terça-feira, 7 de janeiro de 2014
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
O quarto onde a minha avó dormia
Tudo naquela casa sussurrava viuvez:
o corrimão frio e liso das escadas,
a vizinha da frente sempre à espreita,
o telefone preto na entrada.
O cheiro das alcatifas e cortinados,
os naperons,
o quadro da Última Ceia,
os bifes de peru com arroz,
o som dos botões da televisão
quando se mudava de canal,
o pó debaixo do sofá,
onde passava o fio do candeeiro.
Quem diria que já houvera vida naquela casa,
que outrora fora habitada por crianças,
correrias e brincadeiras,
que nem sempre tinha sido uma casa condenada?
Mas o mais triste,
o mais desamparado
era o quarto mal iluminado
com um roupeiro alto onde eu não entrava.
A cama sem um vinco
demasiado vasta para uma pessoa só.
Numa das mesas-de-cabeceira,
um despertador metálico.
Na outra (para dormirem lado a lado)
a fotografia de um jovem fardado –
o retrato tirado em África
a preto e branco do meu avô.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
As adagas de Borges (excertos de artigo da NYRB)
http://www.nybooks.com/articles/archives/2014/jan/09/daggers-jorge-luis-borges/?page=1
Artigo muito interessante de Michael Greenberg na NYReview of Books, a propósito de Professor Borges, um livro com transcrições das aulas do escritor feitas por alunos.
Aqui ficam os excertos:
Artigo muito interessante de Michael Greenberg na NYReview of Books, a propósito de Professor Borges, um livro com transcrições das aulas do escritor feitas por alunos.
Aqui ficam os excertos:
According to his biographer, Edwin Williamson,1 Borges’s father handed him a dagger when he was a boy, with instructions to overcome his poor eyesight and “generally defeated” demeanor and let the boys who were bullying him know that he was a man.
Swords, daggers—weapons with a blade—retained a mysterious, talismanic significance for Borges, imbued with predetermined codes of conduct and honor. The short dagger had particular power, because it required the fighters to draw death close, in a final embrace. As a young man, in the 1920s, Borges prowled the obscure barrios of Buenos Aires, seeking the company of cuchilleros, knife fighters, who represented to him a form of authentic criollo nativism that he wished to know and absorb.
With its harsh consonants and open vowels, and its unambiguous vocabulary of things that “correspond to fire, metals, man, trees,” Anglo-Saxon was perfectly suited to the poetry of battle.
Borges had been reading English translations of the epics throughout his life, but when he was fifty-nine, he set out to teach himself Anglo-Saxon, a process he called “the pure contemplation of a language at its dawn.” The epics provided him with a kind of literary ideal: concrete, precise, and suffused with the glow of the sword as a magical object.
When he was in his late seventies, he still lived in the modest Buenos Aires apartment he had shared with his mother until she died. His biographer, Edwin Williamson, describes his bedroom as resembling “a monk’s cell with its narrow iron bed, single chair, and two small bookcases where he kept his collection of Anglo-Saxon and Scandinavian books.” Those ancient books were an integral part of the ethos that sustained this most modern of writers.
O Talho parte e reparte
Já lá comprei umas salsichas - e gostei. Desta vez decidimos ir lá jantar.
Ao contrário do que previa, a ementa é curta em termos de oferta de carnes. Pensava eu que a pessoa escolhia o tipo de bife - entre 20 opções diferentes - e dizia o peso que queria. Qualquer coisa como um talho em que depois também cozinhavam. Puro erro.
Há um prato de pato, dois bifes, outro que se chama 'O Sr. Quer Alheira' (que desconfio tratar-se de um trocadilho de mau gosto) e pouco mais, num total de talvez meia dúzia de opções.
A proposta 'Viagem na Carne', com um nome pouco apetecível e o preço ainda menos apetecível de 38€ pessoa, sendo que todos na mesa ficam vinculados a essa escolha, é afinal um 'faça você mesmo', ou seja, é o cliente que escolhe cinco pratos que mais lhe saltam à vista e eles preparam em modo de degustação.
Como amuse-bouche vem uma salsicha (merguez qualquer coisa) simpática, mas quase insignificante. Para entrada pedimos uma horta do talho - um bocadinho de presunto (muito bom) com legumes baby cozidos, tudo sobre uma 'areia negra' (uma espécie de farofa que depois leva tinta de choco). Resumindo: no capítulo das entradas, muita modernice e pouca substância.
A grande estrela era o bife de carne Maronesa. Pedi médio/mal ('Mas vem com sangue', avisou o empregado). Ao contrário do aviso, a carne vinha quase bem passada. Na minha opinião, era boa, mas não extraordinária, e faltava sal. Já para não dizer que não apreciei o facto de a carne vir 'aparada' - fez-me lembrar a fruta normalizada e afins. Para ser honesto e justo, devo dizer que a minha senhora gostou muito do bife. Acompanha com boas batatas fritas, parecidas com as da Brasserie (ou mesmo iguais).
O tinto sugerido pelo empregado - este bastante mais profissional e descontraído do que o primeiro, que, além de outras argoladas, nos colocou na situação pouco confortável de nos interrogar qual o colega que tinha cometido uma falha) - o vinho do Talho (4,5€ o copo) revelou-se muito bom.
A sobremesa foi um óptimo leite creme. Delicioso mesmo.
Tudo somado, foi uma boa refeição, mas com um preço um bocadinho puxado (no meu entender) para o que se comeu, sem dúvida muito por culpa dos bifes (22€ cada). Total 80€
Veredicto do Comilão: 3 estrelas - bom, preço um pouco excessivo, pouca escolha de carnes, serviço irregular, precisa de ser afinado
Ao contrário do que previa, a ementa é curta em termos de oferta de carnes. Pensava eu que a pessoa escolhia o tipo de bife - entre 20 opções diferentes - e dizia o peso que queria. Qualquer coisa como um talho em que depois também cozinhavam. Puro erro.
Há um prato de pato, dois bifes, outro que se chama 'O Sr. Quer Alheira' (que desconfio tratar-se de um trocadilho de mau gosto) e pouco mais, num total de talvez meia dúzia de opções.
A proposta 'Viagem na Carne', com um nome pouco apetecível e o preço ainda menos apetecível de 38€ pessoa, sendo que todos na mesa ficam vinculados a essa escolha, é afinal um 'faça você mesmo', ou seja, é o cliente que escolhe cinco pratos que mais lhe saltam à vista e eles preparam em modo de degustação.
O amuse-bouche: simpático, mas insignificante
Como amuse-bouche vem uma salsicha (merguez qualquer coisa) simpática, mas quase insignificante. Para entrada pedimos uma horta do talho - um bocadinho de presunto (muito bom) com legumes baby cozidos, tudo sobre uma 'areia negra' (uma espécie de farofa que depois leva tinta de choco). Resumindo: no capítulo das entradas, muita modernice e pouca substância.
a entrada de 'presunto crocante'
A grande estrela era o bife de carne Maronesa. Pedi médio/mal ('Mas vem com sangue', avisou o empregado). Ao contrário do aviso, a carne vinha quase bem passada. Na minha opinião, era boa, mas não extraordinária, e faltava sal. Já para não dizer que não apreciei o facto de a carne vir 'aparada' - fez-me lembrar a fruta normalizada e afins. Para ser honesto e justo, devo dizer que a minha senhora gostou muito do bife. Acompanha com boas batatas fritas, parecidas com as da Brasserie (ou mesmo iguais).
o bife: saboroso, sem ser excepcional
O tinto sugerido pelo empregado - este bastante mais profissional e descontraído do que o primeiro, que, além de outras argoladas, nos colocou na situação pouco confortável de nos interrogar qual o colega que tinha cometido uma falha) - o vinho do Talho (4,5€ o copo) revelou-se muito bom.
A sobremesa foi um óptimo leite creme. Delicioso mesmo.
leite creme delicioso com bola de gelado de abacate
Tudo somado, foi uma boa refeição, mas com um preço um bocadinho puxado (no meu entender) para o que se comeu, sem dúvida muito por culpa dos bifes (22€ cada). Total 80€
Veredicto do Comilão: 3 estrelas - bom, preço um pouco excessivo, pouca escolha de carnes, serviço irregular, precisa de ser afinado
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Umberto Eco e J.-C. Carrière, A Obsessão do Fogo
Enquanto não termino a leitura deste livro fascinante, deixo alguns excertos que revelam a riqueza do conteúdo:
«Irá o livro desaparecer com o aparecimento da internet? Escrevi sobre o assunto a seu tempo, isto é, no momento em que a questão parecia pertinente. [...] Com a internet, regressámos à era alfabética. Se alguma vez julgámos ter penetrado na civilização das imagens, eis que o computador nos reintroduz na galáxia de Gutenberg e toda a gente se vê de ora em diante obrigada a ler. [...] Se passar duas horas no seu computador a ler um romance, os seus olhos tornar-se-ão bolas de ténis» (UE, 19-20)
«Num determinado momento, os homens inventaram a escrita. Podemos considerar que a escrita é o prolongamento da mão e, nesse sentido, ela é quase biológica. É a tecnologia da comunicação imediatamente ligada ao corpo» (UE, 23)
«Assim, os nossos bons velhos DVD passarão, também eles, para a arrecadação, a menos que conservemos os antigos aparelhos que nos permitam visioná-los.
Está é aliás uma das tendências do nosso tempo: coleccionar o que a tecnologia se esforça por desactualizar. Um dos meus amigos, um cineasta belga, conserva na sua cave dezoito computadores, simplesmente para poder continuar a visualizar trabalhos antigos. Tudo isto para dizer que não há nada de mais efémero que os suportes duradouros» (JCC 29)
«O culto da página escrita e mais tarde do livro é tão antigo quanto a escrita. Já os romanos desejavam possuir e coleccionar os rolos de papiro. Se perdemos livros foi por outras razões. Eles desaparecem por razões de censura religiosa ou porque as bibliotecas tinham tendência para arder à mais pequena oportunidade, tal como as catedrais, uma vez que umas e outras eram em grande parte construídas de madeira. [...]
Foi provavelmente a chegada dos bárbaros a Roma por repetidas vezes e o seu hábito de incendiar a cidade antes de a abandonar que fez pensar em encontrar um lugar seguro para aí colocar os livros. E o que seria mais seguro do que um mosteiro?» (UE 34-35)
«Descobrimos nos museus que as camas dos nossos antepassados eram de pequenas dimensões: logo, essa gente era mais pequena. O que implica necessariamente um outro timbre de voz. Quando escuto um disco antigo de Caruso, pergunto-me se a diferença entre a sua voz e a dos grandes tenores contemporâneos se deverá unicamente à qualidade técnica da gravação e do suporte, ou ao facto de as vozes humanas do início do século XX serem diferentes das nossas. Entre a voz de Caruso e a de Pavarotti, há décadas de proteínas e de desenvolvimento da medicina» (UE, 36-37)
««Pedi uma vez a estudantes de som, como exercício, que constituíssem certos ruídos, certos ambientes sonoros do passado. [...] Frisando que os pavimentos eram de madeira, as rodas das carruagens de ferro, as casas mais baixas, etc.» (JCC, 37)
«Joguei com o meu neto que, aos sete anos, se exercitava num desses jogos electrónicos por que tem afeição e fui severamente batido por dez contra 280. Contudo, sou um antigo jogador de flipper e muitas vezes, quando tenho algum tempo, jogo no meu computador a matar monstros do espaço, em todo o tipo de guerras galácticas, até com algum sucesso». (UE, p. 52
«Nas suas deslocações no final do século XVIII, os aristocratas transportavam consigo bibliotecas de viagem em pequenas malas. Em trinta ou quarenta volumes, em formato de bolso, eles não se separavam de tudo aquilo que uma pessoa virtuosa devia conhecer» (JCC, p. 58)
«Irá o livro desaparecer com o aparecimento da internet? Escrevi sobre o assunto a seu tempo, isto é, no momento em que a questão parecia pertinente. [...] Com a internet, regressámos à era alfabética. Se alguma vez julgámos ter penetrado na civilização das imagens, eis que o computador nos reintroduz na galáxia de Gutenberg e toda a gente se vê de ora em diante obrigada a ler. [...] Se passar duas horas no seu computador a ler um romance, os seus olhos tornar-se-ão bolas de ténis» (UE, 19-20)
«Num determinado momento, os homens inventaram a escrita. Podemos considerar que a escrita é o prolongamento da mão e, nesse sentido, ela é quase biológica. É a tecnologia da comunicação imediatamente ligada ao corpo» (UE, 23)
«Assim, os nossos bons velhos DVD passarão, também eles, para a arrecadação, a menos que conservemos os antigos aparelhos que nos permitam visioná-los.
Está é aliás uma das tendências do nosso tempo: coleccionar o que a tecnologia se esforça por desactualizar. Um dos meus amigos, um cineasta belga, conserva na sua cave dezoito computadores, simplesmente para poder continuar a visualizar trabalhos antigos. Tudo isto para dizer que não há nada de mais efémero que os suportes duradouros» (JCC 29)
«O culto da página escrita e mais tarde do livro é tão antigo quanto a escrita. Já os romanos desejavam possuir e coleccionar os rolos de papiro. Se perdemos livros foi por outras razões. Eles desaparecem por razões de censura religiosa ou porque as bibliotecas tinham tendência para arder à mais pequena oportunidade, tal como as catedrais, uma vez que umas e outras eram em grande parte construídas de madeira. [...]
Foi provavelmente a chegada dos bárbaros a Roma por repetidas vezes e o seu hábito de incendiar a cidade antes de a abandonar que fez pensar em encontrar um lugar seguro para aí colocar os livros. E o que seria mais seguro do que um mosteiro?» (UE 34-35)
«Descobrimos nos museus que as camas dos nossos antepassados eram de pequenas dimensões: logo, essa gente era mais pequena. O que implica necessariamente um outro timbre de voz. Quando escuto um disco antigo de Caruso, pergunto-me se a diferença entre a sua voz e a dos grandes tenores contemporâneos se deverá unicamente à qualidade técnica da gravação e do suporte, ou ao facto de as vozes humanas do início do século XX serem diferentes das nossas. Entre a voz de Caruso e a de Pavarotti, há décadas de proteínas e de desenvolvimento da medicina» (UE, 36-37)
««Pedi uma vez a estudantes de som, como exercício, que constituíssem certos ruídos, certos ambientes sonoros do passado. [...] Frisando que os pavimentos eram de madeira, as rodas das carruagens de ferro, as casas mais baixas, etc.» (JCC, 37)
«Joguei com o meu neto que, aos sete anos, se exercitava num desses jogos electrónicos por que tem afeição e fui severamente batido por dez contra 280. Contudo, sou um antigo jogador de flipper e muitas vezes, quando tenho algum tempo, jogo no meu computador a matar monstros do espaço, em todo o tipo de guerras galácticas, até com algum sucesso». (UE, p. 52
«Nas suas deslocações no final do século XVIII, os aristocratas transportavam consigo bibliotecas de viagem em pequenas malas. Em trinta ou quarenta volumes, em formato de bolso, eles não se separavam de tudo aquilo que uma pessoa virtuosa devia conhecer» (JCC, p. 58)
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Comer em Roma
Já lá vão uns meses desde que o Comilão e a sua senhora visitaram a Cidade Eterna. Mas vale a pena dedicar um post ao que se come por ali.
Aqui ficam imagens de quatro refeições:
- Orso d'Oro (3 estrelas). Os antipasti da casa tinham uma variedade notável
- Navona Notte (4 estrelas) - muito bom e muito em conta. Pratos recomendados: a terrina de melanzane (beringela) com mozzarella para entrada, as pizas, o tiramisù. Os pratos mais caros não são necessariamente os melhores
- Uma trattoria cujo nome não recordo, onde comi uns ovos estrelados com trufa memoráveis e uns ravioli negros com gambas
Aqui ficam imagens de quatro refeições:
- Orso d'Oro (3 estrelas). Os antipasti da casa tinham uma variedade notável
- Navona Notte (4 estrelas) - muito bom e muito em conta. Pratos recomendados: a terrina de melanzane (beringela) com mozzarella para entrada, as pizas, o tiramisù. Os pratos mais caros não são necessariamente os melhores
- Uma trattoria cujo nome não recordo, onde comi uns ovos estrelados com trufa memoráveis e uns ravioli negros com gambas
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