terça-feira, 30 de maio de 2017

A Rússia e a superfície da lua

Aqui fica o arranque promissor de "Estaline e os Cientistas", de Simon Ings:

"Entre 1550 e 1800, a Rússia conquistou todos os anos um território com a dimensão da Holanda atual, até que, no século XVIII, os escritores europeus se deram conta de que aquele país se tornara maior do que a superfície visível da Lua" (Prólogo, p. 1)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Duas frases de Nietzsche

Eis o que sinto em relação a alguns que parecem esforçar-se por complicar o que é simples:

"Eles turvam as águas, para fazê-las parecer profundas"

"Quem sabe que é profundo, procura a clareza; quem quer parecer profundo para a multidão, procura a obscuridade. Porque a multidão considera qualquer coisa profunda se não conseguir ver o chão lá em baixo: a multidão é tímida e tem receio de ir para a água"
Os arautos do politicamente correto que gostam muito de invocar obras de arte revolucionárias (mas só porque já foram assimiladas), livros proibidos (mas só porque se tornaram de leitura obrigatória) e autores malditos (porque hoje já são consensuais...), são os mesmos, quando aparece algo que foge aos cânones ou que os incomoda, a arremessar pedras e a arrasar os prevaricadores. Gostam de arvorar-se em tolerantes, mas à primeira oportunidade não perdoam.

quarta-feira, 15 de março de 2017

O exibicionismo de um crítico (há quem goste; eu não)

Não é costume fazer aqui crítica à crítica, mas neste caso não consegui ficar indiferente perante tanta tontice e exibicionismo.

http://observador.pt/especiais/uma-noite-no-novo-restaurante-cabaret-de-jose-avillez-atencao-este-artigo-contem-spoilers/

Claro que o artigo de Tiago Pais tem aspetos engraçados, nomeadamente a forma como introduz a pessoa que o acompanhou e depois a transforma num leitmotiv ao longo do texto:

Decidi que não vou escrever “companhia/companheira” no resto do texto. Haja paciência. De agora em diante, passará a ser identificada como Nini, que dos hipotéticos diminutivos do seu nome verdadeiro é o que me parece mais apropriado à temática cabaret-gourmet.

Mas o artigo também tem aspetos irritantes - e de que maneira! A começar pelo título, onde surge o tão em voga 'contém spoilers'. Talvez funcione com o tipo de gente que anda atrás destas modas - e por isso vejo comentários do género "que delícia de texto". Mas não comigo.

Pior do que os modismos, porém, é a vaidade que revela esta narrativa sobre o 'privilegiado' a quem é concedida uma espécie de entrada VIP para um espaço ultra-sofisticado e secreto.

apenas umas horas depois, receberia um telefonema da sua assessora de comunicação, Mónica Bessone, com uma notícia e um convite:
 Tiago, o novo espaço já está em soft opening. Não posso revelar grande coisa, para já, mas queríamos muito que viesse conhecê-lo e jantasse cá uma noite destas.

UAU!, este tipo recebe telefonemas da assessora de comunicação do Avillez!

Outra coisa ridícula é o autor querer mostrar a erudição do seu palato, quando diz isto:

Já as pedras têm, no recheio, um estranho sabor a peixe. Discutimos o que será. Fígado de tamboril? Quase: “É fígado de bacalhau”, esclarecem-nos.

Ou esta passagem, talvez ainda mais patética:

Mais um desafio: que é pombo, disso não há dúvidas, que traz lascas de foie gras também não. O puré que acompanha não é tão fácil de identificar. Será cheróvia? Será nabo? Nabos somos nós e a cheróvia não sabe assim. Fui ver, era tupinambo.

Quanto ao restaurante em si, pareceu-me ser tudo aquilo que não me encanta: muito investimento num ambiente artificial, muitos maneirismos, uma comida cheia de efeitos. Tal e qual como o texto do crítico do Observador.

terça-feira, 14 de março de 2017

O 28 de maio e o fim da I República

Tem sido uma agradável surpresa a leitura de Ditadura ou Revolução? A verdadeira história do dilema ibérico nos anos decisivos de 1926-1936, do engenheiro electrotécnico aposentado José Luís Andrade.




Deixarei aqui apenas dois excertos que podem interessar aos meus estimados amigos e seguidores.

«"O 14 de Maio de 1915, que derrubou Pimenta de Castro, foi muito mais sangrento do que o 5 de Outubro de 1910; os combates que se seguiram ao assassinato de Sidónio, em Dezembro de 1918 e princípios de 1919, com o esmagamento da revolta monárquica de Monsanto, em Lisboa, e o derrube da Monarquia do Norte, foram uma autêntica guerra civil; a noite sangrenta de 1921, com o assassinato do fundador da República Machado Santos, do chefe do Governo António Granjo e de outros políticos moderados, foi uma selvajaria sem precedentes. De cada banho de sangue, o Partido Democrático saía mais confirmado na força do seu poder sobre o Estado, mais decidido a dominar a sujeitar a Igreja, e mais afastado e isolado do povo e do país" [esta é uma citação de João Seabra]
«Mas a verdade é que, apesar das dúvidas quer à esquerda quer à direita, muita gente, inconformada e enjoada com a triste realidade em que o País se tornara, conspirava para derrubar os 'bonzos' e levar à derrocada do Partido Democrático. E crescia assim, cada vez mais, o entusiasmo pela simplicidade e transparência da solução militar» pp. 63-64

Em Espanha:
«Sem que tivesse ainda assentado a poeira da agitação provocada por uma tão profunda mudança de regime, logo se iniciaram manifestações violentas do mais desenfreado anticlericalismo, com assaltos, pilhagens, vandalização e incêndio de igrejas, mosteiros e conventos. No dia 11 de Maio, grupos organizados com motivações anticlericais incendiaram em Madrid numerosas igrejas, conventos, estabelecimentos de ensino e outros edifícios de instituições religiosas. Como se isso não fosse suficiente, o ódio desenfreado levou-os a praticar carnavalescas representações sacrílegas, arrastando pelas ruas relíquias, ossadas, imagens e mesmo os próprios sacerdotes e religiosos». pp. 218-219

Imbecis superficiais e imbecis profundos. Dez aforismos de Karl Kraus

Aqui fica uma seleção dos melhores aforismos de Karl Kraus (pensador e escritor austríaco, 1874-1936), que encontrei no Citador (www.citador.pt)




Existem imbecis superficiais e imbecis profundos.

Educação é aquilo que a maior parte das pessoas recebe, muitos transmitem e poucos possuem.

O segredo do demagogo é de se fazer passar por tão estúpido quanto a sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele.

Uma das causas mais comuns de todas as doenças é o diagnóstico.

O vício e a virtude são parentes como o carvão e o diamante.

Um provérbio só pode nascer num estádio da língua em que ela ainda é capaz de silêncio.

Escolho o meu inimigo pelo alcance da minha flecha.

A técnica é um criado que faz tanto barulho a arrumar a sala ao lado que os patrões não conseguem fazer música.

A carreira é um cavalo que chega à porta da eternidade sem cavaleiro.

Os alunos comem o que os professores digerem.

quinta-feira, 2 de março de 2017

A Europa (e o mundo?) sob o jugo de Hitler e Estaline

Um excerto de The Dictators: Hitler's Germany and Stalin's Russia, de Richard Overy:

«Ambos os ditadores também refletiram brevemente sobre o que teria acontecido se tivessem cooperado em vez de lutado entre si. 'Juntos com os alemães', diz-se que notou Estaline, 'teríamos sido invencíveis'. Hitler, em fevereiro de 1945, pesando as opções que poderia ter tomado no passado, assumiu que 'num espírito de implacável realismo de ambas as partes' ele e Estaline 'poderiam ter criado uma situação em que um entendimento teria sido possível'».



Assustador... embora, em última análise, tivesse de haver uma luta pelo domínio que acabaria por derrubar um dos ditadores (ou mesmo os dois).

Aproveito também para partilhar um link para um artigo fabuloso de Antony Beevor sobre os nazis e as drogas que ajuda a explicar:
1. a aparente invencibilidade e super-humanidade dos soldados da Wermacht
2. o crescente alheamento de Hitler da realidade

http://www.nybooks.com/articles/2017/03/09/blitzed-very-drugged-nazis/