sexta-feira, 15 de maio de 2026

Ravel e a pavana

Ravel queixava-se de que os pianistas tocavam a sua famosa Pavanne pour une enfante défunte demasiado lentamente:

«É uma pavana para uma infanta defunta, não é uma pavana defunta para uma infanta».




A peça é de 1899.

Para juntar aos lapsus linguae

 Grande especialista em assuntos nipónicos, sabia tudo sobre Hiroshige e Nagasáqui




- Ai, era tão boa pessoa!
- Se era! Devia ser imediatamente beatificado e carbonizado.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Uma anedota soviética

Existe um rol de anedotas ácidas dos tempos da URSS - embora se conte que houve quem chegasse a ser mandado para o gulag não sei quantos anos por ser apanhado a dizer uma piada sobre Estaline.

Há dias no Quora encontrei uma que era mais ou menos assim:

Numa noite de 1943, depois da hora de fecho dos bares, um homem gritava a plenos pulmões nas ruas de Moscovo:

- Morte ao ditador! Morte ao ditador!

Por coincidência, estava a passar por ali Lavrentiy Pavlovich Beria, o sanguinário comissário do NKVD, a polícia secreta soviética. O homem estava tão bêbedo que Beria não teve dificuldade em dominá-lo e algemá-lo.

No dia seguinte, Beria levou-o à presença de Estaline.

- Repete ao camarada Estaline o que eu te ouvi dizer ontem à noite.

O homem repetiu:

- Morte ao ditador!

Beria já se via a executá-lo com as suas próprias mãos.

- Tens alguma coisa a alegar em tua defesa?

- Como assim? Não percebo - respondeu o homem. - Morte ao ditador, morte a Hitler!

Estaline virou-se lentamente para o comissário:

- Camarada Lavrentiy Pavlovich, estava a pensar em quem?




quarta-feira, 5 de novembro de 2025

George Orwell, a permanência e a aniquilação

«O sol deslocara-se no céu e as imensas janelas do Ministério da Verdade, agora que a luz já não incidia sobre elas, pareciam lúgubres seteiras de uma fortaleza. O coração de Winston estremeceu ante a enorme forma piramidal. Era demasiado sólida, era impossível ser abalada. Nem mil mísseis poderiam derrubá-la. Interrogou-se de novo sobre para quem estaria a escrever o diário. E diante de si não havia morte, mas sim aniquilação. O diário ficaria reduzido cinzas e ele próprio a vapor. Só a Polícia do Pensamento leria o que ele escrevera antes de o varrer da existência e da memória. Como se poderia apelar ao futuro quando era impossível que qualquer vestígio nosso, mesmo uma palavra anónima escrevinhada num bocado de papel, pudesse sobreviver fisicamente?
[...]
Era um fantasma solitário que murmurava uma verdade que ninguém ouviria. Mas, enquanto ele a murmurasse, de algum modo obscuro a continuidade não seria quebrada. Não era por se fazer ouvir, mas sim por se manter mentalmente sã que uma pessoa prolongava a herança humana.»


George Orwell, 1984

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

A música da tundra - a digressão de Richter pela Sibéria


 «A única música que se ouve na tundra é a chaleira a assobiar ao lume»

Anna Nerkagi, escritora nenetse e defensora dos direitos dos nativos, in Sophy Roberts, Os pianos perdidos da Sibéria, p. 213


Agora um interessante excerto sobre a digressão do grande Sviatoslav Richter pela Sibéria em 1986:

«Em 1986, o lendário pianista soviético Sviatoslav Richter pegou num pedaço de cartão com o mapa da URSS e, com um marcador azul escuro, desenheu uma estrada através da Sibéria, preenchendo os nomes de todos os locais que queria visitar. Enfiou o mapa na sua mala e partiu para atingir o seu objetivo - uma viagem de Moscovo ao Pacífico, e volta, deslocandose em parte por estrada e em parte de comboio, parando amiúde para realizar recitais de piano. Nesta digressão épica, foi acompanhado pela sua amiga filóloga e escritora Valentina Chemberdzhi que, subsquentemente, publicou as suas recordações da viagem.

Richter tinha conhecimento das intensas digressões pelos estrangeiro feitas por Franz Liszt - e a comparação é esclarecedora. Os dois homens suportaram estradas infernais cheias de buracos para chegarem os locais onde queriam tocar. Também tiveram ambos de se remediar que os instrumentos que lhes punham à frente, Liszt a tocar no chocalhante Tompkinson vertical na sala de um hotel irlandês e Richter em todo o tipo de equivalentes soviéticos nas pequenas cidades espalhadas pela Sibéria. Ao contrário do que afirma um mito popular, Richter não levou consigo o seu Yamaha preferido («é difícil imaginar um piano de cauda num yurt ou na taiga!», comentou Valentina Chemberdzhi). «Na Rússia profunda, nem sempre tive esses instrumentos excelentes - nada disso, mas não atenção», disse Richter. «De qualquer modo houve alturas em que toquei em pianos horríveis, e toquei extremamente bem.» 

Richter, que odiava voar, visitou Khabarovsk, Chita (onde procurou os pianos dos Dezembristas e não conseguiu encontrá-los), Ulan-Ude, Irkutsk, Krasnoiarsk e Burnaul, bem como inúmeras povoações pelo meio. E Abakan, nas margens do rio Ienissei, um artigo local descreveu o frenesi suscitado por Richter: pela primeira vez, os siberianos podiam ouvi-lo a tocar ao vivo. Entre os palcos, contaram-se escolas de música e salas de concerto locais. Os programas de Richter - mesmo os garatujados em folhas de papel e afixados pouco antes do espetáculo - esgotavam sempre rapidamente a lotação das salas, por vezes em menos de 30 minutos. «A sala ficava cheia só por as pessoas passarem informação de boca em boca. Isto não acontece não ocidente», comentou uma vez. Com Richter, a simplicidade era o que estava em causa. Gostava de tocar às escuras para o público se concentrar na música e não no intérprete. «A única coisa que importa é que as pessoas não venham por snobismo, mas sim para ouvirem a música», afirmou. Lendo o relato de Valentina Chemberdzhi, parece que o público siberiano de Richter compreendeu: as suas descrições animadas revelam o gosto genuíno das pessoas por uma arte musical ao vivo, que fora precisamente como Denis Matsuev me descrevera a Sibéria no início da minha investigação.»


Sophy Roberts, Os pianos perdidos da Sibéria, pp. 281-282

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

A percepção silenciosa - Boulevard du Temple, de Daguerre

 «A perceção absolutamente silenciosa assemelha-se a uma imagem fotográfica com um tempo de exposição muito grande. A fotografia do Boulevard du Temple de Daguerre apresenta na realidade uma rua parisiense muito movimentada. Contudo, devido ao tempo de exposição extremamente longo, típico do daguerreótipo, tudo o que se move desaparece. Só é visível o que permanece parado. O Boulevard du Temple irradia uma calma quase aldeã», em que todo o ruído está proscrito. «Além dos edifícios e das árvores, apenas se vê uma figura humana, um homem a quem limpam os sapatos, e por isso está parado.» Apenas o longo e o lento se tornam realidade. «Tudo o que se apressa», tudo o que tem pressa – e todos nós temos pressa –, «está condenado a desaparecer. O Boulevard du Temple pode ser interpretado como um mundo visto através de um olho divino. Ao seu olhar redentor apenas aparecem os que permanecem em silêncio contemplativo [ou a engraxar os sapatos, acrescento eu]. É o silêncio o que redime.»

[VARIAÇÕES GOLDBERG, BWV 988, VAR. 25 E 21] Byung-Chul Han, A tonalidade do pensamento, p. 49 (ed. Crítica)


Boulevard du Temple, Louis Daguerre, 1838

O homem a engraxar os sapatos




René Char sobre Rimbaud e os vulcões

«Se os vulcões pouco mudam de lugar, a sua lava percorre o grande vazio do mundo trazendo-lhes virtudes que cantam nas suas feridas».



quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Ah, ah, ah...

Era uma pessoa tão cautelosa, tão cautelosa, mas tão cautelosa, que nunca saía do quarto sem antes bater à porta... 'Toc, toc, toc'



Aias do apocalipse

Por que são os submarinos nucleares tão temidos? Afinal, uma bomba não pode ser lançada a partir de um avião (como Hiroxima e Nagasáqui) ou de terra? Qual a diferença? Aqui fica a explicação, retirada de Guerra Nuclear - Um cenário, de Annie Jacobsen, provavelmente um dos livros mais perturbadores publicados nos últimos anos.




«Um submarino nuclear armado com bombas nucleares é um pesadelo. Um objeto tão perigoso para a existência do homem como um asteroide em rota de colisão com a Terra. Estes submarinos recebem muitos nomes: boomers, navios da morte, máquinas opressivas, aias do apocalipse. São impossíveis de localizar e estão armados até aos dentes. Cada um dos submarinos da classe Ohio do arsenal dos Estados Unidos pode lançar até 80 bombas nucleares em minuto e meio e desaparecer.
A Rússia mantém uma frota de capacidade aproximadamente equivalente.
Temíveis e venerados, são obras-primas de engenharia. Ecossistemas autossuficientes que geram a sua própria energia, fabricam o seu próprio oxigénio e a sua água potável e podem permanecer debaixo
de água quase indefinidamente ou até a tripulação ficar sem comida. Invisíveis para os satélites de reconhecimento, os submarinos circulam no oceano com impunidade. Porque a possibilidade de os detetar é zero, são imunes a um primeiro ataque, ou quase a qualquer ataque, até serem obrigados a subir à superfície no seu regresso ao porto.
Com um comprimento de dois campos de futebol, cada submarino da classe Ohio é capaz de lançar 20 mísseis balísticos submarinos - os terríveis SLBM. Com mais de 13 metros de comprimento, 2 metros
de diâmetro e um peso de quase 60 toneladas no momento do lançamento, cada SLBM está armado com múltiplas ogivas nucleares.
O poder de fogo de um destes submarinos pode destruir um país inteiro.
As capacidades de tiro do submarino nuclear diferem de maneiras significativas dos ICBM de base terrestre. Por serem indetetávels debaixo de água, podem aproximar-se bastante da costa de um país
e lançar um primeiro ataque, baixando o tempo entre lançamento e impacto de 26 a 33 minutos para uma fração disso. Os mísseis nucleares são lançados de submarinos de maneiras únicas. De longo
alcance (intercontinentais) e alcance mais curto, usando uma trajetória deprimida (mais baixa). A modo de exemplo, um submarino russo a rondar ao largo da costa oeste dos Estados Unidos pode lançar os
seus mísseis quase simultaneamente para alvos em todos os cinquenta estados, tudo de uma só vez. Isto é assim porque as múltiplas armas nucleares na ogiva de cada míssil podem ser dirigidas a alvos distintos que estão a centenas de quilómetros de distância. Esta é uma razão primária da política de Lançamento ao Alerta e porque a tríade nuclear - como a tríade nuclear da Rússia - permanece em
Alerta de Gatilho Fácil.
E é o motivo pelo qual o presidente tem uma janela de seis minutos para deliberar e decidir sobre um contra-ataque nuclear.
«Se Washington fosse atacada por um submarino russo a 1.000 quilómetros da nossa costa, o tempo de voo seria menos de sete minutos entre o lançamento e o impacto», previne Ted Postol. «O presidente não teria tempo de escapar e um "sucessor designado" teria então de assumir o comando nuclear.»»


quarta-feira, 30 de julho de 2025

Manuel Vilas, Em tudo havia beleza [Ordesa]

Depois de ler comentários entusiásticos, tive curiosidade de espreitar Em tudo havia beleza, de Manuel Vilas, autor que até aqui eu desconhecia.

Da leitura de algumas páginas 'salpicadas' aqui e ali, retive este trecho:

«Em finais dos anos sessenta, o meu pai levava-nos de férias para uma pensão numa povoação de montanha. A povoação era Jaca. Ele conhecia aquela pensão do seu trabalho como caixeiro-viajante. Dizia que se comia muito bem. Estava entusiasmado de nos levar lá. Estar lá com a família, estar com os seus no sitio em que habitualmente estava sozinho. Presentear-nos a sua descoberta.

Era isso que estava a fazer a oferecer-nos uma descoberta, uma vitória.

Era verdade que se comia bem, faziam uma tortilha à francesa deliciosa e misteriosa, com um sabor que nunca mais voltes a provar em nenhuma tortilha. Eu tinha sete anos na altura, pelo que estávamos em 1970, mais ou menos. A imagem que guardo desses anos implica uma dimenção incorpórea vejo coisas que brilham. vejo pó amarelo, móveis grandes e antigos em estado líquido, corpos irreais, cheiros sadios, mas cheiros falecidos. Antigamente, os cheiros eram melhores, acho eu; melhores não, talvez
mais naturais. A sala de refeições da pensão tinha um toque oitocentista, ou é assim que me lembro dela. As toalhas das mesas eram de bom tecido, muito brancas. As escadas que iam dar aos quartos eram de madeira. As portas dos quartos eram altas. As camas metiam-me medo. Ao jantar, ofereciam como sobremesa um pudim flã caseiro que era uma delícia. Deixavam-me entrar na cozinha. Nunca estivera
nama cozinha de restaurante e deslumbrou-me que fosse tão grande e que tivesse tantas frigideiras e tantas panelas e tanta gente a trabalhar Passeávamos por Jaca, que me parecia uma cidade muito bonita, embora não tivesse praia. Não conseguia entender porque é que não havia praia, se estávamos de férias. A minha mãe levava-me à piscina municipal. Foi aí que me ensinaram a nadar, e foi lá que engoli muita água. Nesses anos, deu-se o boom das piscinas municipais. Todas as terras com mais de dez mil habitantes se emanciparam dos rios.

Espanha transformou-se em câmaras que construíam piscinas municipais. E esquecemo-nos dos rios, que acabaram os seus dias a servir de lixeiras.



Há muitos anos que essa pensão fechou. Não sei que será feito daquelas toalhas tão brancas, nem das frigideiras, nem das camas, nem dos móveis, nem dos faqueiros, nem dos lençóis.

As coisas também morrem.

A morte dos objectos é importante. Porque é o desaparecimento da matéria, a humilde matéria que nos acompanhou e esteve ao nosso lado enquanto a vida se ia cumprindo.»


Pelo que percebi, Ordesa, a palavra que surge em parêntesis retos depois do título, deve referir-se ao Parque Natural de Ordesa e Monte Perdido, em Aragão. Fica no Norte de Espanha, próximo de Jaca, a localidade referida no trecho escolhido.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

A história do boi e do asno

Excerto de O homem mais rico da Babilónia, de George S. Clason (pp. 72-73)


«Nunca ouviu falar do agricultor de Nínive que conseguia entender a linguagem dos animais? Suponho que não, pois não é propriamente o tipo de história que se conta a alguém que se dedica à fundição do bronze. Mas vou contar-lhe para que saiba que pedir emprestado e emprestar vai muito para além do simples facto de o ouro passar das mãos de uma pessoa para as mãos de outra. 

«Esse agricultor, que conseguia entender o que os animais diziam uns aos outros, detinha-se todas as noites no quintal da sua propriedade para os ouvir a conversar. Uma noite ouviu o boi queixar-se dos rigores da sua sorte:

- Trabalho que nem um mouro, puxando o arado de manhã à noite. Por mais quente que esteja o dia, por mais cansadas que estejam as minhas pernas, por mais que o jugo esfole o meu pescoço, tenho que continuar. Tu, no entanto, és uma criatura que tem as suas horas descanso. Cobrem-te com um manto colorido e nada mais fazes do que transportar o nosso amo aos lugares aonde ele deseja ir. Quando ele não sai, ficas o dia todo a comer relva. 

«O asno, apesar dos teus famosos coices, era bom companheiro e simpatizava com o boi. 

- Meu bom amigo - replicou -, o teu trabalho é de facto muito pesado e gostaria de te ajudar. Por isso, dir-te-ei como podes fazer para ter um guia de descanso. De manhã, quando o escravo vier amarrar-te ao arado, deita-te no chão e geme o mais que puderes, para que ele diga que estás doente e não estás em condições de trabalhar.

«O boi assim fez e no outro dia o escravo foi ter com o agricultor para comunicar que o boi estava doente e que não podia puxar o arado.

- Nesse caso - disse o agricultor - use o asno, pois o serviço não pode ficar por fazer.

«Durante o dia todo, o asno, que só quisera ajudar o amigo, viu-se obrigado a dar conta do recado do outro. À noite, depois de o desamarrarem do arado, tinha o coração amargurado, as pernas bambas e o pescoço todo esfolado. 

«O agricultor deixou-se ficar no pátio da quinta a ouvir a conversa entre ambos. 

«O boi foi o primeiro a falar:

- És um bom amigo. Devido ao teu sábio conselho, tive um dia de descanso.

- E eu - retorqui o asno - sou como essas pessoas de bom coração que começam por ajudar o amigo e acabam por ser obrigadas a fazer as tarefas dele. A partir de agora, puxa o teu próprio arado, pois ouvi o amo ordenar aos escravo que tem envie para abate se ficares novamente doente. Oxalá que faça mesmo isso, pois és um preguiçoso.

«A partir de então não se falaram mais, tendo o episódio posto um ponto final a amizade entre os dois. Sabe qual é a moral desta história, Rodan? [...] Apenas isto: se deseja ajudar um amigo, faça-o mas de modo que os fardos dele não sejam colocados sobre os seus ombros.»

A magia dos cabelos e das unhas

Excerto de Histoire des Magies, por Kurt Seligmann, L'Encyclopédie Planète, pp. 48-49 (traduzido pelo Google tradutor com supervisão humana)

«Nem todos os livros de Zoroastro foram preservados, e apenas uma pequena parte do que resta pode ser atribuída ao próprio mago: são os dezassete salmos ou Gatahs. As regras de adoração e sacrifício são quase igualmente antigas. Os outros livros da religião dos magos contêm hinos, orações diárias e ritos litúrgicos. O conjunto de livros denominado Vendidad, uma compilação de ciência antidemoníaca, foi escrito na segunda metade do século V a.C. Contém rituais de um tipo mais puramente mágico do que os outros e que, por isso, requerem toda a nossa atenção: pois a teologia dogmática do Zoroastrismo é essencialmente religiosa, mas o ritual de lidar com os demónios é mágico. Dois exemplos ilustrarão o aspecto mágico dos ritos de purificação: o ritual do cabelo e das unhas, que descreveremos neste capítulo, e o aplicado ao Demónio Mosca, que veremos mais adiante.


Kurt Seligmann (1900-1962). Artista suíço, estudou Belas-Artes em Genebra e Florença. Juntou-se aos surrealistas em Paris, mas acabou por zangar-se com Breton, o mentor do movimento, depois de uma discussão em que Seligmann o acusou de saber pouco sobre o tarot. Quando a Segunda Guerra Mundial deflagrou na Europa, mudou-se com a mulher para os Estados Unidos, onde o casal acabou por comprar uma quinta. Seligmann montou o seu ateliê no antigo celeiro e constituiu uma coleção de livros raros de mgia e ocultismo. Foi nessa mesma quinta que morreu, num acidente surreal: estava a disparar contra os ratos quando escorregou na neve e disparou contra a sua própria cabeça...   



No décimo sétimo capítulo da Vendidad, lemos uma prescrição que diz respeito ao corte de unhas e cabelos, que, assim que são separados do corpo, pertencem ao Maligno como moradas de impureza.

O interesse que Zoroastro manifestou por cabelos e unhas não deixou de provocar comentários irónicos: quantas superstições havia neste sábio! É certo que ritos semelhantes existem entre tribos primitivas cujo nível de civilização é muito inferior ao dos iranianos da Antiguidade. Algumas tribos escondem os seus cabelos e unhas, ou queimam-nos em segredo com receio de que caiam nas mãos de feiticeiros que os utilizem para lançar feitiços maléficos sobre os seus antigos donos.

O nosso sentimento de condescendência em relação às superstições zoroastrianas diminuirá quando soubermos quantas crenças semelhantes ainda existem na Europa e na América. Os gaúchos do Chile enfiam os cabelos em fendas nas paredes, como os turcos. Os arménios escondem-nos em igrejas, ocos de árvores e colunas. Os camponeses franceses dos Vosges enterram-nos em segredo, juntamente com os seus dentes extraídos, e deixam uma marca no local do seu esconderijo, para que possam ser encontrados no dia da ressurreição. Em Drumconrath, na Irlanda, as palavras das Escrituras de que todos os fios de cabelo de cada pessoa são contados pelo Todo-Poderoso são levadas à letra, e os fios cortados são separados para serem recuperados no Juízo Final. O bom povo de Liège, na Bélgica, retira cuidadosamente os cabelos dos pentes por temer que caiam nas mãos das bruxas.

A ideia de Zoroastro de que o cabelo e as unhas geram insetos e outros animais não era sua. Esta crença era mais antiga que a Pérsia e perdurou até ao século XVI d.C. Acreditava-se que os cabelos das mulheres cobertos de estrume se transformavam em cobras. No seu livro sobre bruxaria, publicado em 1603, o famoso juiz Henri Boguet recorda a opinião de São Tomás, que acreditava que os ramos de madeira podre poderiam sofrer a mesma transformação mágica. Embora Paracelso tenha afirmado: nihil est sine spermate — nada existe sem semente —, a antiga superstição sobreviveu até à época de Leibniz e Newton. Ainda hoje, na Bretanha, se acredita na geração espontânea de insetos: os pelos levados pelo vento transformam-se em moscas.

Cobras, insetos, sapos, piolhos, moscas etc. eram considerados animais nascidos da corrupção e não da germinação, daí as suas ligações com poderes infernais. Segundo Zoroastro, foram criados por Arimã, uma vez que nada de imperfeito poderia vir de Ormuzd. No Cristianismo, a imperfeição era atribuída ao Diabo, que a tradição popular nunca retrata numa forma humana perfeita: coxeia ou tem cascos fendidos que revelam a sua verdadeira natureza. Satanás, tal como Arimã, era o mestre dos animais impuros. Não deu aos seus seguidores um piolho de prata como símbolo da sua amizade?

Esta crença na particular corruptibilidade dos cabelos e das unhas é muito misteriosa, porque a realidade prova o contrário: na sepultura, continuam a crescer durante algum tempo, apesar da decomposição do cadáver.

O cristianismo, tal como o zoroastrismo, estabeleceu uma ligação entre o cabelo e o inferno. Os judeus piedosos não têm melhor opinião sobre as unhas, e é por isso que as cortam o mais curtas possível: para eles, as unhas, habitadas pelo mal, são a única parte do corpo incapaz de servir a Deus. Em Madagáscar, os nativos acreditam que o diabo reside debaixo de unhas mal aparadas. 

«As bruxas», diz Paracelso, «dão a Satanás os seus cabelos como garantia do contrato que fazem com ele. Mas o Maligno não desperdiça esses cabelos; corta-os muito finamente e mistura-os com o hálito do qual formará granizo; e é assim que normalmente descobrimos pequenos fios de cabelo no coração das pedras de granizo.» Esta ideia de que o cabelo é o refúgio por excelência dos encantos demoníacos seria adotada pelos caçadores de bruxas. Antes de as levarem à tortura, cortavam-lhes o cabelo, o que, ao que parece, era o suficiente para fazer muitas confessarem. O jurisconsulto Jean Bodin (1530-1596), por exemplo, relata na sua obra De la demonomanie des sorciers (1580) que, em 1485, quarenta bruxas confessaram os seus crimes em simultâneo depois de lhes terem rapado a cabeça. Para defender estas práticas, Bodin recorda que Apolónio de Tiana sofreu o mesmo destino quando o Imperador Domiciano o prendeu por bruxaria. Recorde-se que, após a libertação da França, em 1944, as mulheres que tinham tido relações com os alemães viram os seus caracóis caírem sob as tesouras dos patriotas: era inegavelmente um vestígio longínquo de magia primitiva, um rito purificador realizado numa pessoa tabu. Os cabelos destas mulheres estavam contaminados pelo vírus do tabu que os franceses tinham lançado - para usar o vocabulário de Freud - sobre os ocupantes.»


As moradas da imundície. 

1. Zaratustra (Zoroastro) perguntou a Ahura-Mazda (Ormuzd): «Ó Abura-Mazda! espírito benfazejo, criador do mundo material, tu, santo, qual é o ato mais horrível pelo qual um homem aumenta a força mais malévola dos Devas, como faria ao oferecer-lhes um sacrifício?» 

2. Ahura-Mazda respondeu: «É quando um homem cá em baixo, penteando o cabelo, rapando-o ou cortando as unhas, os atira para um buraco ou fenda. 

3. «Depois, por necessidade de observar os ritos legais, os Devas a que chamamos piolhos multiplicar-se-ão na terra e devorarão o trigo no trigal e as roupas no guarda-roupa.

4. «É por isso, Zaratustra!, que sempre que penteares o cabelo, rapares ou cortares as unhas aqui na terra, os levarás a dez passos do crente, a vinte passos do fogo, a trinta passos da água e a cinquenta passos dos feixes consagrados de Baresma (ramos sagrados).

5. De seguida, cavará um buraco, com dez dedos de profundidade se a terra for dura, e doze se for macia; colocarás o teu cabelo nele e dirás em voz alta estas palavras para atingir o demónio: «Na sua misericórdia, Mazda fez crescer as plantas». 

6. «Aí, traçarás três sulcos com uma lâmina de metal à volta do buraco, ou seis, ou nove, e cantarás o Ahura Vairya três vezes, ou seis, ou nove vezes.

7. «Para as unhas, cavarás um buraco fora da casa, tão fundo como a última falange do dedo mindinho; nele colocarás as unhas e dirás em voz alta estas palavras para atingir o demónio: «As palavras são ouvidas pelo homem piedoso na santidade, com bons pensamentos».

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

As duas Romas

Dei-me conta recentemente, ao ler em dias próximos uns epigramas de Marcial (38-104 d.C.) e umas máximas de Marco Aurélio (121-180), de que existem duas Romas. A Roma austera, viril, devotada ao dever - em suma, estóica - e a Roma brincalhona, maledicente, sensual, às vezes obscena, devotada ao prazer.

Podemos dizer com alguma propriedade que serão as duas faces da mesma moeda.

Essa dicotomia aparece bem representada numa máxima do imperador-filósofo: «A arte da vida assemelha-se mais à do lutador do que à do dançarino, pois o lutador deve estar sempre pronto e em guarda, mantendo-se firme contra os esforços súbitos e imprevisíveis do seu adversário». (recorro não à fonte original, mas ao livro de Ryan Holiday e Stephen Hanselman Estoico todos os dias, que está cheio de sabedoria antiga).

Mas este é talvez o melhor exemplo da Roma estoica, uma daquelas máximas gravadas na pedra:

«Lembra-te de que quando a mente se recolhe em si e encontra lá a tranquilidade, torna-se invulnerável. Não age contra a sua vontade, ainda que tal resistência seja irracional ou uma decisão deliberada e baseada na lógica... A mente sem paixões é uma fortaleza. Não existe nenhum lugar mais seguro. Assim que encontramos lá refúgio, estamos em segurança para sempre. Não perceber isto é ignorância; mas sabê-lo e não procurar este refúgio é uma infelicidade.» 

Marco Aurélio, Meditações, 8. 48 (Holiday e Hanselman, p- 328)

E agora a Roma libidinosa, debochada, libertina...

«Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.»

(Catulo, Carmina, V)

E finalmente Marcial:

«QUE SEJAM MEUS VERSOS POUCO SÉRIOS

Que sejam os meus versos pouco sérios,
tais que o mestre os não pode ler na Escola,
tu lamentas, Cornélio. Porém, os meus livrinhos,
tal como às tuas consortes os maridos,
não podem sem caralho dar prazer.
Como escrever lascivo canto nupcial
sem usar lascivos termos nupciais?
Quem com traje de jogos florais, às meretrizes
permite que tenham seriedade de matronas?
Estes ligeiros poemas a uma lei obedecem:
apenas dão prazer se forem excitantes.
Por isso dá ao demo a seriedade,
não condenes, te peço, as minhas brincadeiras,
e tira da ideia castrar os meus livrinhos.
Nada há mais torpe que um Príapo capado!»

Epigramas, I, 36

(Estes dois excertos são retirados de Poemas Eróticos da Antiguidade Clássica, org. Victor Correia)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Padrões desencontrados

Tenho padrões desencontrados:
estou a usar cuecas às riscas
com um pijama aos quadrados.

(depois de ler haikus e Adília Lopes)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Um belo poema de Natália Correia

Acabo de ouvir na rádio (no programa A Vida Breve, na Antena 2), este poema de Natália Correia, dito pela própria. 'Canaliza', se assim posso dizer, uma visão do mundo muito própria de Natália, uma sensualista que não nega o mistério nem o espírito, antes os mistura com a carne.

Talvez deva confessar que há aspectos da personalidade de NC com que não simpatizo, mas não há como negar que a sua poesia possui uma fecundidade assombrosa. E é revelador que este fosse um dos poemas da vida de Mário Soares, também ele um homem que apreciava os prazeres da vida.


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.





quarta-feira, 27 de novembro de 2024

O chão debaixo dos nossos pés









Mais cedo ou mais tarde, todos acabaremos por ir parar lá a baixo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Axel Munthe, excertos de O Livro de San Michele

 «Os macacos gostam de rir de nós, mas a menor suspeita de troça da nossa parte irrita-os profundamente. Nunca devemos rir-nos de um macaco, porque não o podem suportar». p. 64

(Um longo parêntesis: 

O meu amigo Jorge Sande Lemos contava que o tio, que era diretor dos caminhos de ferro de Angola, certa vez em Benguela foi convidado para jantar em casa de um português lá radicado, provavelmente negociante. Para o prevenir, esse homem explicou-lhe que tinha um chimpanzé, creio, como criado, que ia servir à mesa. O convidado que não estranhasse - mas, sobretudo, que nunca se risse dele.


Excerto de entrevista do jornal Sol a Maria da Paz, tratadora de primatas do Jardim Zoológico:

Ouvi uma vez uma história de um homem, em África, que tinha um chimpanzé como criado, vestido a rigor, que servia à mesa e tudo. É possível treinar um primata a esse ponto?

Ter um chimpanzé vestido como criado, sim. Ter um chimpanzé treinado para levar coisas à mesa, sim. Agora, fazer uma refeição completa, já não acredito. Provavelmente teria um chimpanzé vestido como criado e se calhar levou alguma coisa à mesa. Não acredito que tenha levado tudo. Apesar de serem treinados, os chimpanzés não têm perfil submisso a esse ponto. Mas isso é uma situação muito estranha. Hoje em dia ainda há pessoas que dizem com orgulho que têm saguins e cercopitecos em casa. É horrível. Os animais têm de viver uns com os outros. Nós nunca vamos ter a capacidade de lhes dar o que eles precisam. O cão foi domesticado há milhares de anos e mesmo assim às vezes há problemas, quanto mais um animal selvagem.

Segundo a história que ouvi, o dono do chimpanzé dizia aos seus convidados: ‘Por favor, ajam com naturalidade, nunca se riam dele’. O escritor Axel Munthe também disse que os macacos gostam muito de se rir de nós, mas não gostam nada que as pessoas se riam deles. Isso é verdade?
Há uma coisa que é mostrar os dentes, que para nós é rir e para eles é um comportamento agressivo. ‘Estou-te a mostrar os dentes porque te vou morder. Vê como tenho dentes grandes para te morder’. Portanto, se eu me rir para ele, ele vai-se comportar como com os outros da sua espécie, pode-se tornar agressivo. Ele está a ler que é um comportamento da ameaça. Se eles se riem de nós? É preciso ter uma intimidade muito grande com os animais para perceber que eles se riem de nós – e não se riem como nós nos rimos, mas às vezes fazem determinadas coisas mesmo para nos chatear.)


Voltando a Axel Munthe e ao seu Livro de San Michele:

«A insónia não mata um homem, se este não se mata a si mesmo, e a falta de sono é uma das causas mais frequentes do suicídio. Mas mata a alegria de viver, mina as suas forças, suga-lhe o sangue do cérebro e do coração, como um vampiro. Lembra-lhe, de noite, o que o sono benéfico lhe deveria fazer esquecer. Faz-lhe esquecer, de dia, aquilo de que se devia lembrar.» p. 212

E ainda:

«Norstrom dizia sempre que eu tinha dois cérebros, que funcionavam alternadamente na minha cabeça: o cérebro bem desenvolvido dum imbecil e o cérebro mal desenvolvido duma espécie de génio.» p. 210


Axel Munthe em Capri, 1888-89


The precociously bright son of a Swedish pharmacist, Axel Munthe worked under Jean Martin Charcot, and in 1880, became the youngest doctor in French history. By the 1890s, he was world-famous for his healing powers, believed by some to be supernatural. He moved in the most colourful and exalted circles of fin de siecle Europe, counting amongst his friends Henry James, Howard Carter, Rainer Maria Rilke, Lady Ottoline Morrell and Count Zeppelin. Though physician to the Swedish court, where he became the lover of the Crown Princess Victoria, Munthe was more at home with nature than with people. He travelled through remotest Lapland, as well as across Europe, and his great love was animals, whom he went to great lengths to protect. In 1929 he published 'The Story of San Michele', an account of his life, shot through with his love for Italy and Capri, where he built a bird sanctuary and the house of his dreams, the Villa San Michele. The book became an international best seller, translated into 40 languages, and has become one of the classics of the last century.


Agora o saboroso epílogo desta história.

Uma bela quinta-feira, estava eu a chegar ao escritório, abro a porta e, na sala que antecede o meu gabinete, estava sentado JSB, o administrador. «Estou a fazer-lhe uma espera». Ri-me. «Não, estou mesmo. É que a minha mãe leu a sua crónica sobre o macaco, e diz que o macaco era da avó dela.» Não queria acreditar.

Tratava-se então de uma senhora argentina, viúva, que fez um cruzeiro onde conheceu um senhor português, e casaram-se em segundas núpcias. Em casa (presumo que em Benguela) tinham um chimpanzé, o Pepe, que servia à mesa e até tinha uma farda toda catita. JSB mostrou-me uma foto dele vestido (mas não com a farda de servir), a fumar. «Também ninguém se podia rir dele, ficava muito zangado e partia os pratos» (exatamente como me contou o Jorge Sande Lemos). «Mataram-no, porque achavam muita graça a vê-lo fumar, então davam-lhe cigarros. E bagaço. E ele ganhou o vício da bebida». Exatamente como Billy, o saguim de Axel Munthe, que se tornou alcoólico.

crónica no Nascer do SOL, 21/XI/2024

O chimpanzé que servia à mesa

Ao lançar o convite para jantar, o anfitrião fez um aviso: o convidado que não estranhasse ele ter um chimpanzé por criado, mas sobretudo que nunca se risse dele.

José Cabrita Saraiva

Tive em tempos a pretensão, entretanto abandonada, de escrever um livro de contos sobre homens e animais que reunia alguns episódios verídicos que fui ouvindo aqui e ali. A linha condutora eram as relações que transcendiam a barreira – real, convencionada ou imaginária – que nos separa das outras espécies. Havia a história dos pescadores chineses que usam corvos marinhos na faina e que para os domesticarem dormem com as crias nas primeiras semanas de vida destas, numa simbiose perfeita; a história de um caseiro que conseguia comunicar com os animais e que nunca tomava banho – certa vez em que foi obrigado a tomar, apanhou uma pneumonia e quase ia desta para melhor; a história de um polvo do Oceanário que se apaixonou pela sua tratadora, que graças aos seus cuidados conseguiu recuperá-lo quando ele se encontrava doente, mas, ao regressar ao seu país, provocou-lhe um desgosto tal que ele fugiu do aquário e acabou por morrer; e ainda a história de um pombo com uma asa partida que foi tratado por uma família mas acabou dentro de uma panela, transformado numa bela canja. Repito: todas estas histórias são reais.

Esqueci-me de referir talvez a mais curiosa, que me contou o meu amigo Jorge Sande Lemos quando trabalhávamos no Mosteiro dos Jerónimos. O seu tio, que julgo que era diretor dos caminhos de ferro de Angola, certa vez em Benguela foi convidado para jantar em casa de um português lá radicado, provavelmente um negociante. Aceitou de bom grado. Mas, p ara que ele não fosse apanhado de surpresa, o homem explicou-lhe que tinha como criado um chimpanzé, se não me engano, que ia servir à mesa. O convidado que não estranhasse – mas, sobretudo, que nunca se risse dele, pois isso poderia levar a um comportamento agressivo por parte do animal. Tanto quanto sei, o chimpanzé serviu mesmo à mesa e até estaria fardado. O convidado comportou-se com a naturalidade possível e a refeição passou-se sem sobressaltos.

Ainda acalentava o projeto de escrever esse livro de contos quando li O Livro de San Michele, de Axel Munthe (1859-1949), o médico e psiquiatra sueco, discípulo de Charcot e de Pasteur, que havia quem considerasse que tinha poderes de cura sobrenaturais. E recordei-me da história do chimpanzé que servia à mesa e do aviso do seu proprietário ao cruzar-me com esta passagem: «Os macacos gostam de rir de nós, mas a menor suspeita de troça da nossa parte irrita-os profundamente. Nunca devemos rir-nos de um macaco, porque não o podem suportar».

Um dia, quando entrevistei Maria da Paz, tratadora de primatas do Jardim Zoológico há cerca de trinta anos, perguntei-lhe se era possível um chimpanzé servir à mesa – não que duvidasse da palavra do meu amigo! «Provavelmente teria um chimpanzé vestido como criado e se calhar levou alguma coisa à mesa», respondeu-me. Portanto sim, era possível. Quanto ao facto de os macacos não gostarem que nos riamos deles, tem uma explicação simples: «Há uma coisa que é mostrar os dentes, que para nós é rir e para eles é um comportamento agressivo. ‘Estou-te a mostrar os dentes porque te vou morder. Vê como tenho dentes grandes para te morder’. Portanto, se eu me rir para ele, ele vai-se comportar como com os outros da sua espécie, pode-se tornar agressivo.

Só tempos mais tarde vim a descobrir que Axel Munthe tinha escrito também um livro chamado Homens e Bichos, o título que eu gostaria de dar ao meu. O médico sueco era um grande amante e defensor dos animais – tendo chegado ao ponto de comprar uma montanha por trás da sua villa em Capri para aí fazer um santuário para os pássaros. Entre os seus animais de estimação contavam-se vários cães e gatos, que passeavvam livremente entre as estátuas da Antiguidade que Munthe também colecionava, uma coruja, um mangusto e até um babuíno chamado Billy. Este, ao contrário do chimpanzé de Benguela, portava-se mal, tinha um problema com o álcool e não consta que servisse à mesa.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Irma Grese, a «bela fera de Belsen»

Excerto de Os cúmplices de Hitler - os rostos do Terceiro Reich, de Richard J. Evans (Edições 70)

«Tendo em conta a natureza masculina radical do regime nazi, não é de admirar que poucas mulheres tenham ido a tribunal. Algumas alcançaram muita notoriedade, mas não tanta como Ilse Koch. Uma das
mais notórias foi Irma Grese, que a imprensa alcunhou de «bela fera de Belsen», «rainha do gangue de Belsen», «monstro louro» e «mulher de Satã». «Era uma das mulheres mais bonitas que alguma vez vi», testemunhou Gisella Perl, uma ex-prisioneira que tinha sido médica em Auschwitz: «Tinha um corpo perfeito, o rosto era claro e angélico, e os olhos azuis eram os mais alegres e inocentes que se podem imaginar. Mas Irma Grese foi a pessoa mais depravada, cruel e criativamente perversa que alguma vez encontrei.»

Grese destacou-se entre os réus do julgamento dos guardas e funcionários do campo de concentração de Bergen-Belsen, cuja descoberta pelas forças britânicas, em 15 de abril de 1945, chocou e horrorizou o
mundo. O campo continha cerca de 60 mil presos famintos e cheios de doenças, no meio de 13 mil cadáveres por enterrar; 14 mil dos sobreviventes estavam tão debilitados que morreram nas semanas seguintes. Grese permaneceu no campo, aparentemente convencida de que nada tinha a recear dos representantes dos Aliados. Porém, dois dias após a chegada dos britânicos, foi presa. Depois de ser obrigada a auxiliar no enterro dos cadáveres, foi transferida para uma prisão na cidade de Celle, onde ficou a aguardar julgamento por um tribunal militar britânico que se reuniu em Luneburgo, juntamente com o comandante do campo, Josef Kramer, e outros quarenta e três réus. Cerca de 2 mil jornalistas e observadores assistiram à leitura das acusações, que incluíram a participação voluntária num «sistema de homicídio, brutalidade, crueldade e negligência criminosa». Muitos dos réus, incluindo Grese, tinham servido em Auschwitz e tinham sido retirados para Belsen devido à aproximação do Exército Vermelho.


Grese admitiu ter obrigado os prisioneiros a ficarem de pé durante horas nas contagens matinais e que, em Auschwitz, andava com uma chibata com a qual lhes batia. «Era um chicote muito leve», afirmou em tribunal, «mas, quando eu batia com ele em alguém, doía.» O comandante do campo proibiu-a expressamente de usar a chibata, mas Grese usava-a quando descobria um detido a roubar alguma coisa ou quando as suas ordens eram ignoradas. Também confessou que andava armada e que espancara prisioneiros com uma bengala e com a mão enluvada. Alguns ex-presos de Auschwitz testemunharam que a tinham visto matar a tiro uma judia húngara de trinta anos sem a mínima provocação. Outra testemunha contou ao tribunal que a sua «ocupação favorita era bater-lhes e pontapeá-los com as suas botifarras depois de caírem ao chão». Um ex-prisioneiro polaco relatou que Grese tinha acompanhado,
na sua bicicleta e com um cão, um destacamento de trabalho que teve de caminhar ao longo de cerca de dezasseis quilómetros para apanhar ervas para a cozinha do campo. Alguns presos caíram, por estar
fracos e malnutridos, e Grese atiçou-lhes o cão. Ao ser contrarinterrogada, disse que nunca tivera um cão, mas admitiu ter forçado um destacamento de trabalho a correr à volta do campo por «desporto,
como punição pelo roubo, por desconhecidos, de alguma carne da cozinha do campo. Alguns detidos colapsaram, exaustos, mas Grese negou que alguém tivesse morrido. Em Auschwitz, Grese auxiliou o médico do campo, Josef Mengele, a selecionar prisioneiros para as câmaras de gás, que Grese sabia que estavam à sua espera. «Quando alguma fugia», disse o advogado de acusação, «você apanhava-a e
espancava-a.» «Sim», respondeu ela. Quando lhe perguntaram se obrigava os presos a ajoelharem-se quando se portavam mal na contagem ela anuiu.»

pp. 463-464


capa de Os cúmplices de Hitler, de Richard J. Evans (Edições 70) 


Poucas pessoas ouviram falar em John Woolman (e o que é a Edonomia)

 Excerto do livro História para amanhã, de Roman Krznaric (edições 70)

«Poucas pessoas ouviram falar em John Woolman. Nascido em Nova Jérsia em 1720, Woolman era membro da Sociedade Religiosa dos Amigos, uma seita protestante radical mais comummente conhecida como os quacres. Os quacres distinguiam-se pela rejeição da ideia de um clero ordenado, pelo que podiam ter uma relação direta com Deus, e pela sua dedicação à promoção da justiça social. Mas eram também defensores de uma vida simples ou daquilo a que se referiam como «singeleza», materializada num conjunto de regras que ainda hoje vigoram, o chamado «Testemunho de Simplicidade».

Os quacres como Woolman usavam roupas escuras feitas de tecido sem tingimento e rejeitavam ornamentos vistosos como fivelas, rendas ou fitas. Minimizavam os bens materiais, preferindo poucos móveis de madeira a colchões estofados e cortinas de veludo. Comiam alimentos simples e até falavam com simplicidade, evitando títulos honoríficos referindo-se aos dias da semana como «Primeiro Dia», «Segundo Dia» e por aí fora.

No início do século XVIII, muitos quacres estavam incomodados com o número crescente dos seus confrades que andavam a quebrar as regras - de que era exemplo o próprio fundador da Pensilvânia,
William Penn, que vivia numa casa majestosa e tinha uma predileção por ótimos vinhos e por cavalos puro-sangue. Na década de 1740, Woolman encabeçou um movimento para devolver o quacrismo às suas raízes espirituais e éticas de singeleza e piedade. Viajou incansavelmente pelo país, pregando as virtudes da simplicidade e incitando os outros quacres a combater injustiças como a escravatura, tema acerca do qual publicou numerosos ensaios.

PORTRAIT OF JOHN WOOLMAN The original sepia drawing on a large folio sheet from which this reproduction has been made is almost certainly the work of John Woolman's friend and contemporary, Robert Smith III, of Burlington, New Jersey, son of Daniel (d. 1781), and grandson and namesake of the well known Judge Robert Smith of the Court of Common Pleas, Burlington County (1769 &c). Robert Smith III married Mary, daughter of Job Bacon, of Bacon's Neck, N. J. He had a natural gift for seizing a likeness and has left a large collection of striking sketches. The technique is identical with this sketch, which, however, is more ambitious, and the erratic background is omitted. The medal of the British and Foreign Anti-Slavery Association, founded in 1787 by Thomas Clarkson, which appears in the original, goes to prove this a memory sketch, as are many of Robert Smith's portraits, and also furnishes corroborative evidence of its genuineness. The original was in possession of the late Governor Samuel W. Pennypacker, whose endorsement is on the reverse, and whose accurate judgment was seldom at fault. It was sold with the contents of his library in 1908 and came later into the hands of the present owner, George Vaux, Jr., of Bryn Mawr, Pa., to whom are due the editor's thanks for the privilege of reproduction.

Não sendo nem um grande orador nem um intelecto brilhante a principal razão para a sua fama era, segundo um historiador, a de ser «o mais nobre exemplo de vida simples que a América alguma ver

produziu». Woolman transformou a vida simples num desporto radical. Depois de se estabelecer como comerciante de tecidos, para obter meios de subsistência, deu por si a ganhar tanto dinheiro que tentou reduzir os seus lucros pedindo aos clientes que comprassem menos tecidos e de peças mais baratas - o que não é algo que nos ensinem na Harvard Business School. Por fim, em vez disso, passou a tratar de um pomar de macieiras. Woolman foi também pioneiro do comércio justo, boicotando os artigos de algodão produzido em plantações com escravos e insistindo em pagar diretamente, com moedas de prata, aos criados escravizados das casas que visitava. E também era um vegetariano praticante. Certa vez, sendo-lhe oferecida carne de aves, respondeu: «O quê? Querem que eu coma os meus vizinhos?». Ao viajar como missionário para Inglaterra, em 1771, Woolman ficou tão incomodado com luxo da sua cabina navio que decidiu dormir, durante as seis semanas seguintes, no húmido e sujo convés, com os marinheiros. Ao chegar a Inglaterra, decidiu visitar York, onde planeava observar, em primeira mão, as pobres condições sociais do país. Mas, ao ouvir dizer que teria de viajar numa carruagem puxada por cavalos, Woolman decidiu evitar essa crueldade para com os seus irmãos equinos, preferindo, em vez disso, ir a pé - mais de duzentas milhas. Por fim, chegou a York, mas nunca mais de lá saiu. Enquanto ali esteve, apanhou uma dose mortal de varíola e foi enterrado numa campa de mendigo.»  pp. 71-73


E agora sobre o Japão:

«Edonomia: a sustentabilidade profunda no Japão pré-industrial

Imaginem que se encontram na velha ponte de madeira de Nihonbashi, no coração comercial de Edo, a antiga cidade japonesa agora conhecida como Tóquio. Estamos mais ou menos no ano 1750, no
período Edo, a época que foi de 1603 a 1868, governada pelos xoguns Tokugawa. Vemo-nos rodeados de um burburinho de moradores que conversam enquanto giram as sombrinhas, de comerciantes de marisco que se apressam a atravessar a ponte, a equilibrar cestos transbordantes aos ombros, e de trabalhadores que transportam arroz e tecidos para as bancas do mercado em ambas as margens do rio. O cheiro vindo do famoso Nihonbashi Uogashi - o mercado do peixe - flutua no ar. Olhamos para o Sol nascente, à distância, no horizonte da baía de Edo.

O Japão governado pelos Tokugawas estava isolado do resto do mundo: numa tentativa de se proteger da influência dos missionários cristãos e das potências ocidentais, o regime tinha cortado a maior parte
das relações comerciais internacionais e proibido as viagens para terras estrangeiras. Mas isso não impediu Edo de se tornar uma cidade colossal, com mais de um milhão de habitantes. Esta era dominada pelo Castelo de Edo e pelas residências dos samurais e dos senhores regionais, ou dáimios. As shomin - as pessoas comuns - viviam, sobretudo, a leste do castelo, sendo grande parte do resto da cidade ocupada por templos e outros edifícios religiosos.




Depois de ter sido devastada pelo incêndio de Meireki, em 1657, quando se estima que cem mil pessoas tenham morrido, Edo continuou a ser uma cidade de madeira, das casas aos templos e dos barcos às pontes.

Mas, olhando atentamente, Edo tinha algo de ainda mais notável: era uma cidade sem desperdício. Quase tudo era reutilizado, reparado, reaproveitado ou, em última instância, reciclado - aquilo a que, hoje em dia, chamaríamos uma economia circular. A economia de Edo «funcionava como um muito eficiente sistema em circuito fechado», defende Eisuke Ishikawa, historiador da sustentabilidade. Um yukata tradicional - um simples quimono de verão, feito de algodão - era usado até o tecido começar a ficar desgastado, altura em que se tornara suficientemente macio para ser transformado num pijama. A fase seguinte da sua vida era como fralda, que podia ser lavada repetidamente, após o que se poderia tornar um pano de lavar o chão, antes de, por fim, ser queimado como combustível. O algodão era tão precioso que foi desenvolvida uma tradição de retalhos, a chamada boro - literalmente, trapos esfarrapados -, em certas partes do Japão, com os aldeões pobres a reunir fragmentos de pano deitados fora e a coserem-nos formando casacos e outras peças de roupa, que eram passadas de geração em geração. Tudo era recolhido para ser reutilizado - os pingos de cera das velas eram novamente moldados, as antigas panelas de metal eram derretidas, o cabelo humano era vendido a fabricantes de perucas. A conceção modular das casas significava que as tábuas do soalho podiam ser facilmente removidas, aplainadas e reutilizadas em novos edifícios. Os samurais em maré de azar reparavam sombrinhas. A palha que sobrava do cultivo do arroz era usada para fazer sandálias e cordas, para embrulhar utensílios domésticos e, por fim, como fertilizante e combustível. A reciclagem de papel era uma enorme indústria - inclusive, reciclava-se o papel higiénico, que era feito das resistentes fibras das
cascas de árvore. Uma pessoa não pagava a calhandreiros para levarem os dejetos humanos - eles é que lhes pagavam e, depois, vendiam a sua preciosa carga como fertilizante agrícola. Embora esta economia circular funcionasse em todas as ilhas do Japão, o seu maior desenvolvimento ocorreu na cidade de Edo, onde havia mais de mil negócios de restauro e reciclagem.

Esta cultura de profunda sustentabilidade era reforçada por extensa regulamentos que visavam a gestão da escassez de recursos, especialmente quanto à madeira. A economia do Japão dependia tanto da madeira quanto, hoje em dia, dependemos dos combustíveis fósseis. Quando os xoguns Tokugawa tomaram o poder, viram-se confrontados com um grave carência desse precioso recurso: os antigos terrenos arborizados tinham sido tão drasticamente depauperados - em parte, devido ao crescimento demográfico - que havia uma verdadeira ameaça de colapso económico. De acordo com o historiador ambiental Conrad Totman, «o atual Japão deveria ser uma sociedade rural empobrecida e repleta bairros de lata, subsistindo com base numa paisagem lunar erodida, não como uma sociedade abastada, dinâmica e altamente industrializada que vive num arquipélago luxuriantemente verde».

O regime regulatório Tokugawa, que lhes permitiu evitar esse destino, teve início com a proibição do desmatamento, incluindo limites ao abate de árvores de certos tamanhos e de certas espécies, de modo
que se permitisse a regeneração da floresta. As multas eram significativas e, nalgumas regiões, infringir as regras era punível com a morte. Havia também restrições ao tipo de ferramentas que podiam ser usadas para desmatar e à quantidade de lenha que os aldeões podiam recolher. Estas medidas eram combinadas com um sistema abrangente de racionamento da madeira. Foram introduzidos decretos que limitavam o tipo, o tamanho e o número de pedaços de madeira que podiam ser usados na construção de casas e de outros novos edifícios. As regras do racionamento estavam intimamente ligadas ao estatuto: os que se achavam mais acima na hierarquia social, como os samurais e os nobres, tinham autorização para usar mais madeiras raras e podiam construir casas maiores, mas também eles se deparavam com restrições. Embora as regras de racionamento da madeira fossem, por vezes, desrespeitadas, foram um instrumento político crucial, que «comprou tempo» para a regeneração dos terrenos arborizados, defende Totman.

Estas restrições negativas do lado da procura eram combinadas com uma abordagem positiva do lado da oferta: os Tokugawas enveredaram por um dos mais extensos programas de plantação florestal a que o mundo alguma vez assistiu. Embora se tratasse de uma política de cima para baixo, imposta pelo xogunato reinante, esta estava altamente dependente do envolvimento das populações rurais. Conquanto alguns nobres regionais usassem mão de obra escrava, com o passar do tempo desenvolveu-se uma série de estruturas de incentivo, como a oferta de pagamentos em dinheiro aos aldeões para plantação de novas árvores. As florestas arrendadas tornaram-se mais comuns, muitas vezes sob a forma de nekiyama, na qual um aldeão plantava um local e vendia antecipadamente a madeira a um comerciante. Os aldeões cultivavam as árvores e, quando estas eram abatidas, depois de várias décadas, eles podiam replantar o local e voltar a arrendar a terra. As assembleias das aldeias desenvolveram também novas regras para administrar as florestas comunitárias, conhecidas como wariyama, para assim ajudar a geri-las de maneira sustentável e a evitar litígios, e plantaram-se novas matas para proteger as terras da erosão e das inundações. Ao longo de um período de um século, com início por volta de 1750, foram plantadas árvores às dezenas de milhões, reflorestando a paisagem devastada.
Esta combinação de circularidade sustentável e regeneração dos recursos era a essência daquilo a que se chamou «Edonomia», que surgiu no Japão pré-industrial. O período Edo continua a ser um dos melhores exemplos históricos de como poderá ser uma economia regenerativa que funcione dentro de limites ecológicos seguros.»


capa de História para Amanhã, de Roman Krznaric (Edições 70(




terça-feira, 15 de outubro de 2024

Octavio Paz, Trabalhos do poeta (sobre a desaprendizagem)

 XIV

«Com dificuldade, avançando alguns milímetros por ano, abro um caminho entre as rochas. Há milénios que meus dentes se gastam e minhas unhas se quebram para chegar além, ao outro lado, à luz, ao ar livre. E agora que minhas mãos sangram e meus dentes oscilam, mal seguros, numa cavidade gretada pela sede e pela poeira, detenho-me para contemplar minha obra: passei a segunda parte de minha vida a partir as pedras, a perfurar as muralhas, a rachar as portas e a separar os obstáculos que interpus entre a luz e eu durante a primeira parte de minha vida.»

in Antologia Poética, ed. Círculo de Leitores, p. 41


O poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz (1914-1998),
prémio Nobel da literatura em 1990