Ravel queixava-se de que os pianistas tocavam a sua famosa Pavanne pour une enfante défunte demasiado lentamente:
«É uma pavana para uma infanta defunta, não é uma pavana defunta para uma infanta».
A peça é de 1899.
blogue sobre os prazeres castos da mesa e da leitura
Ravel queixava-se de que os pianistas tocavam a sua famosa Pavanne pour une enfante défunte demasiado lentamente:
«É uma pavana para uma infanta defunta, não é uma pavana defunta para uma infanta».
A peça é de 1899.
Grande especialista em assuntos nipónicos, sabia tudo sobre Hiroshige e Nagasáqui
Existe um rol de anedotas ácidas dos tempos da URSS - embora se conte que houve quem chegasse a ser mandado para o gulag não sei quantos anos por ser apanhado a dizer uma piada sobre Estaline.
Há dias no Quora encontrei uma que era mais ou menos assim:
Numa noite de 1943, depois da hora de fecho dos bares, um homem gritava a plenos pulmões nas ruas de Moscovo:
- Morte ao ditador! Morte ao ditador!
Por coincidência, estava a passar por ali Lavrentiy Pavlovich Beria, o sanguinário comissário do NKVD, a polícia secreta soviética. O homem estava tão bêbedo que Beria não teve dificuldade em dominá-lo e algemá-lo.
No dia seguinte, Beria levou-o à presença de Estaline.
- Repete ao camarada Estaline o que eu te ouvi dizer ontem à noite.
O homem repetiu:
- Morte ao ditador!
Beria já se via a executá-lo com as suas próprias mãos.
- Tens alguma coisa a alegar em tua defesa?
- Como assim? Não percebo - respondeu o homem. - Morte ao ditador, morte a Hitler!
Estaline virou-se lentamente para o comissário:
- Camarada Lavrentiy Pavlovich, estava a pensar em quem?
«O sol deslocara-se no céu e as imensas janelas do Ministério da Verdade, agora que a luz já não incidia sobre elas, pareciam lúgubres seteiras de uma fortaleza. O coração de Winston estremeceu ante a enorme forma piramidal. Era demasiado sólida, era impossível ser abalada. Nem mil mísseis poderiam derrubá-la. Interrogou-se de novo sobre para quem estaria a escrever o diário. E diante de si não havia morte, mas sim aniquilação. O diário ficaria reduzido cinzas e ele próprio a vapor. Só a Polícia do Pensamento leria o que ele escrevera antes de o varrer da existência e da memória. Como se poderia apelar ao futuro quando era impossível que qualquer vestígio nosso, mesmo uma palavra anónima escrevinhada num bocado de papel, pudesse sobreviver fisicamente?
[...]
Era um fantasma solitário que murmurava uma verdade que ninguém ouviria. Mas, enquanto ele a murmurasse, de algum modo obscuro a continuidade não seria quebrada. Não era por se fazer ouvir, mas sim por se manter mentalmente sã que uma pessoa prolongava a herança humana.»
Anna Nerkagi, escritora nenetse e defensora dos direitos dos nativos, in Sophy Roberts, Os pianos perdidos da Sibéria, p. 213
«Em 1986, o lendário pianista soviético Sviatoslav Richter pegou num pedaço de cartão com o mapa da URSS e, com um marcador azul escuro, desenheu uma estrada através da Sibéria, preenchendo os nomes de todos os locais que queria visitar. Enfiou o mapa na sua mala e partiu para atingir o seu objetivo - uma viagem de Moscovo ao Pacífico, e volta, deslocandose em parte por estrada e em parte de comboio, parando amiúde para realizar recitais de piano. Nesta digressão épica, foi acompanhado pela sua amiga filóloga e escritora Valentina Chemberdzhi que, subsquentemente, publicou as suas recordações da viagem.
Richter tinha conhecimento das intensas digressões pelos estrangeiro feitas por Franz Liszt - e a comparação é esclarecedora. Os dois homens suportaram estradas infernais cheias de buracos para chegarem os locais onde queriam tocar. Também tiveram ambos de se remediar que os instrumentos que lhes punham à frente, Liszt a tocar no chocalhante Tompkinson vertical na sala de um hotel irlandês e Richter em todo o tipo de equivalentes soviéticos nas pequenas cidades espalhadas pela Sibéria. Ao contrário do que afirma um mito popular, Richter não levou consigo o seu Yamaha preferido («é difícil imaginar um piano de cauda num yurt ou na taiga!», comentou Valentina Chemberdzhi). «Na Rússia profunda, nem sempre tive esses instrumentos excelentes - nada disso, mas não atenção», disse Richter. «De qualquer modo houve alturas em que toquei em pianos horríveis, e toquei extremamente bem.»
Richter, que odiava voar, visitou Khabarovsk, Chita (onde procurou os pianos dos Dezembristas e não conseguiu encontrá-los), Ulan-Ude, Irkutsk, Krasnoiarsk e Burnaul, bem como inúmeras povoações pelo meio. E Abakan, nas margens do rio Ienissei, um artigo local descreveu o frenesi suscitado por Richter: pela primeira vez, os siberianos podiam ouvi-lo a tocar ao vivo. Entre os palcos, contaram-se escolas de música e salas de concerto locais. Os programas de Richter - mesmo os garatujados em folhas de papel e afixados pouco antes do espetáculo - esgotavam sempre rapidamente a lotação das salas, por vezes em menos de 30 minutos. «A sala ficava cheia só por as pessoas passarem informação de boca em boca. Isto não acontece não ocidente», comentou uma vez. Com Richter, a simplicidade era o que estava em causa. Gostava de tocar às escuras para o público se concentrar na música e não no intérprete. «A única coisa que importa é que as pessoas não venham por snobismo, mas sim para ouvirem a música», afirmou. Lendo o relato de Valentina Chemberdzhi, parece que o público siberiano de Richter compreendeu: as suas descrições animadas revelam o gosto genuíno das pessoas por uma arte musical ao vivo, que fora precisamente como Denis Matsuev me descrevera a Sibéria no início da minha investigação.»
Sophy Roberts, Os pianos perdidos da Sibéria, pp. 281-282
«A perceção absolutamente silenciosa assemelha-se a uma imagem fotográfica com um tempo de exposição muito grande. A fotografia do Boulevard du Temple de Daguerre apresenta na realidade uma rua parisiense muito movimentada. Contudo, devido ao tempo de exposição extremamente longo, típico do daguerreótipo, tudo o que se move desaparece. Só é visível o que permanece parado. O Boulevard du Temple irradia uma calma quase aldeã», em que todo o ruído está proscrito. «Além dos edifícios e das árvores, apenas se vê uma figura humana, um homem a quem limpam os sapatos, e por isso está parado.» Apenas o longo e o lento se tornam realidade. «Tudo o que se apressa», tudo o que tem pressa – e todos nós temos pressa –, «está condenado a desaparecer. O Boulevard du Temple pode ser interpretado como um mundo visto através de um olho divino. Ao seu olhar redentor apenas aparecem os que permanecem em silêncio contemplativo [ou a engraxar os sapatos, acrescento eu]. É o silêncio o que redime.»
[VARIAÇÕES GOLDBERG, BWV 988, VAR. 25 E 21] Byung-Chul Han, A tonalidade do
pensamento, p. 49 (ed. Crítica)
«Se os vulcões pouco mudam de lugar, a sua lava percorre o grande vazio do mundo trazendo-lhes virtudes que cantam nas suas feridas».