terça-feira, 3 de maio de 2022

A dama do nariz grande

Era primavera, a natureza parecia em festa. Um cavalheiro cujo nome não foi retido pelas crónicas não se cansava de apreciar o belo espetáculo oferecido pelos arbustos floridos em Holland Park.

- Vejam bem estas camélias! Seria preciso a pena de um Dumas para lhe fazer justiça! Ou o pincel de um pintor de génio...

A dois passos de distância, uma jovem senhora acompanhava a digressão do homem sobre as virtudes das plantas. Porém sem entusiasmo. Tratava-se de Lady N., famosa pelo magnífico apêndice nasal com que a Providência a brindara. A sua postura era recatada, como sempre, mas nem todo o recato do mundo era o suficiente para disfarçar a indiscreta protuberância.

- O aroma deste jasmim - divino! - é de levar uma pessoa às lágrimas... - continuava o homem. - Por favor, veja por si.

E desviou-se para dar passagem à senhora.

- Infelizmente não tenho olfacto - respondeu ela.

O seu apurado sentido de cavalheirismo levou-o a tentar reparar o agravo de imediato.

- Ó minha senhora, não imagina como lamento desperdício tamanho.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Um poema de Ricardo Reis

«Sou um evadido,
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte.
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu, é não ser.
Eu vivo fugido
Mas vivo a valer.»

Ricardo Reis, 5-4-1931

in Fernando Pessoa, Sobre a Heteronímia, Assírio & Alvim


Uma página do diário de Susan Sontag (Reborn)

 


quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Sandes de cozido

Vejam a sandes de cozido do Mercado de Torres Vedras e digam lá se não é uma maravilha... 



segunda-feira, 25 de outubro de 2021

KL. Apontamentos

Fui buscar à estante o magistral KL: a história dos campos de concentração nazis, de Nikolaus Wachsmann. Deixo alguns apontamentos apanhados um pouco ao acaso que me impressionaram tanto hoje como na altura em que o li.

«Durante semanas, no outono de 1942, os SS obrigaram os presos do Sonderkommando a desenterrarem todos os cadáveres enterrados em Birkenau; trabalharam dia e noite, com as mãos nuas, e (segundo uma estimativa de Rudolf Höss) desenterraram mais de 100 mil cadáveres. Um dos presos do Sonderkommando, Erko Hejblum, descreveu posteriormente a sua tarefa: «Andávamos num mar de lama e corpos putrefactos. Deveríamos ter estado equipados com máscaras de gás. Os cadáveres pareciam subir para a superfície - era como se a própria terra estivesse a rejeitá-los». Muitos dos presos do Sonderkommando não conseguiram suportar o pesadelo.» p. 326

«O departamento de contrafacção de Sachsenhausen passou gradulamente de 29 para mais de 140 judeus. A maioria deles chegou de Auchwitz. Um deles, Adolf Burger, sentiu-se «como se tivesse vindo do inferno para o céu». Os presos não eram espancados, tinham comida suficiente, trabalhavam em salas aquecidas, tinham tempo para ler, jogar às cartas e ouvir rádio, e dormiam em camas verdadeiras. A sua tarefa principal era falsificar moeda britânica (as tentativas para copiar dólares americanos nunca passaram da fase experimental). Os presos estimaram posteriormente que tinham produzido notas de banco no valor de 134 milhões de libras. O RSHA só considerou uma fração suficientemente boa para adquirir ouro e bens estrangeiros e para pagar a espiões; uma parte das notas restantes foi largada de avião sobre Inglaterra para desestabilizar a moeda. [...] No fim, graças a uma série de acasos felizes, os presos sobreviveram aos KL. O produto do seu trabalho, que acabou por lhes salvar a vida, também sobreviveu, dado que muitas das notas falsificadas permaneceram anos em circulação.» p. 345

«Alguns formulários chegavam a ter vinte páginas e os reclusos amanuenses dactilografavam dia e noite para dar vazão à papelada. Por seu lado, os médicos SS de Auschwitz queixavam-se de cãibras nas mãos por causa de assinarem tantas certidões de óbito; para facilitar a coisa, encomendaram carimbos com as suas assinaturas.» p. 350

«A partir de 1940, em conformidade com uma ordem de Hitler, reclusos especialmente seleccionados nos KL e nas prisões foram obrigados a despoletar bombas aliadas não detonadas; muitos homens foram pelos ares à frente dos seus camaradas aterrorizados.» p. 416




quarta-feira, 20 de outubro de 2021

As Últimas Horas de Pompeia

As Últimas Horas de Pompeia: Parte de Pompeia permanece ainda oculta. Em junho de 2018 teve início uma nova missão científica, a primeira a esta escala nos últimos 70 anos.

Magnífico documentário em duas partes que passou na RTP 2 e ainda está disponível em RTP Play.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Mais um disparate pegado

Num futuro não muito longínquo, se (de acordo com as regras do acordo ortográfico) as subtilezas passarem a sutilezas e a óptica a ótica, chegará o dia em que...

... os pintores embeberão os seus pincéis em pimentos.

... os suspeitos irão a tribunal para serem jugados.

... e haverá organizações criminosas especializadas em ratos.