sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Walker, Spiritual and Demonic Magic from Ficino to Campanella


Há muito que o Comilão ambicionava ler este clássico sobre a magia no Renascimento. Já o havia tentado, mas as abundantes notas de rodapé com trechos em latim acabaram por fazê-lo desistir. Pois bem: desta vez decidi ignorar as ditas notas e avançar para uma leitura mais escorreita.

O livro começa com uma explanação da teoria da música de Marsílio Ficino, o grande humanista e filósofo neoplatónico (1433-1499), que acreditava que era possível, através da música, atrair as influências benignas dos planetas. O facto de tanto a música como o espírito serem elementos aéreos fazia, segundo Ficino, com que aquela interagisse directamente com este.

O primeiro sublinhado aparece numa nota de rodapé (p. 20), uma informação curiosa:
«[Ficino] descreve como na Apúlia aqueles que são mordidos por uma tarântula são curados por uma música especial que os põe a dançar»

Mais adiante, no capítulo sobre Lazarelli (p. 69):
«Isto é novamente a analogia com a a criação divina através da Palavra, mas na versão cabalística segundo a qual Deus criou o universo através das 22 letras do alfabeto hebraico. Confirma o que já se podia adivinhar no preâmbulo ao hino - que Lazarelli mantém uma teoria mágica da linguagem, que acredita que as palavras têm uma ligação real e não convencional, às coisas, e podem exercer influência sobre elas».

Depois da música planetária, o poder mágico das palavras, capazes de actuar sobre o real.

Novo sublinhado na página seguinte:

«Pois Joannes Mercurius era de facto muito estranho. Apareceu em Roma em 1484 usando uma coroa de espinhos com a inscrição: 'Hic est puer meus Pimander quem ego elegi', pregando e distribuindo folhetos; em Lyon, em 1504, usando o mesmo adereço, realizou milagres de magia natural e prometeu a Luís XII um filho e mais vinte anos de vida. Era um magus milagreiro, que havia sido, como nos diz Lazarelli, regenerado pelo próprio Hermes Trimegisto».

Um excerto já do último capítulo (p. 205):
«Em 1599 Campanella foi posto na prisão em Nápoles, após o falhanço da sua revolta, que deveria ter estabelecido a sua utópica e altamente heterodoxa Cidade do Sol. Em 1603, após torturas abomináveis, foi condenado a prisão perpétua, como herético; havia escapado à pena de morte simulando loucura. Continuou em Nápoles, escrevendo profusamente, até 1626, quando foi libertado pelos espanhóis. Mas após alguns meses era de novo detido e colocado numa prisão em Roma. A sua última esperança estava largamente depositada no Papa, como antes havia estado no Rei de Espanha e no futuro haveria de estar no Rei de França»

À frente, vamos encontrar Campanella e o Papa juntos a praticar rituais 'suspeitos':
«Primeiro isolavam o quarto do ar exterior, depois borrifavam-no com vinagre de rosa e outras substâncias aromáticas, e queimavam louro, mirtilo, rosmaninho e cipreste. Penduravam panos brancos de seda e decoravam o quarto com ramos. Então, duas velas e cinco tochas, representando os sete planetas, eram acesas; [...] Havia música Jovial [Júpiter] e venérea, que servia para dispersar as qualidades perniciosas do ar infectado pelo eclipse e, simbolizando os bons planetas, expulsar as influências dos maus» (p. 205)

D.P. Walker
Spiritual and demonic magic from Ficino to Campanella
258 págs.
35,80€ (na bookdepository, o meu exemplar foi adquirido através da Amazon)
2,5 estrelas (todo o livro anda muito à volta de Ficino e dos seus seguidores ou comentadores)

1 comentário:

  1. Este artigo refere alguns aspectos interessantes ligados à magia, à astrologia e à cabala. Desperta curiosidade, apesar de se refirir que o mesmo se centra talvez demasiado no tal Ficino e seguidores. abraço

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