sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Holanda no tempo de Rembrandt

Rembrandt van Rijn, o grande pintor holandês, viveu entre 1609 e 1669 (ano em que foi inventado um sistema de iluminação pública eficaz), um período que praticamente coincide com o século de ouro. É esse século que este livro pretende descrever e caracterizar, através dos espaços (públicos e privados), dos costumes e dos personagens. O resultado é uma história próxima, atenta aos detalhes e pintada com realismo, como a pintura da época.

Aqui ficam alguns excertos saborosos:

«No começo do século XVII o solo da maioria das cidades ainda era de argila ou areia , mas as municipalidades começam a pavimentar a praça principal e as ruas mais importantes que lhe dão acesso: procuram assim favorecer o tráfico comercial»

«Encontram-se ainda ruas não calçadas, verdadeiras cloacas; sobretudo nos bairros velhos e pobres com casas de madeira de tipo medieval [...] que ficam tão próximas no topo que de uma a outra é possível um aperto de mão»

«Já não se construía se não em tijolo, um arenito claro serve comumeente para a ornamentação das fachadas»

«O clima exerce uma acção corrosva tão rápida que é comum alcatroar o exterior das paredes; com isso a cidade ganha uma tonalidade sombria»

«A igreja protestante não é um lugar santo no sentido em que a entendiam os católicos. Nelas se passeava-se quando fazia mau tempo. Ali se faziam assembleias , davam-se concertos»

Os guardas nocturnos e os polícias não gozavam de boa reputação. As diligências usavam velas para aproveitar o vento

»Nas moradias burguesas a cozinha foi promovida a uma dignidade fabulosa e tem algo de templo e de museu»

«Há quase um século utilizam-se facas de mesa. O uso de colher é mais raro. Na casa de muitos pequenos burgueses são consideradas jóias [...] come-se com os dedos e a faca. O garfo só aparecerá por volta de 1700, e por muito tempo será um luxo. Desse modo não se pode dispensar o guardanapo»

«Só os muito pobres, ou alguns camponeses, ainda utilizam, segundo a tradição medieval, uma baixela de madeira» 90

«A batata, introduzida na colecção botânica de Leiden por Clusius a partir do final do século XVI, era tida como venenosa; ricos amadores a cultivavam em seus jardins, assim como o tomate, a título de planta ornamental» 96

«o consumo nacional de cerveja é enorme» 97

«Passadas as dez horas, só ficam nas ruas os guarda nocturnos, os malfeitores em seus cantos escuros e alguns debochados mais ou menos clandestinos» 107

«Os pregadores condenavam até o costume dos passeios no campo [ao domingo] [...]. Desse modo, o domingo é sinistro» 112

«Junto da mãe em trabalho de parto cuida-se para que as velas tenham uma chama azul, sinal de que nenhum mau espírito ronda as cercanias. Logo se enterrá no pátio a placenta»122

Golius «passou três anos no império otomano e de lá trouxe a mais importante colecção de manuscritos orientais na Europa»145

Paul Zumthor
A Holanda no Tempo de Rembrandt
Colecção A Vida Cotidiana
Companhia das Letras (Brasil)
4 estrelas

quarta-feira, 21 de março de 2012

Peixe na Linha





No passado sábado o Comilão e família foram almoçar ao Peixe na Linha, entre a Parede e S. Pedro do Estoril. O restaurante fica mesmo em cima da praia (acede-se por uma escada íngreme) e, nas mesas junto à janela, como aquela onde nos sentaram, dá para ver, nos dias favoráveis (como foi o caso) os surfistas nas ondas. Um bonito espectáculo.
A comida também é um regalo, sobretudo o peixe grelhado. O Comilão e a sua mulher e filho comeram robalo grelhado que só pecou pela falta de batatas (duas pequeninas). O feijão verde salteado com azeite e alho estava particularmente bom. O vinho foi um Monte da Ravasqueira Rosé (regular). Para sobremesa houve, mais uma vez, tarte de limão merengada (excelente). A comida é boa e o ambiente também. Simples mas cuidado, com algum requinte mas sem pretensões, limpo e luminoso. Ou seja, quer se olhe para dentro quer se olhe para fora os olhos vão-se deparar com um cenário bonito. Serviço eficiente e simpático.

Peixe na Linha
Praia da Bafureira, S. Pedro do Estoril
tel.: 21 468 53 88
Preço da refeição para quatro pessoas: 140€
Grau de satisfação: 3,5 estrelas (tendo em consideração o preço elevado)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Marisqueira Nunes, Pedrouços

Este foi um fim-de-semana de luxo para o Comilão & companhia. Na sexta-feira houve jantar no Nunes Real Marisqueira, em Pedrouços (para quem nunca ouviu falar, o suplemento Tentações, da revista Sábado, considerou o seu um dos dez melhores bifes de Lisboa). Trata-se de uma marisqueira vulgar, mas com produtos de qualidade, a começar pelo pratinho presunto de Pata Negra (12€) servido com o couvert. Os preços, naturalmente ressentem-se. O Comilão e sua mulher começaram pelas amêijoas, frescas mas no meu entender demasiado grandes e com pouco paladar (falta de sal e, sobretudo, de alho). Ao mesmo tempo vieram umas gambas al ajillo, essas sim de categoria. Para rematar uns secretos de porco preto belota, muito bons, que apenas pecavam pela pouca quantidade e escassez de acompanhamento (que se resumia às batatas fritas). E, por fim, uma tarte de limão merengada, muito boa.

Nunes Real Marisqueira
Rua Bartolomeu Dias, 120
tel.: 21 301 98 99
55 euros, duas pessoas (sem presunto nem cafés)
3,5 estrelas
veredicto: boas matérias-primas, bom serviço, pratica preços um pouco excessivos

quarta-feira, 7 de março de 2012

Bife da vazia no Piazza

No passado domingo o Comilão foi almoçar com a família e os pais. A primeira escolha era a esplanada italiana do Espelho d'Água, em Belém, mas estava cheia. Assim, optámos por outra esplanada, a do Piazza di Mare (antigo Spazio Evasione), que agora está coberta, o que faz algum efeito estufa. O Comilão tinha-se decidido por uma lasanha ou qualquer coisa do género, mas depois viu passar para outra mesa algo que lhe pareceu um bife com óptimo aspecto e mudou de ideias. E ainda bem. O bife estava magnífico, no ponto, com as bonitas marcas paralelas da grelha, suculento (não tão tenro, mas face às outras qualidades não teve importância) e muito saboroso. Acompanha com uma também óptima batata assada e tomate assado (bom). Enfim, uma refeição magnífica, finalizada com uma delícia de panacotta com molho de alperce (razoável, já se sabe que a panacotta não sabe a nada). Tudo foi regado com um Mateus Rosé. Serviço bastante simpático. Os outros convivas comeram fetuccine com cogumelos (mediano=), robalo grelhado (enrolado, sem espinhas, 22€) e lasanha bolonhesa. O ambiente estava demasiado quente, o que não foi desagradável. A esplanada tem o problema do preço (130 euros refeição para quatro pessoas e meia).

4 estrelas

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Duas refeições no Algarve

O Comilão e sua família passaram os últimos dias no Algarve. Em casa cozinharam-se: bifes com natas e cogumelos (bons), lombos de bacalhau no carvão (além despegá-los da grelha ser uma tarefa penosa, não estavam memoráveis) e esparguete com molho de tomate, farinheira frita e ovos mexidos com pimento, cebola e os cogumelos que tinham sobrado (foi comer até não poder mais). Nestas mini-férias também houve refeições fora. A primeira no restaurante Noélia e Jerónimo, em Cabanas de Tavira. Para entrada vieram umas gambas fritas muito boas (noutra ocasião havíamos pedido uma salada com gambas e manga que não ficava atrás), depois filetes de peixe-galo com arroz de coentros, também muito bem fritos os filetes e óptimo o arroz, e ainda umas costeletinhas de borrego com migas de espargos. A própria Noélia tinha vindo à mesa dizer que não sabia se ainda tinha espargos, mas afinal as migas vieram bem recheadas. Confessou-nos depois ter ido a casa buscar os que lá tinha. As costeletas também estavam boas, embora não fossem muitas. Por fim o tiramisu da casa com café e leite creme, muito agradável.

Já no domingo decidimos experimentar o Zé Maria, em Tavira, que se auto-intitula o rei dos grelhados. Como aperitivo vieram umas tiras de lula grelhadas, com azeite e cebola picada, fresquíssimas. Depois uma travessa cheia de peixe, também grelhado: salmonete, meio robalinho e outros peixes que o Comilão não sabe nomear, no total de uma boa meia-dúzia. Acompanha com salada, batata cozida e uma espécie de torricado (estava muito saboroso, mas foi pena o pão estar duro). Por fim ainda veio uma travessa com umas quatro costeletas do fundo (porco), bem grelhadas e penso que uma sobremesa. Uma refeição enfarta-brutos, mas de qualidade. E ambiente agradável, debaixo de um toldo com vista para um parque de estacionamento e uma escola. Mas o grande trunfo é sem dúvida o peixe.

Restaurante Zé Maria
Rua Maria Campina, 14
Tavira
3,5-4 estrelas
€33,40

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

The Perennial Philosophy



O Comilão está neste momento a ler The Perennial Philosophy, de Aldous Huxley, um autor cuja faceta ensaística muito aprecia. «The most needed book in the world.... A masterpiece», diz o NYTimes. Ao contrário da descrição do Guardian, o livro não é «a sweeping history of religious belief». Nada disso. É, sim, uma compilação de textos comentados (com as críticas de Huxley ao progresso) sobre como atingir o Absoluto, a Revelação, Deus, se preferirmos, e os meios para lá chegar. A grande insistência de Huxley é na negação da individualidade, do egoismo, da vaidade, para conseguir uma comunhão perfeita com o Universo. Aqui fica uma passagem que deu que pensar ao Comilão:

«Nós, como indivíduos separados, não devemos tentar pensar nela [Mente Universal] mas antes permitir que ela pense em nós» pág. 73

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Francis Bacon



No passado domingo o Comilão e sua mulher viram o documentário Arena, sobre o pintor britânico Francis Bacon, homónimo de um filósofo do século XVI-XVII. O documentário é interessante, mas fica bastante aquém de um da BBC que o Comilão viu no dia 11 de Setembro de 2001, o dia dos atentados. De qualquer modo, tem informação valiosa: a incursão de Bacon como designer de mobiliário, as suas várias relações (o pintor australiano, o aviador, o deputado...), por vezes violentas, e profissões, telefonista de um gentlemen's club, acompanhante (prostituto) e autor de pequenos crimes (furtos, presume-se). Um dos seus amantes morreu na manhã da inauguração da exposição no Grand Palais (só Picasso teve a honra de expor ali em vida) e outro no dia anterior à inauguração da Tate. É preciso azar. Bacon estava ele próprio em Espanha quando morreu, em 1992 (na altura o seu amante era um milionário espanhol muitos anos mais novo, José, que se tinha ausentado em negócios).
Há uns meses o Comilão tinha lido o livro de John Russell sobre o pintor (colecção World of Art da Thames & Hudson). Aqui fica um excerto:

«Stravinsky uma vez escolheu do clássico de Huizinga O Outono da Idade Média o facto de a vida nesse tempo se caracterizar por uma qualidade de silêncio quase inimaginável na segunda metade do nosso século [XX]. Em contraposição com esse silêncio, a música na Baixa Idade Média tinha um poder quase sobrenatural: nós que estamos constantemente rodeados de música, desejada ou imposta, teríamos dificuldade em reconstituir o estado de espírito de Dionísio o Cartuxo quando entreou na Igreja de S. João em Hertogenbosch e o órgão estava a tocar. Stravinsky, na sua obra tardia frugal, escusa e breve, diz Não ao fluxo auditivo indiferenciado que nos rodeia. [...]

[Bacon] visa colocar perante este fluxo indiferenciado de lixo viral a grande imagem solitária que arrebatará o olho vagueante e nos levará a dizer, 'Isto confere um novo sentido à vida'».