar a presença dos mercadores e mesteres no interior das catedrais, sobre os vitrais que eles oferecem como em Chartres, ou por intermédio das capelas que se fazem construir em louvor ao seu santo patrono nas cotas baixas da nave, como em Rouen, a partir de 1270. O gótico é bem uma arte urbana. Ele culmina em Paris, com Notre-Dame, com a Sainte-Chapelle, na próxima Saint-Denis, necrópole real. Robert Branner vê aí o triunfo, sob Saint Louis, de um estilo de corte, de corte urbana que deve, em Paris, manifestar ostensivamente, através dos seus monumentos religiosos, «a eminência do rei de França e a posição única da cidade». As destruições do tempo impedem-nos de ver que, arte religiosa, arte real, o gótico urbano foi também uma arte burguesa. Os restos de algumas casas de patrícios dos séculos XIII-XIV, um edifício como a Casa dos músicos em Reims recordam-nos o desenvolvimento e o brilho duma arquitectura e duma escultura profanas no seio da cidade gótica do século XIII.
Enfim Panofsky volta a colocar estes monumentos sob o olhar da sociedade para a qual os arquitectos góticos os construíram, e que eram os mesmos que aqueles para quem os mestres universitários construíam os modelos de sermões e das «disputas» escolásticas que, tratando de todas as questões do momento, acabavam por se tornar eventos sociais muito semelhantes às nossas óperas, aos nossos concertos ou às nossas palestras públicas».
Sobretudo, espectacular e durável até nós sob os seus aspectos arquitecturais, o gótico urbano transformou também as outras artes. É o caso da pintura sob a forma da miniatura. A partir do século XIII, as oficinas urbanas suplantam as oficinas monásticas e Paris, ainda aqui, torna-se o grande centro. Pôde-se desocultar uma parte da produção das oficinas dos dois grandes mestres parisienses : no fim do século XIII, mestre Honoré, «Honoratus illuminatus», habitante da rua Boutebrie, aquando do corte de 1242, pagou o montante mais elevado e, na primeira metade do século XIV, Jean Pucelle, que não tinha senão clientes reais e aristocráticos: desenhou o emblema da confraria parisiense de Saint-Jacques-aux-Pèlerins (Santiago-dos-Peregrinos).» pp. 373-375

«1330: o rei Philippe VI sonha reunir os representantes das suas boas cidades».
«Os pobres morrem aos cachos nas ruas do Languedoc, mas a cidade de Périgueux nunca foi tão populosa. Os burgueses de Bordeaux enriquecem-se cada vez mais exportando os seus vinhos, mas os mercadores de Marseille inquietam-se com o marasmo do porto. O estaleiro da catedral de Narbonne acaba de ser abandonado, mas vai-se retomar a obra em Clermont, e o coro de Saint-Ouen surgiu em Rouen...» p. 397

«A construção de muralhas fez-se naturalmente acompanhar de destruições maciças; (...) Assim desapareceram inúmeras igrejas mendicantes.» p. 421

Cerca de 1350 «Os edifícios em pedra eram ainda muito raros. (...) a pedra permanecia um material senhorial ou patrício. (...) Um pouco por todo o lado, a casa do artesão como a do mercador abastado era uma construção com faces de madeira erguida sobre uma soleira (embasamento) de tijolo ou cascalho. As tradições jogavam aí o seu papel, mas a preocupação económica era primordial: a construção duma tal casa era rápida; ela podia ser pré-fabricada (...) e levantada muito rapidamente, o carpinteiro deixando os postes previamente talhados, que encaixavam uns nos outros.»
As frestas deixadas pela malha em madeira eram preenchidas com compostos de gesso ou terra argilosa. As coberturas utilizavam materiais como o colmo ou ripas em forma de telha.
«Uma tal casa, em que o madeiramento representava mais de 70% dos custos de construção, requeria uma manutenção incessante. A água, mais ainda do que o fogo, ameaçava-a em permanência e, escorrendo sobre as paredes, apodrecia as ripas, a armação de tabique ou os postes dos cantos. (...) Negligenciar a manutenção destas placagens, de uma cobertura, das goteiras, expunha a casa a uma ruína rápida». pp. 422-423

«Esta degradação contribuiu para acentuar o carácter rural de certas zonas periféricas; ilhotas em vias de desertificação serviam de abrigo aos pobres ou tornavam-se temporariamente zonas perigosas.
De resto, os conselhos urbanos encontravam-se incapazes de cuidar do património colectivo, a manutenção da muralha absorvendo o essencial das receitas; as pontes destruídas pelas cheias não eram reerguidas, o pavimento desaparecia sob a lama e a sujidade, os mercados enterravam-se. Essa foi a paisagem urbana no ponto mais baixo da depressão, quando os salteadores vinham há muito batendo os caminhos e que a peste tinha atingido. Então a natureza selvagem retomava efemeramente os seus direitos em torno das muralhas, os lobos vinham vaguear até às portas e o mato estendia-se ao coração da cidade.» p. 424

“Porque é preciso lutar eficazmente contra os incêndios (existe uma «milícia do fogo» com as suas tropas de choque de carpinteiros e pedreiros) os poços públicos são multiplicados (...) e empreendem-se grandes trabalhos para captar as fontes próximas ou longínquas (...); aquedutos, canalizações de terracota ou madeira conduzem as águas a fontes que, no final do século XV, adossadas a uma parede ou plantadas no meio das praças, se tornam verdadeiros monumentos da glória urbana.»

Durante o século XV assiste-se a um progresso da construção em alvenaria em detrimento das técnicas tradicionais com materiais combustíveis.


“Porque se a largura da casa em nada se modifica, a tendência para a elevação propaga-se um pouco por todo o lado; lição dos anos de retoma? Queria-se conservar os jardins, pelo menos na Paris onde a reconstrução se fez acompanhar da reposição em ordem do habitat e da multiplicação dos andares (em casos extremos seis ou sete), afim de arejar o quarteirão». p. 550

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Wittkower, Sculpture

Era um dos livros recomendados pelo professor de História da Escultura na faculdade. O Comilão encontrou-o há tempos na banca do Joe, que tem sempre bons livros, em Tavira (primeiro sábado do mês, junto ao mercado).

Do mesmo autor, existe na biblioteca do Comilão outro clássico, Architectural Principles in the Age of Humanism (e ainda gostaria de ter Born Under Saturn).

Sculpture - Processes and Principles é uma transcrição das aulas de Rudolf Wittkower, coligida já após a sua morte. Propõe um ângulo original, porque em vez da história desta disciplina, preocupa-se sobretudo com as práticas (processos) e as técnicas. Tudo é explicado com clareza. Aqui ficam alguns excertos:

«Em velho (diz-nos Baldinucci) Giovanni Bologna gostava de contar aos seus amigos como um dia, em Roma, ele tinha feito um modelo de sua própria invenção e tinha-o acabado, como diz a expressão, coll'alito (que pode ser traduzido por 'com muito cuidado', como se respirasse). Mostrou esta bela obra acabada ao grande Miguel Ângelo, que lhe pegou e a esmagou por inteiro; então fez uma nova com uma extraordinária facilidade, mas completamente diferente da que o jovem Giovanni Bologna lhe tinha mostrado, e disse: 'Primeiro aprende a fazer o esboço e só depois o acabamento'» p. 153

«Para o escultor, a parte da cabeça humana (e talvez até de toda a figura humana) mais difícil de representar é o olho. Isto deve-se, evidentemente, ao facto de, de todas as partes do corpo humano, o olho ser a única que se define apenas em termos de cor e não de forma: a íris e a pupila» p. 188

«A relação entre o bozzetto e a execução ilustra um afastamento decisivo de um início relativamente clássico em direcção a um estilo não-clássico, inteiramente pessoal e emotivo. Bernini começava com uma figura clássica em mente. Mas à medida que o trabalho preparatório avançava, ele era, passo a passo, afastado da forma e do espírito do protótipo clássico» p. 191

«Mesmo antes de a comissão para o busto se confirmar, Bernini começou a fazer modelos de barro de molde a estudar a atitude geral do busto sem ter em consideração a parecença. Pouco depois de o Rei lho ter encomendado, foi vê-lo a Saint Germain. Nesta e em várias outras visitas subsequentes fez esboços do Rei enquanto este jogava ténis ou presidia a reuniões ministeriais. Ele defendia que o carácter único de um homem não se revelava numa pose artificial e autoconsciente, mas apenas enquanto se desempenham as tarefas habituais. Ele queria ver o seu modelo a deambular, pois - dizia - o movimento traz à tona aquelas qualidades que são suas e só suas». p. 193

«Ele explicava que fazia esboços espontâneos para se imbuir das características do Rei, mas nunca usaria esses esboços enquanto estivesse a trabalhar o mármore» p. 193

«No Outono de 1667 o Papa Clemente IX decidiu embelezar a Ponte S. Angelo [...]. Dez anjos meditando sobre os instrumento da Paixão seriam colocados na ponte. Bernini foi escolhido para dirigir a empreitada e os mais proeminentes escultores foram convidados a participar. Os dois anjos esculpidos por Bernini (com alguma ajuda) nunca foram colocados na ponte; quando o Papa os viu no estúdio do artista disse que trabalhos daquela qualidade não deviam ser expostos às inclemências do tempo» p. 195

François Raguenet, em 1700, sobre Bernini: «Ele tratava o mármore com tal suavidade que parecia cera ou até mesmo carne» p. 204

un déjeuner à Marrakech

Bom almoço de sanduíches no Un Déjeuner à Marrakech, um café bonito e moderno recomendado pelo guia Explore Marrakech. Claro que o requinte também se paga. Pena o dia ventoso e os chuviscos, pois tirando isso o terraço é muito agradável. Aqui fica uma foto do café da óptima sobremesa.

Un Déjeuner à Marrakech
Place Douar Graoua
Refeição para dois: 30 euros
3,5 estrelas

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Stefan Zweig, Mendel dos Livros

O Comilão é fã da colecção Gato Maltês, da Assírio & Alvim: livros pequeninos em edição bonita, limpa e cuidada. A última pérola da colecção chama-se Mendel dos Livros, uma novela originalmente publicada na imprensa.

Aqui ficam dois excertos que me agradaram particularmente:

«Pois, lia como os outros rezam, como os jogadores jogam e os bêbedos, atordoados, olham para o vazio, lia com uma concentração tão comovente que, desde aquele momento, todo o tipo de leitura feito por uma outra pessoa me parecia sempre qualquer coisa de profano», p. 43

«... por baixo das sobrancelhas pretas eriçadas, dois estranhos olhos cravaram-se em nós, olhos pequenos, negros e despertos, rápidos, agudos e tremulantes como a língua de cobra», p. 44


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O arquivo russo


Apenas estive uma vez na Rússia, em 2003, mas é um país que exerce sobre mim um grande fascínio. Nos últimos tempos tenho reforçado aquilo a que chamo o meu 'arquivo russo' - nada mais do que um conjunto de livros sobre esse país gigante e a sua história. Aqui ficam alguns títulos:

Christopher Andrew e Vasili Mitrokhine, O Arquivo Mitrokhine - O KGB na Europa e no Ocidente
Catherine Merridale, A Fortaleza Vermelha
Vassili Grossman, Carnets de Guerre
Orlando Figes, Sussurros
John Lewis Gaddis, A Guerra Fria
Owen Matthews, Filhos de Estaline
Arkadi Vaksberg, Laboratório de Venenos - de Lenine a Putin
John Barron, KGB - A Mão Oculta (ver post)
Brian Crozier, Free Agent: The Unseen War 1941-1992
Anne Applebaum, Gulag - Uma História
Helen Rappaport, Os Últimos Dias dos Romanov - Ekaterinburg
Jean Marabini, A Vida Quotidiana na Rússia durante a Revolução de Outubro
G. H. Hamilton, Art and Architecture in Russia - The Pelican History of Art
AA. VV., O Livro Negro do Comunismo
Joel Carmichael, Histoire de la Révolution Russe
Tim Chapman, Imperial Russia 1801-1905

Biografias:
Marc Ferro, Nicolau II - O Último Czar
Henri Troyat, Pierre Le Grand
Henri Troyat, Catherine La Grande
Henri Troyat, Alexandre Ier
Henri Troyat, Raspoutine
Dmitri Volkogonov, Lenine - Uma Nova Biografia
Simon Sebag Montefiore, Estaline - A corte do Czar Vermelho
Simon Sebag Montefiore, A Juventude de Estaline
Martin Amis, Koba, o Terrível

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Un petit déjeuner à Marrakech


No terraço do Riad Rabahsadia. Muito agradável

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Restaurante Andorinhas, Ajuda

É estranho nunca ter falado aqui do restaurante Andorinhas, na Calçada da Ajuda (lá para cima, do lado esquerdo de quem sobe), de que tanto gosto e que conheço há vários anos.

Estive bastante tempo sem lá ir e regressei recentemente, pela primeira vez ao almoço, com a família. Continua na mesma: bom, movimentado, com o Sr. João ao comando.

É um restaurante para ir com amigos, pois tem várias entradinhas, como gambas descasacadas (queria escrever descascadas, mas descasacadas também é apropriado) com azeite e alho, cogumelos, favinhas, saladinhas de polvo e de ovas - enfim, um não mais acabar de pires com coisas boas.

A lista também apresenta uma grande variedade de opções de peixe e de carne - comida tradicional como filetes, lulas de várias maneiras e feitios, secretos... Mas curiosamente optámos por um prato que nem aparecia na lista, o entrecosto frito no tacho com amêijoas, que eles fazem muito bem.

Foi um bom regresso a um clássico. Os preços rondarão os 15 euros por pessoa.

O tachinho de entrecosto com amêijoas



p.s. (22.05.2017) um familiar que esteve nas Andorinhas há pouco tempo disse-me que mudou de gerência e que já não estava tão bom. É difícil, de facto, manter o nível de qualidade que tinha sob a batuta do sr. João, mas é de elementar justiça dar o benefício da dúvida aos novos proprietários.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Leon Goldensohn, Entrevistas de Nuremberga


A Tinta da China continua a fazer um bom trabalho, agora com a edição paperback de Entrevistas de Nuremberga (edição de capa dura em 2006). Era um livro que o Comilão queria adquirir há bastante tempo, mas demasiado caro (cerca de 30 euros). Estava à espera de uma oportunidade e ela surgiu nesta reedição que custa cerca de metade do preço da primeira, com a vantagem de ser mais bonita (a outra tinha uma capa amarela com foto de Goering, esta tem uma bela foto a preto e branco dos julgamentos).

A história deste livro remonta a 1946, altura em que Goldensohn foi destacado como psiquiatra dos arguidos. Tirou notas nas entrevistas realizadas nas celas dos prisioneiros mas nunca chegou a transformá-las em livro, pois morreu de forma inesperada em 1961. Em 1983 a viúva deu os papéis aos filhos, que por sua vez os passaram ao irmão mais novo de Leon, o neurologista Eli. A organização desses papéis ficou depois a cargo do historiador Robert Gellately, que também assina a excelente introdução. Explica as negociações que levaram a estes julgamentos, o enquadramento legal (mas de uma forma interessante) e a forma como o autor obteve estes depoimentos.

Em baixo, um link para um bom artigo sobre a história das Entrevistas:


Agora uma selecção de excertos feita especialmente para si pelo Comilão:

Karl Doenitz, o almirante que entregou a rendição:
«O leste está a começar a ameaçar o ocidente. A luta pelo poder está a ser travada entre duas culturas e dois tipos de seres humanos diferentes. Um dia ainda me vão agradecer por ter enviado a marinha para ocidente e por ter deslocado os nossos exércitos por forma a evitar uma rendição frente aos russos» (pp. 55/56)

Hans Frank, advogado pessoal de Hitler e administrador-geral da Polónia durante a guerra:
«Estão numa situação trágica, estas 21 pessoas que já dominaram uma parte do mundo. Já é possível observar os preparativos que podem vir a causar uma guerra mais cruel do que a última. […]  A bomba atómica. Mas espero que a humanidade tenha mais sanidade mental» (p. 65)
No Verão de 1923, surgiu a inflacção. Como se deverá lembrar, a França invadiu o Ruhr em Janeiro de 1923. Durante um terrível período houve fome. Um dólar americano valia 400 mil marcos. Mais tarde, em Novembro de 1923, um dólar passou a valer mil milhões de marcos. Foi nesta altura crucial que Hitler conquistou maior influência» (p. 68)

Walther Funk, ministro da Economia:
«Sempre tive o sentimento de que Ohlendorf era espiritualmente deprimido. Comentei por várias vezes com a minha mulher, quando Ohlendorf lá ia jantar a casa, que me parecia que aquele homem não conseguia mesmo ser feliz. Ohlendorf devia estar muito deprimido por causa dessa experiência. Não conseguia ter um riso solto. Um homem assim ou está deprimido, ou doente, ou é mau. Pensei que alguma coisa lhe perturbava a alma» (p. 133)

«Quase não convivíamos com pessoas do partido, e os nossos hóspedes eram maioritariamente artistas , como Richard Strauss, o maestro Wilhelm Furtwängler e outras pessoas do mundo artístico, inclusive autores, redactores e cientistas» (p. 148)

«A nossa cozinheira era maravilhosa e já tinha trabalhado para um irmão do imperador Francisco José. Fazia pão que era uma maravilha. Eu gostava de comer e de beber bem. Também apreciava bons charutos. A minha adega era famosa por ter lá vinhos raros das regiões do Reno e de Moselle, para além de alguns licores Chartreuse oriundos dos mosteiros onde eram produzidos originalmente»


«A minha casa em Wannsee foi saqueada pelos russos. Eu tinha uma biblioteca com catorze mil livros. Parte desses livros eram primeiras edições. Tinha uma grande colecção de biografias musicais e uma grande selecção sobre economia e filosofia. Ainda lhe sei dizer onde estava colocado cada livro. A minha casa em Bad Tölz também tinha uma boa biblioteca, mas era mais pequena. A casa foi decorada pela minha mulher. Mobilou-a com peças da Idade Média, incluindo um altar barroco de Würzburg. […] A biblioteca está em ordem e os móveis intactos» (p. 149)

Hermann Goering:
«Sou um capitalista e um cavalheiro culto»

«Quando me rio das provas sobre as atrocidades […] não se deve ao facto de achar isso engraçado mas porque é da minha personalidade rir-me em face da adversidade». Considerou a o extermínio dos judeus  um acto «bárbaro» e que seria condenado como «o maior acto criminoso da história».

Rudolph Hoess:
«Eu era penas o director do programa de extermínio em Auschwitz». Vivia com a sua família numerosa (mulher e cinco filhos) numa casa com jardim nas imediações do campo. O psiquiatra perguntou-lhe se costumava pensar nas execuções e cremação dos corpos. «Não tenho devaneios desses». Revela também que nunca teve pesadelos.

Joachim von Ribbentrop:
«Enquanto fui ministro dos Negócios Estrangeiros, ninguém criticou nada do que eu fazia ou dizia. Agora, de repente, todos estes arguidos acham que são mais inteligentes do que eu».

Marechal Willhelm Keitel:
«Hitler tinha charme, adorava crianças, encantava as mulheres. Em questões políticas, nada o fazia parar. Noutros aspectos, tinha emoções suaves e comoventes»

O livro mais valioso da minha biblioteca

O melhor presente que o Comilão recebeu neste aniversário foi da sua mulher: um livro que andei a catrapiscar durante algum tempo, mas que estava manifestamente fora do meu alcance. Trata-se de um de três volumes da Flora Americana de Johann Zorn (1739-1799), farmacêutico, botânico e ilustrador alemão. O título original da obra é Dreyhundert auserlesene amerikanische Gewächse (Trezentas plantas americanas escolhidas), publicado em Nuremberga em 1787. Contém 100 belíssimas gravuras de plantas das Américas cuidadosamente pintadas à mão.

As imagens falam por si.







terça-feira, 28 de outubro de 2014

Favas no golfe do Jamor

Na passada sexta-feira o Comilão almoçou no simpático restaurante do golfe do Jamor. Primeira nota: fica enquadrado num cenário muito bonito, sobretudo num dia de sol. A simples caminhada até ao restaurante é um prazer. Possui uma esplanada coberta para fumadores e apreciadores de refeições ao ar livre. Mas o Comilão e os seus amigos ficaram no interior, que faz lembrar o do 1.º Direito, em Monsanto.

A ida foi combinada também em função do prato do dia, favas com entrecosto. E valeu a pena. Estavam óptimas, muito tenras e bem confeccionadas, com a carne no ponto, a desprender-se dos ossos com facilidade, e enchidos saborosos. Foi pedido um pouco de arroz branco, bem soltinho, que acompanhou na perfeição. Para entrada há uns bons queijinhos frescos acompanhados por pão de fatia.

O serviço é atencioso.

Em suma: um almoço muito simpático, num lugar onde voltarei com gosto.

PS: Segunda visita ao golfe do Jamor. Pratos do dia: perna de porco assada no forno e pataniscas com arroz de tomate. Tudo bastante bom, sem deslumbrar. Simpatia mantém-se. Boa mousse de chocolate. Preço total de refeição para duas pessoas (com queijo fresco de entrada e mousse de sobremesa): 24 euros.

Aqui fica outra foto, desta feita de um belo arroz de pato, que só pecava pelo excesso de gordura que se acumulou no fundo do prato. De resto, excelente.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Chef

Não, não vou falar de um desses chefs da moda, mas da casa com alguma tradição na Rua Borges Carneiro, à Lapa. Trata-se de uma espécie de casa de chá frequentada por tios e tias que também serve almoços e vende comida para fora. Tem sempre uma boa sopa de legumes, salgados, quiches, bolos e talvez meia dúzia de pratos de carne e peixe. Na mais recente visita havia uma feijoada com óptimo aspecto, bacalhau espiritual e ainda mais qualquer coisa. O Comilão optou pelo rosbife, não extraordinário, mas agradável e em conta, que acompanhou com arroz branco e batata palha. Enfim, desde que se consiga estacionar na zona, o que nem sempre acontece, é uma boa opção para um almoço ligeiro e informal.



Aqui está uma foto do rosbife do Chef já noutra ocasião, que não a mencionada no texto acima, mas sim tirada antes de entrevista a AB, e que no café teve direito a leitura do excelente A Consciência das Palavras, de Elias Canetti

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A melhor pizza que conheço...

... é a do Tavola Calda, em Algés. Mas não resumiria as qualidades deste restaurante às pizzas. O pão, a manteiga de alho e a pasta (tapenade) de azeitonas que vêm como couvert também são óptimos; o serviço é eficiente e, em geral, muito simpático; o espaço agradável, com uma pequena esplanada no exterior onde não se está nada mal.

Mas o ex-libris são de facto as pizzas. Óptima base bem fininha e ingredientes italianos genuínos de grande qualidade. Ultimamente tenho optado pela Norcia, com trufas, e pela La Finestra, com feta e mozarela de búfala. Mas até a Rustica, de fiambre e queijo, é muito saborosa. E existe a possibilidade de optar por uma modalidade interessante, como se poderá ver pelas fotos: uma pizza feita de metades diferentes.

Nota máxima para o Tavola Calda. A localização (bem perto da nova bomba de gasolina da Prio, antiga Cipol), não é muito tentadora, mas parece-me que depois de um arranque titubeante (não pela comida ou serviço prestado, mas pela parca clientela), começa a conquistar cada vez mais fãs - e o Comilão é um deles.

Ambiente moderno (a roçar o futurista, sobretudo a casa de banho), descontraído e children friendly.



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Dispersão

Aceso
Acesso
Avesso
Adverso

Abcesso
Excesso
Recesso
Reverso

E assim me disperso.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Matateu não convenceu

Fica no estádio do Restelo (daí o nome em homenagem ao jogador do clube da cruz de Cristo), mas não é fácil dar com ele. Tem de se entrar com o carro por um portão junto à capelinha e aí dá-se logo pela esplanada, que ocupa parte do parque de estacionamento. As mesas e cadeiras têm o ar de tasca moderna, os individuais de papel imitam (e bem) o grafismo de um jornal desportivo antigo.

A primeira nota negativa foi a sopa: um creme de legumes que sabia demasiado a caldo Knorr. O croquete, na modesta opinião do Comilão, foi talvez o ponto mais alto da refeição. Vinha acompanhado com mostarda inglesa à parte, mas isso é um pormenor, o que importa é a qualidade e o sabor da pasta de carne.

Amêijoas boas em dose pequena - mas não se trata de uma receita propriamente difícil de preparar.

Peixinhos da horta também bons (uma curiosidade, também os havia de courgette), com um molho tipo mexicano para 'dip', como dizem os americanos. Agradável.

O picapau de picanha destacou-se pela negativa: carne esponjosa, como a de alguns restaurantes chineses, muito cheia de nervos e gorduras. Ora, o pica-pau deve ser comido à confiança, só com garfo, pedaços inteiros. Não dá jeito aparar as gorduras ou, pior do que isso, ter de cuspi-las... É pena, porque o molho era saboroso. As batatas fritas (à parte) estavam bem feitas.

Sobremesas abundantes mas - pareceu-me - algo artificiais. Primaram sobretudo pela quantidade, em contraste com as restantes doses.

Resumindo: trata-se de um restaurante simpático, num local algo improvável, com bom marketing, até por ser propriedade do João Manzarra. Honestamente, esperava mais da comida, que se revelou irregular. Houve algumas coisas boas (sem deslumbrar) outras nem tanto.

p.s. o restaurante é servido pelas casas de banho do estádio, a alguns metros. A visita a estas casas de banho obsoletas proporciona uma viagem no tempo.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O monumento a Estaline da capital da Arménia


«No monte fronteiro a Erevan ergue-se um monumento a Stalin. O gigantesco marechal de bronze avista-se de todos os lados. Se um astronauta vindo de um longínquo planeta visse este gigante eráceo, elevando-se por cima da capital arménia, perceberia de imediato que grande e terrível potentado o monumento celebra. Stalin enverga um capote comprido de bronze, tem um boné militar na cabeça, a sua brônzea mão está enfiada sob a lapela do capote. Com as pernas como que em movimento, sugere um passo vagaroso, pesado, regular – a passada do patrão, do soberano do mundo, que não tem pressa. Ergue-se dele uma combinação estranha, aflitiva: aquela expressão de força que só um deus pode possuir, de tão enorme que é; e também uma manifestação do rude poder terreno – de soldadesca, de burocracia.

É claro, este majestoso deus do capote é uma excelente escultura de Merkúrov. Provavelmente, a melhor obra do escultor e, talvez, o melhor trabalho monumental da nossa época. É o monumento a uma época, a de Stalin. Parece que as nuvens tocam a cabeça do líder. A figura de corpo inteiro de Stalin tem 17 metros de altura. A estátua, juntamente com o pedestal, eleva-se a 78 metros do chão. Quando o monumento estava a ser montado e os fragmentos do gigantesco corpo de bronze estavam deitados no chão, os operários passavam, sem encolherem as cabeças, por dentro da perna oca de Stalin.»


Vassili Grossman, Bem Hajam! – Apontamentos de Viagem à Arménia, p. 25-26 , D. Quixote


quinta-feira, 31 de julho de 2014

Vermelho de sangue - o Kremlin

«As paredes desta fortaleza vermelha, construídas com tijolos especialmente endurecidos, foram concebidas para a guerra. Embora sejam tão elegantes que o facto fica dissimulado, também são excepcionalmente espessas – contêm dentro de si um emaranhado de escadas e corredores que dá a sensação de de serem, elas próprias, uma cidade – e, em alguns locais, erguem-se mais de dezoito metros acima do solo que as rodeia. As quatro portas principais são feitas de antigo carvalho russo, mas as suas veneráveis fechaduras de ferro há muito foram substituídas pelos sistemas impiedosos de uma era digital. Ainda hoje, o Kremlin é um complexo militar, chefiado por um ‘comandante’ e o seu labirinto subterrâneo de túneis e salas de controlo foi concebido para sobreviver a um ataque nuclear».

Catherine Merridale
Fortaleza Vermelha - O coração secreto da história da Rússia
Temas e Debates/ Círculo de Leitores
664 páginas

terça-feira, 29 de julho de 2014

Tesouraria

Os tesouros são de ouro.
As tesouras são de prata
e cortam como uma faca.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Jacob Burckhardt, A civilização italiana do Renascimento

Aqui ficam alguns excertos de A civilização italiana do Renascimento, obra do historiador suíço Jacob Burckhardt escrita em 1860 e que terei lido há cerca de dez anos. Ali se encontram passagens memoráveis sobre a violência e a intriga política no Renascimento, sobre os 'jardins zoológicos' privados dos grandes senhores, a maledicência, o nascimento de grandes obras de arte e os estranhos costumes da época. Desde que Burckhardt escreveu a sua obra, o Renascimento nunca mais foi visto como uma época dominada pela paz, a prosperidade e a razão. Um dos meus excertos favoritos, sobre um padre homicida, aparece no final. As traduções são todas da autoria do Comilão (a foto também).


"Em muitos dos seus principais méritos os Florentinos são a matriz e o mais precoce tipo de Italianos e Europeus modernos em geral; também o são em muitos dos seus defeitos. Quando Dante compara a cidade que está sempre a emendar a sua constituição com o homem doente que está continuamente a mudar de postura para escapar à dor, toca com a comparação uma característica permanente da vida política de Florença.

Sob Adriano VI (1521-3), os escassos e tímidos melhoramentos, levados a cabo face à grande Reforma Alemã, vieram demasiado tarde. Ele pouco mais podia fazer do que proclamar o seu horror ao curso que as coisas tinham tomado até aqui, de simonia, nepotismo, prodigalidade, roubo, e libertinagem. O perigo do lado dos Luteranos não era de algum modo o maior; um perspicaz observador de Veneza, Girolamo Negro, revelou os seus receios de que um rápido e terrível desastre iria suceder à própria cidade de Roma.
Sob Clemente VII todo o horizonte de Roma estava preenchido por vapores, como aquele véu pesado com que o sirocco cobriu a Campagna, e que tornou os últimos meses de verão tão mortais. O Papa não era menos detestado em casa do que no estrangeiro. As pessoas sensatas estavam tomadas de ansiedade, eremitas apareceram sobre as ruas e praças de Roma, prenunciando o destino de Itália e do mundo, e chamando o Papa pelo nome de Anticristo; a facção dos Colonna ergueu a sua cabeça desafiadoramente; o indomável Cardeal Pompeo Colonna, cuja mera existência era uma ameaça permanente ao Papado, ousou surpreender a cidade em 1526, esperando, com a ajuda de Carlos V, tornar-se Papa naquele local e naquele momento, logo que Clemente fosse morto ou capturado. Foi pouca sorte para Roma que este conseguisse escapar para o Castel Sant’Angelo, e que o destino para o qual ele próprio estava reservado possa bem ser chamado pior do que a morte.

A instituição então desenvolvida durante os últimos anos de Clemente VII, e sob Paulo III, Paulo IV, e os seus sucessores, em face da defecção de meia Europa, era uma nova, regenerada hierarquia, que evitou todos os grandes e perigosos escândalos dos tempos anteriores, particularmente o nepotismo, com as suas tentativas de alargamento territorial, e que, em aliança com os príncipes Católicos, e impelida por uma jovem força espiritual, encontrou a sua tarefa principal na recuperação do que havia sido perdido. Neste sentido pode dizer-se em perfeita verdade que a salvação moral do papado se deve aos seus inimigos mortais. E agora também a sua posição política, embora sob a tutela de Espanha, se tornava intocável; quase sem esforço herdou, pela extinção dos seus vassalos, a linha legítima dos Este e a Casa dos Della Rovere, os ducados de Ferrara e Urbino. Mas sem a Reforma – se, de facto, é possível concebê-la de fora – todo o estado eclesiástico teria há muito passado para mãos seculares.

Patriotismo
Em conclusão, consideremos brevemente o efeito destas circunstâncias políticas no espírito da nação em conjunto.
É evidente que a incerteza política geral em Itália, no decorrer dos séculos XV e XVI, era de modo a excitar nos melhores espíritos do tempo uma oposição e desgosto patriótico. Dante e Petrarca, nos seus dias, proclamaram alto uma Itália comum, o objecto dos mais altos esforços de todos os seus filhos. Pode objectar-se que este era apenas o entusiasmo de uns poucos homens altamente instruídos, que a massa do povo não partilhava; mas dificilmente pode ter sido de outra forma mesmo na Alemanha, muito embora em nome pelo menos esse país estivesse unido, e reconhecesse no Imperador a cabeça suprema. As primeiras experiências patrióticas da língua Alemã, se excluirmos alguns versos dos Minnesänger, pertencem aos humanistas do tempo de Maximiliano I e depois, e soam como um eco das declamações italianas. E porém, na realidade, a Alemanha era há muito uma nação num sentido mais verdadeiro do que a Itália alguma vez havia sido desde os dias de Roma. França deve a consciência da sua unidade nacional sobretudo aos seus conflitos com os Ingleses, e Espanha nunca logrou absorver definitivamente Portugal, apesar da relação próxima entre estes países. Para Itália, a existência do Estado eclesiástico, e as condições somente sob as quais ele podia continuar, eram um obstáculo permanente à unidade nacional, um obstáculo cuja tentativa sequer de remoção parecia inútil. Quando, portanto, no decurso político do século XV, o nome da pátria comum é enfaticamente mencionado, é-o na maioria dos casos para aborrecer qualquer outro Estado Italiano. Mas estes desgostosos e profundamente sérios apelos ao sentimento nacional não voltaram a ser ouvidos até mais tarde, quando o país estava inundado de Franceses e Espanhóis. O sentido deste patriotismo local pode dizer-se em alguma medida ter tomado o lugar deste sentimento, embora não fosse senão um pobre equivalente dele.

Uma prova significativa do interesse alargado na história natural é encontrada no zelo que se exibiu num período precoce pela colecção e estudo comparativo de plantas e animais. Itália reivindica ter sido o primeiro criador de jardins botânicos, embora possivelmente eles tenham servido um fim eminentemente prático, e a própria reivindicação da prioridade possa ser discutida. É de longe de maior importância que príncipes e homens ricos, ao dispor os seus jardins de recreio, instintivamente tenham feito questão de coleccionar o maior número possível de plantas em todas as suas espécies e variedades. (...) Ao lado de um cuidadoso cultivo de frutos para os propósitos da mesa, encontramos um interesse pela planta em si, na medida do prazer que proporciona ao olho. A história da arte ensina-nos em quão tardio período esta paixão pelas colecções botânicas foi posta de lado, e deu lugar ao que era considerado o estilo pitoresco de jardinagem paisagística.
As colecções, também, de animais estrangeiros não apenas gratificavam a curiosidade, mas serviam os propósitos da observação. A facilidade de transportação dos portos do sul e leste do Mediterrâneo, e a amenidade do clima italiano, fizeram com que fosse praticável comprar os maiores dos animais do sul, ou aceitá-los como presentes dos Sultões. As cidades e príncipes ansiavam especialmente por manter leões vivos, mesmo onde o leão não era, como em Florença, o símbolo do Estado. A caverna dos leões era geralmente dentro ou perto do palácio do governo, como em Perugia e Florença; em Roma, ficava na encosta do Capitólio. As feras por vezes serviam de executoras de julgamentos políticos, e sem dúvida, à parte disto, mantinham vivo um certo terror no imaginário popular. A sua condição era também tomada por presságio de bem ou mal. A sua fertilidade, especialmente, era considerada um sinal de prosperidade pública (...). As crias eram frequentemente oferecidas a estados aliados e príncipes, ou a condottieri como recompensa do seu valor. A juntar aos leões, os Florentinos começaram muito cedo a manter leopardos, para os quais foi nomeado um tratador especial. Borso de Ferrara costumava pôr o seu leão a lutar com touros, ursos e javalis selvagens.
Pelo final do século XV, todavia, verdadeiras instalações destinadas a albergar as colecções de animais (serragli), agora julgadas parte integrante dos equipamentos adequados a uma corte, eram mantidas por muitos dos príncipes. ‘Pertence à posição do magnânimo’, diz Matarazzo, ‘manter cavalos, cães, mulas, falcões, e outros pássaros, bobos da corte, cantores, e animais estrangeiros’. As jaulas de animais em Nápoles, ao tempo de Ferrante, possuíam até uma girafa e uma zebra, presenteados, ao que parece, pelo governador de Bagdade. Filippo Maria Viscontti possuía não apenas cavalos que lhe haviam custado 500 ou 1,000 moedas de ouro cada, e valiosos cães ingleses, mas um número de leopardos trazidos de todas as partes do Leste; a despesa com os seus pássaros de caça, que eram capturados dos países da Europa Setentrional, ascendia a 3,000 moedas de ouro por mês.  O rei D. Manuel o Venturoso de Portugal sabia bem o que estava a fazer quando presenteou Leão X com um rinoceronte e um elefante. Foi sob estas circunstâncias que os fundamentos de uma zoologia e botânica científicas foram assentes. pp. 188-189
(...) O famoso cardeal Ippolito Medici, bastardo de Giuliano, Duque de Nemours, mantinha na sua estranha corte uma tropa de bárbaros que falavam nada menos do que vinte línguas diferentes, e que eram todos eles perfeitos espécimens das suas raças. Entre eles havia incomparáveis voltigeurs do melhor sangue dos Mouros Norte Africanos, arqueiros Tártaros, lutadores Negro, mergulhadores Indianos, e Turcos, que geralmente acompanhavam o cardeal nas suas expedições de caça. p. 190

O mais completo e instrutivo tipo da tirania do século XIV encontra-se sem dúvida entre os Visconti de Milão, desde a morte do arcebispo Giovanni em diante (1354). A aparência familiar que se revela entre Bernabò e o pior dos Imperadores Romanos não concede espaço para erros: o mais importante objecto público era a caça aos javalis do príncipe; quem interferisse com ela era condenado à morte com tortura, as pessoas aterrorizadas eram forçadas a manter 5,000 cães de caça ao javali, com estrita responsabilidade pela sua saúde e segurança. p. 8

Em Giangaleazzo [sobrinho de Bernabò] essa paixão pelo colossal que era comum à maioria dos déspotas revela-se na maior das escalas. Ele empreendeu, com o custo de 300,000 florins de ouro, a construção de diques colossais, para desviar em caso de necessidade o Mincio de Mântua e o Brenta de Pádua, e assim tornar essas cidades desprovidas de defesa. Não é impossível, na verdade, que ele tenha pensado em drenar as lagoas de Veneza. Fundou esse que foi o mais belo de todos os conventos, a Certosa de Pavia, e a catedral de Milão, ‘que excede em beleza e esplendor todas as igrejas da Cristandade’. O palácio em Pavia, que seu pai Galeazzo tinha iniciado e ele próprio concluiu, era provavelmente de longe o mais magnificente dos aposentos principescos da Europa. Para aí transferiu a sua famosa biblioteca, e a grande colecção de relíquias dos santos, na qual depositava uma fé peculiar. pp. 8-9   

Nenhum outro ornamento estava mais em voga do que o cabelo artificial, frequentemente feito de seda branca ou amarela*. A lei denunciava e proibia-a em vão, até que alguns pregadores do arrependimento tocaram as mentes mundanas daqueles que as usavam. Viu-se então, no meio da praça pública, uma pira altíssima (talamo), na qual, para além de alaúdes, caixas de dados, máscaras, amuletos, livros de canções, e outras vaidades, jaziam pilhas de cabelo falso, que as chamas purgativas em breve reduziriam a um monte de cinzas. A cor ideal procurada para cabelo quer natural quer artificial era o loiro. E como se supunha que o sol tivesse o poder de tornar o cabelo desta cor, muitas senhoras passariam o tempo inteiro ao ar livre nos dias de sol. Tinturas e outros preparados eram usados com o mesmo propósito. Para além de todos estes, encontramos uma lista interminável de águas de beleza, gessos, e tintas para cada uma das partes da face – até para os dentes, e pálpebras – os quais não podemos hoje conceber. p. 240
* Pedaços de cabelo verdadeiro eram chamados cappeli morti. Para um exemplo de falsos dentes, feitos em marfim, e usados, embora apenas para efeito de clara articulação, por um prelado italiano, ver [...] [nota 87, p. 373]

Também o uso de perfumes ultrapassou todos os limites do razoável. Eles eram aplicados em tudo com que os seres humanos entravam em contacto. Nos festivais até as mulas eram tratadas com essências e unguentos, e Pietro Aretino agradece a Cosme I por um maço de dinheiro perfumado.
Os italianos desses dias viviam na crença de que eram mais asseados do que outras nações. De facto há razões gerais que falam mais a favor do que contra esta reivindicação. O asseio é indispensável à nossa noção moderna de perfeição social, que se desenvolveu em Itália antes de qualquer outro lado. (...) De qualquer modo é certo que a limpeza e asseio invulgares de alguns distintos representantes do Renascimento, especialmente no seu comportamento às refeições, foi notada expressamente*, e que ‘Alemão’ era o sinónimo em Itália para tudo o que era imundo. p. 241
* O uso de lenços de bolso estava quase generalizado entre as senhoras de Veneza, à aproximação do final do século XVI. [...] o lenço de bolso ou fazzoletto já é mencionado por um escritor Judeu-Italiano do século XIII. [nota 89, p. 373]

No que diz respeito aos assaltos, Itália, especialmente nas províncias mais afortunadas, certamente não era mais, e provavelmente menos, perturbada do que os países do Norte. Mas as figuras que se nos deparam são características do país. Teria sido difícil, por exemplo, encontrar em qualquer outro lado o caso de um padre, gradualmente conduzido pela paixão de excesso em excesso, até por fim se tornar o cabecilha de um bando de salteadores. Essa época oferece-nos este exemplo entre outros. A 12 de Agosto 1495, o padre Don Niccolò de’ Pelegati de Figarolo foi encerrado numa jaula de ferro no exterior da torre de San Giuliano em Ferrara. Ele tinha por duas vezes celebrado a sua primeira missa; da primeira vez tinha no mesmo dia cometido um assassínio, mas posteriormente recebera absolvição de Roma; tinha então morto quatro pessoas e desposado duas mulheres, com quem viajou. Posteriormente tomou parte em vários assassinatos, violou mulheres, arrastou outras à força, pilhou por toda a parte, e infestou o território de Ferrara com um bando de seguidores em uniforme, extorquindo comida e abrigo por toda a espécie de violência. Quando pensamos no que tudo isto implica, a massa de culpa na cabeça deste único homem é algo de tremendo. O clero e monges tinham muitos privilégios e pouca fiscalização, e entre eles havia sem dúvida muitos assassinos e outros malfeitores – mas dificilmente um segundo Pelegati." pp. 292-293.

Jacob Burckhardt
The Civilization of the Renaissance in Italy
Phaidon
506 págs.
5 estrelas

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Giuseppe Tomasi di Lampedusa por Edmund White (da NYRB)


"O sempre encantador e por conseguinte elegante Gioacchino Lanza Tomasi, que costumava liderar o Instituto Cultural Italiano na Universidade de Nova Iorque, convidou-me a ver a biblioteca de Lampedusa. Gioacchino conheceu Giuseppe Tomasi, o 11.º Príncipe de Lampedusa, quando era um adolescente, e o velho príncipe sem filhos acabou por adoptá-lo. O palácio ergue-se num terraço coberto de flores e à sombra de palmeiras, que dá para o porto de Palermo. No interior há vastos salões, iluminados por lustres venezianos; um deles contém a biblioteca astronómica do antepassado do século XIX que serviu de modelo a O Leopardo, o romance clássico de Lampedusa, publicado em 1958, sobre o declínio da aristocracia siciliana no final do século XIX. Noutra sala há livros em várias línguas (sobretudo italiano, francês e inglês) que Lampedusa lia vezes sem conta. «Ele não tinha muitos livros», diz Gioacchino. «Apenas uns seis mil, mas conhecia-os bem. Um pouco como Montaigne»

Lampedusa era casado com uma baronesa do Báltico, Licy, que tinha o seu próprio castelo, Stomersee, em Riga. Durante a década de 1930 o príncipe e a princesa raramente estavam juntos, por isso trocaram centenas de cartas, as quais Gioacchino está agora a preparar lentamente para publicação. Também elas estão escritas em italiano, francês e alemão e falam longamente sobre as suas doenças reais e sobretudo imaginárias e os seus adorados cães. As invasões alemã e depois russa da Letónia obrigaram-na a mudar-se para Roma e depois para a Sicília, onde exerceu psicanálise com a pequena nobreza local. Ela tinha horárias completamente diferentes dos do marido, que gostava de acordar cedo. Licy acordava por volta das onze e preparava-se para um longo dia de tratamentos aos pacientes.

À noite ela e o príncipe iam ao cinema, ou ouviam gravações de Wagner, ou comiam uma das estranhas refeições dela. A princesa sentia tanta falta dos seus arenques com natas que marinava os arenques secos locais em leite por vários dias até começarem a borbulhar, o que a mantinha num estado constante de diarreia. O príncipe refugiava-se nos seus cafés de eleição, onde podia comer uma refeição decente e encontrar os seus amigos jovens e cultos e trabalhar, durante os três últimos anos de vida, n'O Leopardo. Aos jovens ele dava palestras sobre literatura que mais tarde seriam publicadas; também publicou histórias e livros sobre Stendhal e a liteartura do francesa do renascimento. Finalmente tinha conseguido escapar à preguiça do Sul.

Infelizmente não viveu o suficiente para ver o seu livro publicado, o único fruto importante de uma vida inteira de leituras e conversas. O seu palácio está cheio de objectos que lembram o livro - o telescópio no terraço e as pinturas de antepassados por toda a parte, incluindo um grupo de santos da família! Sim, vários membros desta família eram santos, ou pelo menos beatos, incluindo uma piedosa senhora de aspecto doente chamada Maria Crocifissa. Outra recordação do livro é o próprio Gioacchino, que serviu de modelo para a aparência e désinvolture do jovem herói, o atrevido Tancredi."

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Come-se bem no Faustino

Eu ia jurar que já tinha aqui dedicado um post ao restaurante/marisqueira Faustino, em Paço d'Arcos, mas não o encontro. Pois bem, o Faustino é um restaurante popular no bom sentido, com uma cozinha tradicional consistente e matérias-primas de qualidade. O pior mesmo é lá chegar, pelo que deixo aqui um mapazinho. O trajecto para quem vem da rotunda da fonte perto do Oeiras Parque (A5, saída Oeiras) está marcado a cor de rosa. Fica no rés-do-chão de uma correnteza de prédios de habitação.


Vamos à comida. O polvo assado à lagareiro, tenríssimo e saboroso, é um must (a meia dose corresponde a uma dose normal noutro restaurante). Também há sempre bom bacalhau, que pode igualmente ser à lagareiro, e peixe fresco da costa. Nas carnes, na última visita comemos a posta de vitela mirandesa que estava muito boa. Já as sobremesas penso que não são o forte desta casa (a mousse de maracujá é boa, mas sem deslumbrar).

a posta mirandesa (a foto pode dar a impressão de um restaurante 'típico'. Não é o caso. Trata-se de um restaurante com comida tradicional, mas o ambiente é moderno, arejado e cuidado

O almoço para três ficou a 35 euros, um preço muito simpático. Atenção que o pratinho de paio de porco preto das entradas foi para trás (isso encarece logo). Atendimento eficiente e simpático.

O Comilão recomenda uma visita ao Faustino (4 estrelas)

p.s. 1 Uma nota para os aficionados: tem várias televisões ligadas no futebol.
p.s. 2 Na refeição anterior no Faustino tinha comido uma bela sopa de cozido e um arroz de pato bem apaladado que sobrou (as doses são generosas)

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Pescada com coentros

Eis um prato muito fácil, rápido e que resulta bem (a receita é minha):

Compra-se medalhões de pescada congelados. Cozem-se. À parte faz-se um molho com alho esmagado, béchamel e coentros frescos picados. Põe-se os medalhões cozidos numa travessa de pirex, cobrem-se com um molho e, se se gostar, com queijo para gratinar. Fica no forno cerca de 15-20 minutos, até o molho ficar mais ou menos dourado. E voilà! Fica assim com este aspecto bonito. Acompanhou com salada e puré, mas o acompanhamento fica ao critério de cada qual. No meu caso o molho tinha também tiras de pimento encarnado que ligaram bem (o pimento, nesse caso, é a primeira coisa a ir para a frigideira, juntamente com o alho e um fio de azeite).

segunda-feira, 31 de março de 2014

Comida portuguesa para visitantes brasileiros 2 - o 'triângulo' da Almirante Reis

A avenida Almirante Reis não é das que têm melhor fama, mas conta com três restaurantes que gostaria de referir. Além disso, no Intendente, um largo onde antigamente havia toxicodependentes a chutar na veia à vista de todos (algumas prostitutas mantêm-se), fica uma loja que vale a pena visitar, a Vida Portuguesa, na antiga fábrica de Azulejos da Viúva Lamego (que tem uma fachada de azulejo muito bonita que dá para a Almirante Reis).

O Almirante que dá nome à via foi um mártir da implantação da República, em 1910. Ao pensar que a revolução tinha falhado (por não ter sido dado, como combinado, um sinal que anunciava o triunfo), apontou uma pistola à cabeça e suicidou-se numa vala daquela zona.

No n.º 1 da avenida fica o Ramiro, um ponto obrigatório para os aficionados de marisco. Ali há tudo o que a nossa costa dá: percebes, cavacos, lagostins, lagosta, sapateira, vários tipos de camarão (do mais pequeno, chamado de Espinho, ao maior, tigre ou Jumbo), carabineiros, búzios, amêijoas, lapas, ostras, etc. Tudo fresco e a preços razoáveis. Além disso tem um prego delicioso, no pão ou no prato, mas creio que não traz acompanhamento. É só a carne, pão e nada mais. Em certas alturas (sobretudo nas noites quentes de Verão), o Ramiro tem filas de espera à porta. O melhor é ir cedo, seja ao almoço ou ao jantar.

Mais adiante (atenção que a avenida é muito longa, e não tem interesse percorrê-la a pé), no n.º 205, fica o Café Império, onde se come um tradicional bife à café. O molho do império é, quanto a mim, dos melhores de Lisboa, e o café é um óptimo exemplo da arquitectura do Estado Novo. Foi renovado há não muito tempo.

Ainda mais acima, fica a cervejaria Portugália, um espaço monumental (pelo menos para a nossa escala), com mobiliário de época e ambiente de inspiração medieval.

Os portugueses adoram falar mal e criticar, mas penso que qualquer estrangeiro que venha a Lisboa gostará de visitar esta enorme cervejaria, normalmente com grande movimento. Tem bom marisco, bons croquetes, casco de sapateira, bons bifes (com molho de manteiga 'à Portugália' ou, para quem preferir, grelhado), e ainda outras opções. Mas creio que o grande trunfo é mesmo o ambiente. Ao longo dos anos, a Portugália tornou-se um franchise, com vários restaurantes espalhados por aí, e até em centros comerciais. Esta é a casa-mãe e creio que não desilude. Também tem balcão.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Lapsus linguae (disparates)

O tipo era verdadeiramente louco por carros. O sonho dele era conduzir um Ferrari Cascagrossa.

-Porque é que nunca usas sabonete?
- Prefiro gel de ranho.

Dizia a empregada doméstica do aristocrata forreta:
'É nobre e mal agradecido!’

A Porsche acaba de lançar um novo modelo que vai deixar os amantes das quatro rodas de queixo caído: o Porsche Cabrera.

O fulaninho achava-se um grande entendido em música erudita. ‘Sim, porque eu tenho todos os cds da Orquestra Filantrópica de Berlim!’.

A Magia do Natal, o novo filme da Disney, já está disponível em DVD e Bolo-ray

Apesar das origens humildes, ela tinha chegado bem alto na escala social. E não saía de casa sem despejar meio frasco de perfume: ‘Chinelo n.º 5’, dizia convicta.

O hipogeu e queda do império romano

Nome da companhia de aviação espanhola: Sibéria

- Para que curso é que o teu filho quer entrar?
- Não sei, ele ainda não realizou os testes pirotécnicos.

Durante a fuga do Egipto, ao ver-se num beco sem saída, Moisés cravou o seu cajado no Mar Vermelho e gritou:
- Águacadabra!

Ela foi condenada a três anos de prisão perpétua

Primo Levi foi um dos sobreviventes do Holocáustico

Gostava muito de visitar a a Albânia de Leste e a Arménia Latina

Nome da televisão nacional da Macedónia - Teleskopje

História da Arte era com ele. Conhecia todos os grandes mestres da pintura: Leopardo da Vinci, Albrecht Führer, Scaravaggio, Claude Bonet, Van Grogue e Pablo Ricaço

Grazie Mille
Muito Obrigado
Willen Danke
Merci Beacoup
Fuck You

Era uma pessoa muito desconfiada. Atravessava sempre a estrada na passagem de espiões

Era uma pessoa tão íntegra que, quando terminou o curso de Medicina, recusou-se a fazer o Juramento de Hipócritas

Sabem qual é a maior cidade da Califórnia? Los Ângulos!

Ele é um cavalheiro, na verdadeira excepção da palavra

Depois de uma consulta ao médico dos ossos, a velha beata voltou à Igreja e guardou o saco das hóstias num lugar mais seco.
- O que está a fazer?, perguntou-lhe o diácono.
- O médico disse que eu tinha hóstia porosa.

- Não gostas destes sapatos?, pergunta a mãe ao filho.
- Não, mãe. Gosto mais dos Roquefort.

- Gostaste do fim de ano?
- Sim, adorei os fogos-de-sacrifício!

Enquanto os outros miúdos se despiram e foram tomar banho na lagoa, ele ficou em terra atrapalhado. Acabou por entrar na água com as cuecas vestidas. Tinha pudor em mostrar as partes ínfimas

Ele era um verdadeiro gourmet. Temperava sempre a salada com vinagre balcânico

Quando lhe perguntaram qual o seu museu favorito, respondeu prontamente:
- O Vernissage, em São Petersburgo!

- Que bem que o teu filho fica nas fotografias!
- Já me disseram que ele é muito foto higiénico…

Era tão teatral, tão teatral que chegava ao restaurante e pedia sem hesitar: ‘Uma Homlet de gambas’

Ele era muito dado à melancolia. Costumava dizer que tinha nascido sob os maus hospícios do planeta Soturno

- Então, diz uma mulher para a amiga, a tua filha separou-se?
- É verdade. O marido andava sempre a atraí-la com outras mulheres.

- O que fazia o teu sogro antes de se reformar?
- Trabalhava numa unidade febril de produção de termómetros.

- Estou tramado, disse o tipo com a mania das doenças depois de uma consulta.
- Porquê?, perguntou-lhe o amigo.
- O médico disse que eu era hipocardíaco.

- Sabes da última? O Governo da Guatemala caiu!
- A sério? Como foi isso?
- Fizeram um golpe detestado.

Se não fosse a propaganda, Hitler nunca teria acendido ao poder

Permiti que se ganhasse o euromilhões dava metade do dinheiro aos pobres

Iana é a capital do Sémen

Quem é que os casou?
- Acho que foi o padre Vítor Delícias

- Continuas com o nariz entupido?
- Não. O médico receitou-me um soro filosófico

Canetas de velcro

Portugal vive um momento crítico. Todos devem ir votar nas próximas eleições providenciais

- Cheiras tão bem. Que perfume é esse?
- Água de Polónia

E, quando a guerra terminou, lançaram-se por toda a Europa fogos-de-armistício

- Mãe, porque é que a nossa vizinha está sempre aos gritos?
- Sabes, filha, ela é um bocado esférica...

Era um homem tão frouxo, tão frouxo, que até os filhos lhe chamavam 'painhonha'

Ele tinha lido todos os livros de Paul Oyster, do Marquês de Sartre e de Garcia Lorpa

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Ele não teve uma vida fácil, mas conseguiu soprar os obstáculos que lhe surgiram no caminho

Traduções infames
Porc-épic (fr.) – porco épico
My elder brother – O meu irmão Hélder
Platoon - Platão
O sol da manhã – The mourning son
Record shop – Loja de recordações
Charlie Chaplin - Carlos Chapelinho
Reality show - espetáculo da realeza

Nós e eles: Portugal contra o resto do mundo
Eles têm   Nós temos
Moscovo – Moscavide
Munique – Manique
Bruxelas – (só) Chelas
Barcelona – Barcelos
Londres – Loures
Phoenix – Peniche
Chandigarh – Xabregas
Marbella – Marvila
Ramallah – Ranholas
Antilhas – Cacilhas
Perpignan - Pêro Pinheiro
Chantilly - Santa Iria
Bocaccio - Bocage
Montefiore - Moita-Flores
T-bone - tiborna